Os produtores de açúcar e álcool do País ainda não extraem da cana tudo o que ela pode oferecer. A afirmação é do vice-presidente da Dedini, empresa que fabrica instalações industriais para usinas canavieiras, José Luiz Olivério, feita na última semana durante o 7º Encontro Regional de Produtores de Cana, organizado pela Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana). O encontro fez parte do calendário de eventos da Feicana/FeiBio (Feira de Negócios do Setor de Energia).
De acordo com Olivério, o Brasil desperdiça em energia que poderia ser extraída da palha da cana o equivalente a 500 mil barris de petróleo por dia. As projeções mostram que em 2010, se a palha não for utilizada para geração de energia elétrica, o País estará desperdiçando o equivalente a 650 mil barris de petróleo por dia.
Segundo o vice-presidente, a palha da cana tem geralmente dois fins: ou é queimada (para viabilizar a colheita manual) ou é deixada no solo (no caso da colheita mecanizada).
Devido à crescente mecanização da colheita, especialmente no Estado de São Paulo, a palha tem sido considerada um dos principais resíduos gerados na colheita. Dados da União da Agroindústria Canavieira (Unica) mostram que para cada tonelada de cana colhida são gerados 280 quilos de palha.
“É preciso utilizar também esse subproduto ao invés de desperdiçá-lo”, diz. “Estamos queimando energia, tão vital para o futuro do País”, complementa.
A tecnologia disponível no mercado já possibilita esse reaproveitamento, porém, o entrave está na logística. “Temos a tecnologia para a produção de energia, porém, o custo para levar a palha até a usina ainda é alto”, lembra. Em sua visão, nos próximos anos haverá uma solução econômica para o transporte e esse obstáculo também será superado.
Olivério ministrou a palestra “A evolução do setor da agroindústria da cana-de-açúcar”. Em sua apresentação, ele mostrou o que chama de “Revolução 3 BIOs”, modelo ideal de usina que integraria a produção da bioeletricidade, do biodiesel e do bioetanol, todos produtos partindo da matéria-prima cana-de-açúcar.
“As usinas que estão sendo instaladas devem considerar no projeto essas novas tecnologias, pois se elas desenvolvem um plano não adequado, já podem iniciar a produção com modelo já ultrapassado e ficar atrás no mercado”, explicou Olivério.
Biodiesel
As chamadas usinas de açúcar e álcool, segundo ele, ficaram para trás no tempo. “Elas não são somente para a produção de açúcar e álcool, elas têm inúmeros produtos”, afirmou. Os principais são a eletricidade e o biodiesel.
Antes de 1975, as usinas produziam somente açúcar e melaço. Com o advento do Proálcool, em 1975, as plantas passaram a produzir também álcool combustível.
Atualmente, as unidades produzem além do açúcar e álcool, energia e estão incorporando o biodiesel. A primeira planta a unir os quatro produtos foi inaugurada em novembro do ano passado no município de Barra do Bugres (MT).
É a Barrálcool, cuja planta foi desenvolvida pela Dedini e é a primeira capaz de produzir álcool e biodiesel juntos. Ela aproveita o álcool como reagente na fabricação de biodiesel de óleo de soja. Ainda queima o bagaço para gerar energia elétrica.
Outra produção, com tecnologia já disponível, é a do biogás também para a produção de energia elétrica. O biogás, segundo Olivério, pode ser produzido através da biodigestão da vinhaça, produto utilizado como fertilizante no campo.
“É possível continuar utilizando a vinhaça no campo, porém, produzindo energia com o excedente”, defende. “A cana-de-açúcar pode ser sinônimo de energia”, afirma Olivério. Para isso o setor precisa pensar na valorização energética.
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Números
Na safra 2006-2007, 357 usinas estavam operando no Brasil, sendo 154 delas instaladas no Estado de São Paulo. Juntas, elas processaram cerca de 428,4 milhões de toneladas de cana.
Segundo José Luiz Olivério, mais 98 plantas devem entrar em operação nos próximos anos, já que 43 unidades se encontram em fase de montagem e 55 em fase de projeto. Bem maior é o número de consultas de projetos: 189. Para 2010, a projeção indica para a operação de 455 usinas no País.
Dados da Unica mostram que em 2013 serão processadas 700 milhões de toneladas ao ano. O volume de 1 bilhão de toneladas de cana processada será alcançado em 2021, segundo indica os estudos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “Esse número é considerado conservador, pois há estudos que mostram que o volume será alcançado em 2017”, disse.
O aumento na produção e o crescimento do setor, segundo Olivério, deve-se à demanda provocada pelas vendas dos carros flex, que aumentaram 77% desde de 2003, quando a tecnologia foi colocada no mercado. Até dezembro de 2006 foram comercializados no país 2,6 milhões de veículos flex-fuel.
Outros motivos que estão impulsionando a produção sucroalcooleira do Brasil são: o aumento na exportação do álcool como conseqüência do crescente interesse por qualidade ambiental e o aumento na exportação de açúcar devido à competitividade brasileira, já que o custo de produção é menor do que em outros países açucareiros.