Bairros

Bolsa Família rompe barreiras do ‘machismo’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

A figura da mulher submissa e dependente do marido está, aos poucos, deixando de corresponder à realidade. Estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Brasília (UNB) revela que o recebimento do benefício Bolsa Família, do Governo Federal, aumentou a autoridade feminina nas famílias e nas comunidades.

Inclusão social das mulheres por meio do poder de compra, autoridade dentro da família e sentimento de cidadania no recebimento e na administração do benefício foram os principais impactos detectados pelo estudo.

Apesar de expressivos, os resultados não chegaram a causar espanto entre os responsáveis pela rede socioassistencial de Bauru. “Isso é algo que já era esperado, pois o Bolsa Família costuma privilegiar as mulheres. Subtende-se que elas são menos propensas a abandonar o lar. Os homens são vistos como mais volúveis”, explica Adriana Puttini, diretora da divisão que gere os centros de referência da assistência social (Cras) no município.

Os bancos de dados da Secretaria de Bem-Estar Social de Bauru (Sebes) - responsável pela centros no município - também reforçam os achados da pesquisa. De acordo com Puttini, aproximadamente 56% dos indivíduos cadastrados em cada uma das unidades do Cras existentes na cidade são do sexo feminino.

Mireya Soares foi uma das responsáveis pelo estudo. “Esta pesquisa foi feita a pedido do Ministério do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome (MDS), que pretendia avaliar o Bolsa Família a partir da perspectiva de gênero”, explica.

Ela ressalta que os impactos identificados pela pesquisa estão longe de representar uma transformação nas relações entre homens e mulheres. “Esse processo é demorado. Uma mudança dessas não se dá em apenas um ano e meio”, lembra. O Bolsa Família foi implantado em meados 2005.

Apesar disso, Suarez acredita que o benefício representou uma espécie de ruptura com relação ao cotidiano opressor. “Agora, ainda que continuem a apanhar dos maridos, elas já sabem que possuem meios para se defender”, pensa. O acesso a uma forma fixa de rendimento foi um dos fatores que contribuiu para essa tomada de consciência por parte das mulheres.

“Isso permitiu que elas pudessem discutir em pé de igualdade com esposos e filhos, nem tanto pelo fato de contribuírem para o sustento do lar. É que elas vivem em locais onde a maioria da população sobrevive às custas de bicos. Ao receberem uma quantia fixa, todo mês, elas passaram a representar uma espécie de certeza em um mundo onde predominam as dúvidas”, diz a pesquisadora.

Maria Eva Linhares, 47 anos, ainda não teve a oportunidade de experimentar essa sensação. Moradora do Jardim Ferraz, na zona oeste, ela aguarda desde o final do ano passado o dia em que poderá gozar o benefício. “Meu marido tem uma serralheria, mas nunca pega grandes serviços”, diz. Para ajudar no sustento da casa, ela apanha materiais recicláveis pelas ruas do bairro.

Na opinião de Suarez, o principal impacto apontado pelo estudo, porém, foi o fato de as mulheres terem se percebido como cidadãs. “Muitas delas não tinham sequer certidão de nascimento - o que, em nossa sociedade, eqüivale a não ter nome. Para receber o Bolsa Família elas tiveram de fazer o documento de identidade. Com isso, acabaram se dando conta que faziam parte de um espaço mais amplo que a família e a vizinhança. Ela passaram a se enxergar como membros de um Estado-Nação”, afirma. Apesar das rupturas, a pesquisa revela que as mulheres beneficiadas pelo Bolsa Família se encontram em situação de isolamento social acentuado.

“Além de habitarem bairros marginalizados, elas ainda continuam muito restritas ao espaço doméstico. Quase nenhuma tem trabalho formal. Hoje, a participação delas na comunidade está restrita ao comércio. Caso pretenda aperfeiçoar o programa, o ministério terá de focar urgentemente a quebra desse isolamento, de modo que essas mulheres consigam maior inserção no espaço público”, pensa.

____________________ Dores de mãe

Vergínia Rodrigues de Novaes mora no Parque Real, tem 48 anos e carrega consigo uma grande preocupação: ela, o marido e duas filhas (ambas com mais de 20 anos de idade) estão desempregados. No passado, porém, ela enfrentou momentos ainda mais trágicos...

____________________

“Estou neste lugar há 13 anos. A casa foi minha cunhada quem emprestou, pois não tínhamos onde morar. A vida aqui não é fácil. Não tem emprego! Eu não encontro trabalho porque não tenho estudo. Meu marido porque está velho (tem 50 anos). Mas e as minhas duas filhas? Elas têm estudo, fizeram colegial, cursos... Mesmo assim, ninguém dá oportunidade pra elas.

Se meu filho fosse vivo, certamente estaria na mesma situação. Ele tinha 11 anos quando morreu. Chamava-se Leandro. Ele foi pescar com o tio no Paraná e acabou caindo no rio. Não deu tempo de socorrer. A gente tinha ficado em Bauru. Quando a notícia chegou, ficamos desesperados. Falo pra você: meu mundo acabou naquele dia. Eu e meu marido perdemos a razão de viver. Depois disso, fiquei doente e nem emprego consegui arrumar.

