Bairros

Comida da roça e boa prosa são atrações

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Desde que a rodovia Bauru-Ipaussu e a avenida Elias Miguel Maluf foram inauguradas, há mais de 40 anos, a estrada velha de Piratininga passou ser cada vez menos utilizada pelos motoristas. Hoje, a região cortada pela antiga via sem pavimentação se converteu em um lugar onde não mora, não passa e não vive quase ninguém. “Costumo dizer que aqui você pode cair em um atoleiro ou trombar numa vaca, mas jamais será atropelado por uma carreta. Não tem trânsito”, brinca o agricultor João Silvestre Pinto dos Santos, 57 anos, um dos poucos habitantes do local.

Dificilmente alguém imaginaria que algo pudesse ir adiante em um lugar tão parado. Santos foi um dos poucos que conseguiram vislumbrar a oportunidade em um meio tão adverso. Em 1987, ele adquiriu uma propriedade de cinco alqueires no local. Montou uma casinha branca à beira da “serra” e tentou criar gado.

Mas a experiência acabou não sendo bem sucedida. O tempo foi passando, e Santos começou a ficar “apertado”. “Só que eu não queria voltar para a cidade”, recorda. Cinco anos atrás, ele começou a participar de cursos de capacitação oferecidos pelo Serviço Nacional da Aprendizagem Rural (Senar) e resolveu arriscar no turismo rural.

Construiu um campo de futebol e montou um pequeno bar. Com o tempo, o público foi chegando e negócio foi crescendo: a propriedade ganhou novas quadras esportivas e até um restaurante. Tudo, porém, é ainda muito simples no local. As refeições, por exemplo, são servidas num galpão feito em acabamento rústico.

Mesmo assim, o estabelecimento (denominado Show de Bola) vive sempre lotado aos finais de semana. O segredo para tanto sucesso? “Certa vez, um rapaz me falou que as pessoas vêm até aqui atrás da comida da roça, que é muito boa. Respondi que no meu sítio tem uma coisa ainda mais saborosa: essa brisa fresca que nunca para de bater”, diz Santos. Ele parece estar coberto de razão: de acordo com especialistas, o contato com o modo de vida típica do campo é o fator que mais atrai turistas até as propriedades rurais.

“Quem trabalha nesse ramo tem de fazer mais do que comercializar produtos. Precisa, na verdade, vender emoções. Imagine, por exemplo, que você passe alguns dias hospedado em um sítio. Na volta, você compra uma cachaça artesanal e resolve convidar seus amigos para tomá-la com você. Enquanto apreciam a bebida, você vai relembrando as sensações experimentadas durante o passeio”, diz Antônio Carlos Covolan, instrutor do Senar no programa de capacitação em turismo rural.

As pessoas que vão ao estabelecimento de Santos, por exemplo, logo se adaptam ao ritmo existente no local. Alguns até tiram os calçados para poderem ficar mais próximos da terra. “Nosso atendimento é diferenciado. Nos restaurantes comuns os fregueses comem, pagam a conta e vão embora. Aqui não: depois da refeição, os clientes deitam nas redes e ficam de ‘prosa’ até o final da tarde”, diz o proprietário.

Exemplos semelhantes podem ser encontrados em outros empreendimentos instalados na zona rural de Bauru. A maior parte dos alimentos servidos no acampamento de Tibiriçá é cultivada no próprio local. E não poderia ser diferente, argumenta Márcia Bessa Pereira Leite, dona da propriedade de 17 alqueires.

“Você acha que alguém viria até uma pousada no campo para comer produtos industrializados?”, questiona ela, que trabalha no ramo há quase 18 anos. Os visitantes que vão ao local têm a chance de acompanhar todo o caminho percorrido pelos alimentos, desde o cultivo até o instante em que são preparados no fogão à lenha.

A experiência é tão boa que costuma agradar até a clientela mais exigente. “Às vezes, recebo executivos que vêm a Bauru para participar de congressos e seminários. É interessante notar que, mesmo estando habituados a se hospedar em hotéis cinco estrelas, eles se mostram bastante à vontade no meu acampamento. Alguns até me procuram para dizer que querem voltar”, garante Márcia.

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