Bairros

Mulheres da periferia

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, boa parte das lideranças comunitárias do município são mulheres. Elas têm papel de destaque na política dos bairros e ocupam os principais cargos nas associações de moradores. Aproximadamente 30 entidades do gênero existentes na cidade (de um total de 86) são presididas por mulheres em Bauru. Isso não quer dizer que elas tenham lugar cativo nas principais esferas de decisão do município.

Até o momento, por exemplo, nenhuma candidata chegou a ser cogitada como opção viável para disputar o cargo de prefeito nas próximas eleições. Mesmo se considerando que o pleito ainda está distante (será em outubro do ano que vem), é pouco provável que alguma mulher venha a ocupar o Palácio das Cerejeiras no próximo mandato. Situação parecida pode ser observada no Legislativo municipal: a casa conta com apenas um parlamentar do sexo feminino - Maria José Jandreice (PC do B), a Majô - em um total de 15 integrantes.

O caso de Bauru poderia ser tomado como isolado, mas na verdade não é: apesar de, nas últimas décadas, as mulheres terem ampliado sua participação em diversas esferas da sociedade brasileira, a presença feminina nos grandes centros de decisão política continua tímida. Hoje, elas ocupam apenas 43 cadeiras na Câmara Federal, o que representa menos de 10% das vagas disponíveis (513 ao todo).

O fato de as mulheres estarem ausentes das principais esferas de decisão não significa, porém, que elas não participem da política. “Elas atuam, mas fora das instâncias formais. Em vez de se filiarem a partidos políticos, elas preferem se engajar em sindicatos, associações de moradores e entidades de bairros”, explica a cientista política Jussara Reis Prá, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Mulher e Gênero da Universidade do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A afirmação da pesquisadora é fácil de ser constatada na periferia de Bauru. Aos poucos, inclusive, a presença feminina nas associações de moradores vai ajudando a alterar de maneira significativa a dura realidade dos bairros pobres.

Embora continue a figurar entre as regiões mais carentes de Bauru, o Parque Real (zona oeste) já teve momentos mais desesperadores. Dez anos atrás, as crianças do bairro não conheciam sequer noções básicas de higiene pessoal. Subnutridas, algumas chegavam a possuir cinco diferentes espécies de vermes no trato digestivo.

As crianças do local pareciam condenadas - e realmente estariam-, não fosse o trabalho de Vera Lúcia Pascoalino, que na época presidia a associação dos moradores do bairro vizinho, a Vila Dutra. Com apoio de Tânia Mara de Carvalho Baptista, diretora de uma escola estadual da região, ela conseguiu reverter o quadro e ir além: com as hortas comunitárias, elas praticamente reduziram a zero a evasão escolar no bairro.

Algumas dessas líderes comunitárias são tão atuantes, que acabaram sendo perpetuadas no cargo de presidente. Diva Dias está há 14 anos à frente da associação dos moradores do Jardim Solange. Embora, por inúmeras vezes, ela já tenha manifestado o desejo de transferir o cargo para uma pessoa mais jovem, ninguém se habilitou a assumir a difícil empreitada.

De fato, ocupar a presidência de uma associação de moradores não é tarefa para qualquer um. Apesar de demonstrarem plena confiança na capacidade feminina, muitas líderes comunitárias ainda preferem apelar para a ajuda masculina nos momentos de apuros (na hora de enfrentar o “marmajões”, segundo elas próprias dizem, por exemplo).

“A mulher consegue ir até um ponto, depois o homem precisa tomar a frente”, pensa Miraci Luiza Silva Ávila, presidente da associação dos moradores da Vila Cardia.

Nem todas, contudo, compartilham dessa visão. “Nunca precisei de ajuda. Se tivesse de brigar com homens, eu enfrentaria, sem medo. Vou pela ‘legalidade’: quando percebo que estou no meu direito, luto com garra, até atingir meus objetivos”, garante Maria Isabel Adão Barbosa, ex-presidente da associação dos moradores do Núcleo Joaquim Guilherme (região sudoeste da cidade).

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