Hoje, eu cato latinha de cerveja pra poder comer. Pelo menos agora a gente tem esse fofinho pra alegrar nossa vida (mostra o neto de 11 meses). Ele também se chama Leandro, assim como o meu filho. Tem gente que fala que os dois são parecidos. Não sei.

Fico preocupada com o futuro dele. Sei que não vou aturar muito tempo, mas e ele? Acredito que será um moço bom e educado, quando crescer. Mas, do jeito que as coisas vão, acho difícil ele arranjar um emprego...”

____________________ Decepções

Apesar de ter apenas 27 anos de idade, a moradora do Jardim Ferraz Carmen Lígia Longato já desistiu de viver um grande amor. Depois de três decepções seguidas, ela resolveu dar um tempo aos homens: de agora em diante, pretende se dedicar à mãe, aos dois filhos e ao trabalho de manicure.

____________________

“Namorei um rapaz durante bastante tempo. Depois de quase três anos de namoro, descobri que estava grávida. Tudo ia bem entre nós até que, no sétimo mês de gravidez, ele me procurou: disse que tinha dúvidas e que não sabia se estava preparado para uma vida a dois.

Fiquei uma fera e respondi que não ia dar tempo nenhum. Terminamos; meu filho nasceu e, nos três anos seguintes, eu quase não saía de casa. Depois disso, tive um relacionamento que não durou muito.

Foi quando conheci o pai do meu segundo filho. Era segurança de uma firma e sempre passava de carro em frente à minha casa. Certo dia, ele me viu e resolveu parar para conversar. Começamos a sair. Nosso namoro foi bem, até o dia que meu irmão foi baleado.

Foi uma época muito complicada para mim pois, alguns dias antes, eu havia descoberto que estava grávida novamente. Com meu irmão entre a vida e a morte, eu não era capaz de pensar em mais nada - nem no bebê que iria nascer.

Passei nove meses cuidando dele no hospital, mas nada dele melhorar. Acho que acabei me descuidando do meu namorado. Nesse tempo, ele começou a se encontrar com outra. Fiquei magoada quando descobri. Ele veio até mim, conversamos, pusemos fim ao nosso relacionamento.

Algum tempo depois, meu filho nasceu. Mas meu irmão ainda estava no hospital. Todo meu esforço não havia adiantado. Vinte dias depois de eu ter dado à luz, ele morreu. Depois disso, tentei namorar um outro rapaz, mas ele acabou sendo preso. Hoje, resolvi desistir. Prefiro me dedicar aos meus filhos. Eles precisam muito de mim, assim como minha mãe. Quero trabalhar bastante, para ajudar minha família a melhorar de vida”.

____________________ Educadora

Tânia Mara de Carvalho Baptista é educadora, no sentido mais amplo que a palavra possa ter. Durante o período em que ocupou a direção da escola estadual (EE) Luiz Carlos Gomes, na Vila Dutra, ela ajudou a mudar a vida de centenas de crianças de três bairros carentes da zona oeste de Bauru. Hoje, ela está à frente da EE Plínio Ferraz, na Vila Independência.

____________________

“Apesar de estar localizada na Vila Dutra, nossa escola recebia alunos de outros bairros da região. Muitos deles vinham de famílias extremamente pobres. Os pais passavam o dia todo fora procurando emprego, e não tinham tempo para se dedicar aos filhos.

Naquele tempo (final dos anos 80) existiam muitos animais soltos pela vizinhança. Isso ajudou a provocar uma verdadeira epidemia de piolhos entre as crianças. Na verdade, muitas delas chegavam a apresentar carrapatos e doenças de pele. É que poucas tinham banheiro em casa.

No Parque Real, por exemplo, as pessoas se banhavam numa cachoeira. Fico imaginando como eles se viravam durante o inverno. Resolvemos tomar uma providência. Com ajuda da associação de moradores da Vila Dutra (na época presidida por Vera Lúcia Pascoalino), iniciamos uma campanha do “pente fino”. Primeiro fomos até o programa de TV de uma emissora local e solicitamos algum tipo de doação. Acabamos recebendo 100 sacos de pano, desses que se usa para carregar açúcar.

Dona Vera e outras mulheres da comunidade cortaram, costuraram e alvejaram: dessa forma fizemos as toalhas de banho. Depois, instalamos chuveiros na escola e colocamos as crianças para tomar banho. Mas no começo foi difícil, pois elas não tinham noções de higiene pessoal. Precisamos ensiná-las a lavar o pescoço, as axilas e a cabeça. Mas os resultados foram muito bons.

Todas saíam da escola limpas e alimentadas. Tinham rostinhos tão felizes. Como podiam ser daquele jeito, sofrendo tantas privações na vida? Sinto saudade daquele tempo. Lembro do banheiro da escola: tinha azulejos muito brancos... Acho que como as crianças não tinham aquilo em casa, cuidavam com mais carinho”.

Comentários

Comentários