Articulistas

A arte da prudência


| Tempo de leitura: 4 min

Depois de uma breve ausência, a pedido de amigos, colegas e alunos aqui estou novamente. Coloco meus pensamentos à apreciação do leitor, após um tempo de introspecção, de recolhimento mental e um pouco de Santo Agostinho (Confissões).

Sabemos que o mundo atual (Terra) jaz numa desordenação cíclica em que nada perturba os sóis e os planetas. Mas o colapso caótico, dia-após-dia, avança sobre nós, homo sapiens sapiens demens, e fere a Mãe-natureza. Em meio a essa involução planetária vagam os intelectuais.

Os intelectuais são identificados por Gramsci (1891-1937) como “detentores do conhecimento científico, formadores de opinião e orientadores das massas”. Na visão de Wolfgang Leo Maar, a tarefa do intelectual é mediar os interesses individuais e coletivos, dar sentido à política e à cultura. Esse seria o autêntico intelectual. Indivíduo aberto às novidades do pensamento; disposto a rever suas próprias idéias; sensível às demandas sociais; responsável pelos seus pensamentos e humanista pleno.

Mas qual seja o papel do intelectual, uma coisa é certa, indubitável: o princípio ético é fundamental. Ética? Sim! As cinco letras mais maltratadas, violentadas e desprezadas da razão na atualidade. Em respeito a ela, o intelectual deve tomar as devidas precauções quanto a pensamentos simplificados, generalizações e conclusões apressadas.

O filósofo e professor de Ética da Universidade de São Paulo Renato Janine Ribeiro transgrediu essa norma. Para relembrar: em artigo publicado no caderno Mais da Folha de São Paulo, 18 de fevereiro p.p, afirmou não defender a pena de morte contra os assassinos de João Hélio porque acha que é pouco. E confessa: “não paro de pensar que deveriam ter uma morte hedionda, como a que infligiram ao pobre menino. Imagino suplícios medievais, aqueles cuja arte consistia em prolongar ao máximo o sofrimento, em retardar a morte... Torço para que, na cadeia, os assassinos recebam sua paga; torço para que recebam de modo demorado e sofrido”.

Quando um intelectual do porte de Renato Janine Ribeiro expõe uma opinião retrógrada e intolerante torna-se motivo de preocupação e repúdio. Ao mesmo tempo condená-lo, por suas palavras, ficamos diante de um novo dilema: o intelectual deve dizer o que só agrada? Não. Pois, se assim fosse, a história mundial teria de ser reescrita.

O que não pode é o pensador banalizar suas idéias por força do sentimentalismo que, nas palavras de Janine Ribeiro, foi a força motriz de seu pensamento.

Miguel Reale Júnior, em O Estado de São Paulo, 3 de março p.p., analisou: “Quando um mestre da filosofia política, estudioso do Iluminismo, escreve algo desse feitio, é porque houve a falência da racionalidade e o instinto tomou o lugar da sensibilidade”. Nas palavras de Baltazar Gracián (1601-1658), em A Arte da Prudência, o homem deve estar sempre do lado da razão e deve fazê-lo com firmeza de propósito de tal modo que nem mesmo a paixão e nem a tirania o desvie desse caminho. Desviar do caminho é próprio da condição humana.

A propósito, Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, ao publicar artigo "Hipocrisia e preconceito", no Jornal da Cidade, dia 13 de março p.p, caminhou para a dita “razão distorcida", termo esse cunhado por Andrea Lombardi (professor de língua e literatura italianas na UFRJ). A doutora, além de arrogar o cargo de ombuds(wo)man do jornal de Bauru, também comentou superficialmente – de modo deselegante - sobre as “pílulas da coluna Entrelinhas”, sobre o conhecimento e identidade dos articulistas e criticou a citação excessiva nos textos de “autores famosos, da era antiga aos tempos modernos”.

Cá entre nós, entender o pensamento e a vida de um autor por meio da Barsa, romance ou minissérie é extremamente limitado. A complexidade do processo histórico e a contribuição de personagens históricos não pode ser subestimada. A desfaçatez ideológica de Renato Janine Ribeiro não pode invalidar todo o arcabouço de idéias já prestados à academia uspiana.

Os fatos no Brasil e no mundo aí estão. À mostra. Diariamente, ficamos expostos, através das mídias, impressas ou não, a um infinito e dinâmico caleidoscópio de sentimentos, atos e fatos humanos. As pessoas inteligentes devem se armar com munição do saber e do conhecimento, reflexão e prudência. O resto é balela.

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor do IESB-PREVE, Colégio Fênix e ITE.

Comentários

Comentários