Nos últimos anos, tornou-se quase um lugar-comum dizer que o turismo é o setor da economia que mais cresce. Isto porque a quantidade de estabelecimentos do ramo têm aumentado de maneira vertiginosa em todos os cantos do País, e diversos empreendedores passaram a enxergar na atividade uma fonte certa de lucros.
Perdido em meio a esse cenário promissor, o turismo rural ainda engatinha no município. Por enquanto, segundo estimativas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), apenas 15 proprietários na cidade quiseram apostar na atividade como fonte extra de rendimentos. Poucos em quantidade, os empreendimentos existentes em Bauru se encontram, em sua maioria, na fase embrionária.
Atualmente, apenas um estabelecimento (o acampamento de Tibiriçá) oferece hospedagens ao público. Isso ajuda dar uma idéia do estágio de desenvolvimento em que o setor se encontra no município. Uma outra propriedade, prestes a entrar em funcionamento nas imediações do Aeroporto Moussa Tobias (às margens da rodovia Bauru-Iacanga), também disponibilizará o serviço aos clientes. Os demais empreendimentos existentes na cidade possuem atrações bem mais modestas, como lagoas para pesca ou restaurantes que servem comida da roça.
Ainda assim, alguns locais já começam a se destacar. O restaurante Show de Bola, por exemplo, vive sempre lotado aos finais de semana. O interessante é que o pequeno sítio de cinco alqueires, situado à beira da antiga estrada que liga Bauru a Piratininga, não possui atrações fantásticas, como cachoeiras, matas virgens ou mesmo hospedaria cinco estrelas.
O estabelecimento conta apenas com algumas quadras esportivas, um restaurante construído em acabamento rústico e algumas árvores onde as pessoas podem dependurar suas redes e dormir sossegadas, apreciando o verde que domina a paisagem. Ou seja, nada de extraordinário - pelo menos para as pessoas do campo, mais que acostumadas ao contato com a natureza.
Mas para alguém que passa a maior parte do tempo sufocado em meio aos prédios e ao trânsito caótico das metrópoles, o turismo rural costuma ser uma experiência marcante. “Muitas crianças, hoje em dia, não sabem que a mandioca é uma raiz ou que as galinha são aves com bicos, penas e tudo mais. Isso são coisas que os livros não costumam ensinar”, diz Márcia Bessa Leite, proprietária do acampamento de Tibiriçá, que está há quase 18 anos em funcionamento.
No final da década de 1980, ela e o marido conseguiram transformar um pequeno sítio decadente em um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. A metamorfose se deu aos poucos: barracões, que antes serviam de depósitos para ração, foram convertidos em alojamentos e oficinas desativadas deram lugar a exposições que aproximam os moradores da cidade do modo de vida do campo.
Hoje, o local tem capacidade para receber até 110 pessoas e está sempre cheio. O segredo para isso pode estar na comida, feita com produtos plantados no próprio sítio, ou nas atividades oferecidas (cavalgadas, passeios de trator e pescarias), pouco comuns no meio urbano.
“Na verdade, o sucesso do negócio depende de como o proprietário se relaciona com os clientes. As serviços precisam ir além da mera venda de produtos. Na verdade, o comércio acaba sendo apenas um pretexto: o importante para o público é poder desfrutar do contato com a vida no campo”, explica Antônio Carlos Covolan, instrutor do Senar no programa de turismo rural.
Para que isso ocorra, alertam especialistas, é essencial que os proprietários não abram mão da produção agropecuária. “O turismo tem de ser visto como uma atividade complementar. Se não existissem animais e plantações, não haveria como o sitiante se sustentar. Além disso, o estabelecimento acabaria ficando sem atrativos para o público”, pondera Helerson de Almeida Balderramas, professor da Universidade do Sagrado Coração (USC) e presidente do Conselho Municipal de Turismo (Comtur).
Por esse motivo, órgão tem dado ênfase a cursos gratuitos de capacitação, desenvolvidos em parceria com o Senar e o Sindicato Rural, que visam tornar os produtores rurais de Bauru aptos a atuar no setor. Atualmente, uma turma de 15 proprietários já está recebendo treinamento no programa. Em outubro, todos estarão devidamente diplomados, prontos para entrar em um mercado que, apesar de competitivo, é considerado bastante promissor pela maioria dos especialistas.