Sou um usuário costumeiro do Pronto Atendimento do Hospital de Base.
Lá, tenho presenciado situações insólitas, como quando aquela senhora, a quem uma funcionária pediu, falando em um tom normal de voz: “Sente-se aqui que eu vou medir a sua pressão”, solicitação a que a paciente, alterada, respondeu em voz alta: “Não dá para pedir por favor? Afinal, você é minha empregada, sou eu, é o povo quem paga o seu salário.” Fiquei com dó da funcionária, pois imagino que o salário dela não seja lá muito alto.
Em outra ocasião, uma senhora mandou chamar a polícia - que compareceu e, acertadamente, recusou-se a argüir o médico - porque o mesmo havia prescrito um remédio para tratar do mal-estar que ela estava sentindo e emitiu uma guia de consulta encaminhando a paciente para um especialista, solução que desagradou a mulher, pois ela queria que o doutor receitasse um medicamento que erradicasse de vez a sua doença, algo do tipo aqui e agora.
Eu mesmo não gostei de ter esperado, por mais de duas horas, o doutor que se ausentara do PA e que, naquela noite, era o único que estava de plantão. Depois fiquei sabendo que ele fora chamado para cuidar de um senhor que dera entrada na Emergência com um enfarto.
Ninguém nega que o atendimento do PA deveria ser melhor. Hoje é preciso esperar muito para ser atendido. Os funcionários e os médicos se comunicam com os pacientes por monossílabos, as consultas são rapidinhas, o ambiente é tenso.
Mas quem tem paciência, acaba sendo atendido, é medicado, mandado para tomar soro, injeção, fazer ecg, chapa de RX e sempre retorna ao médico para ser liberado. E se for o caso, o doente é internado no HB. Aconteceu comigo.
Ano passado, na tarde do dia 30 de setembro, um sábado, senti fortes dores no peito. Na mesma hora fomos, eu e minha esposa, ao PA.
Ao fazer a ficha de entrada relatei a minha dor no peito. Alertada, a funcionária da pré-consulta me levou, de imediato, para a Emergência e providenciou um eletrocardiograma. Eu estava enfartando e fui levado, em uma maca, para o setor de Hemodinâmica.
Dr. Caio, médico hemodinamicista, lá estava e fez uma angioplastia em uma das minhas coronárias, que estava obstruída. Outras três artérias também apresentavam lesões. O doutor Caio disse que eu deveria voltar em diferentes ocasiões para fazer as outras angioplastias, pois o SUS só libera um cateter de cada vez. Já fiz três. Só falta uma.
Quando do meu enfarto, fiquei dois dias na UTI e três no setor de Cardiologia. Para os outros dois procedimentos, também fui internado. Seria injusto se eu reclamasse de algum dos funcionários que cuidaram de mim na UTI e na cardiologia. Todos, sem exceção, me trataram muito bem.
Aos doutores Caio Mario de Almeida Pessoa e Hugo Ross Yokoyama, que realizaram as angioplastias, devo a minha vida e ser-lhes-ei eternamente grato. São moços dedicados e competentes, mas só o que posso fazer por eles é inclui-los em minhas orações.
Penso que os que estabelecem os salários dos médicos e demais funcionários do HB deveriam fazer como a ex-senadora Heloisa Helena, que, dizem, faz uso do SUS, como a grande maioria dos brasileiros.
Seria uma experiência humana extraordinária e uma oportunidade para eles conhecerem melhor como convivem os que utilizam os serviços do Sistema Único de Saúde e aqueles que cuidam de suas dores e enfermidades.
Oscar Camaforte - RG 3.640.192