Bairros

Município desperdiça potencial imenso

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar de estar localizada numa região de grande produção agropecuária, Bauru ainda não está preparada para desenvolver o turismo rural. “As pessoas de nossa região ainda encaram essa atividade como uma coisa que só existe fora daqui. Quando se fala em turismo, pensam logo em um ônibus lotado rumando em direção à praia ou num avião decolando para o Nordeste”, diz Antônio Carlos Covolan, instrutor do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).

Hoje, o setor apresenta um estágio de desenvolvimento insípido no município, nem tanto pela falta de potencial. Na verdade, Bauru conta com antigas estações de trem, fazendas históricas, bairros rurais que poderiam se converter em importantes atrativos turísticos. O problema é que toda essa estrutura se encontra atualmente subutilizada.

Um caso dos casos mais notórios é o da Fazenda Val de Palmas, localizada na zona oeste da cidade, próxima à rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (Bauru-Marília). A propriedade carrega uma história que é mais antiga que a do próprio município e poderia funcionar como importante ponto turístico da região. Hoje, todavia, nenhum projeto do gênero é desenvolvido no local.

A Val de Palmas surgiu em 1890 - enquanto Bauru foi fundada apenas seis anos depois - e chegou a ser considerada a maior fazenda de café do mundo. “Ela compreendia uma área de quase 13 mil alqueires, que ia de Bauru a Tibiriçá”, conta Selma Nasralla Kassis, 60 anos, atual proprietária da fazenda.

Na verdade, as dimensões da Val de Palmas sempre foram motivo de polêmica. Algumas pessoas sustentam que, nos tempos mais áureos, ela chegou a ter “apenas” 11.500 alqueires - o que não deixa de ser uma extensão considerável.

Já na década de 1930, a fazenda começou a sentir os primeiros sinais de decadência, devido às crises que abalaram a produção de café no Estado de São Paulo. Isso não impediu, contudo, que a Val de Palmas ainda experimentasse momentos gloriosos. Em 20 de junho de 1938, ela se converteu, por uma noite, em residência para o homem mais poderoso do Brasil na época, o presidente Getúlio Vargas.

Nos anos 50, a Val de Palmas foi desmembrada em inúmeras propriedades menores, mas o “coração” da fazenda acabou sendo preservado - inclusive a sede, um casarão com mais de 20 cômodos. Apesar do esforço dos atuais proprietários, muitas estruturas (casas, oficinas, galpões e até mesmo um muleiro - lugar onde as mulas dormem - de madeira de dois andares, com capacidade para abrigar mais de 100 animais) acabaram não tendo a mesma sorte.

É que, em 1999, a Val de Palmas foi ocupada por integrantes do MST. Durante a invasão, diversas construções foram completamente incendiadas. Muitas peças do mobiliário antigo também se perderam, inclusive as utilizados por Vargas durante a visita. “Parte da mesa onde o presidente tomou as refeições foi destruída, pois os sem-terra cortavam carne sobre ela utilizando machados”, recorda Kassis, que assistiu de perto à invasão.

Depois do episódio, ela e a família deixaram de se dedicar à criação de gado. Por volta de 2003, surgiu a idéia de se aproveitar as estruturas que escaparam ao “saque” em algum empreendimento voltado para o turismo. “Apesar de toda a destruição, conseguimos salvar peças de grande valor histórico. Isso certamente seria um atrativo interessante para o público”, diz ela.

O que tem impedido a idéia de ir adiante são os custos. “Um projeto desses precisa de uma parceria para ser colocado em prática. Caso alguém tenha interesse em participar, estamos abertos a conversação”, diz ela.

Além do casarão, que precisa de algumas adaptações para começar a receber hóspedes, a fazenda conta com uma velha estação da extinta Noroeste do Brasil (NOB). Como o imóvel faz parte dos ativos da Rede Ferroviária Federal S/A, os proprietários da fazenda demonstram não ter intenção, pelo menos por enquanto, de desenvolver iniciativas no local. “Caso surja alguma proposta, porém, podemos sentar e discutir algum projeto”, garante a proprietária.

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