1- Os meios políticos foram sacudidos com a interpretação do Tribunal Superior Eleitoral sobre a fidelidade partidária. Está no espírito da Constituição separar partido político de clube de interesses. O que deveria ser uma coisa séria – o mandato parlamentar – virou balcão de negócios. Se a Justiça não pode reconhecer “mediunidade” em Direito e, por conseqüência, a leitura do que não está explícito, então, devemos racionar com a lógica, que é fonte do Direito. Para começar, ninguém pode ser candidato se não estiver filiado a um partido. Milhões de eleitores votam só na legenda. Dezenas de deputados e vereadores são eleitos pela sobra dos votos do quociente eleitoral partidário. Pelo resultado das urnas se estabelece a representatividade nas Câmaras federal e municipais. Donde, a troca de partido contribui para diminuir o grau de repre-sentatividade do regime democrático brasileiro, pois o voto de um partido é transferido para outra legenda, em desrespeito ao eleitor e ao resultado das urnas.
Quem provocou esse bolo todo foi o PFL quando fez uma consulta sobre essa questão ao TSE, para estrepar o governo. Lula perderia 34 deputados que teriam que entregar os mandatos por infidelidade. É evidente que isso não vai acontecer. Antes que o Superior Tribunal Federal possa ratificar a decisão do TSE, o Congresso já terá votado lei ordinária regulamentando a Constituição ao seu modo.
Engraçado que o PFL já foi Arena, PDS e agora é PD – Partido Democratas. Não é fiel nem ao próprio nome. O presidente do partido, o garotão Rodrigo Maia, era do PTB. Depois bandeou.
2 - Surpreendeu a declaração da ministra escolhida por Lula para cuidar da “Igualdade Racial”, Matilde Ribeiro, que acha “racismo de negro contra branco natural”. O cartunista de um jornal carioca dá a dica para você, branco, se livrar de qualquer assédio racista quando um negro o espremer contra a parede. Diga que também é afrodescendente. Se ele estranhar a palidez da sua pele, explique que é por parte do Tarzã e da Jane.
Puseram fogo nos alojamentos dos bolsistas africanos que estudam na Universidade de Brasília. Um ato insano que desmente Gilberto Freyre que assegurava vivermos numa “democracia racial”. Pelo menos, hoje não é mais assim. Aqui mesmo em Bauru, estudantes angolanos da Unesp foram parados pela polícia como suspeitos, quando procuravam o local de uma festa. Se fossem brancos, provavelmente isso não teria acontecido.
Conheci um grande intelectual chamado Aníbal Machado, autor de uma obra-prima, o conto “Viagem aos Seios de Duília”. Era um homem afável, educado, gentil, lírico. Ele não só fazia como vivia a poesia. Uma vez foi capaz de pular na garganta de um estúpido, na rua, porque agredia um negro engraxate somente por não concordar com o preço do serviço.Ele dizia que o racismo era a única coisa capaz de fazê-lo odiar. Sempre achei que não era nada disso. Entendi sua reação como “normal” a alguém sem sangue de barata nas veias. O ódio, sim, é dos que se apegam a algum delírio de grandeza para poder suportar a mediocridade que pressentem em suas pobres vidas.
3 - A compra da Varig pela Gol esconde uma história comovente que muitas vezes se repete para mostrar o que pessoas simples são capazes de grandes idéias e empreendimentos. O velho Constantino começou transportando galinhas e leitoas de Patrocínio, no interior de Minas, para São Paulo. Na volta trazia guarda-chuvas. Um sucesso de vendas numa das zonas mais sujeitas a precipitações, fora da Amazônia. De galinhas e leitões passou a transportar pessoas. Tornou-se o maior empresário de ônibus do mundo, com 6 mil veículos. Comprou a Reunidas, aqui em Bauru, do Dolírio Silva e do Gino Paulucci. Há menos de cinco anos investiu US$ 20 milhões na Gol, com cinco aviões comprados a crédito. Hoje tem 66 aeronaves e está comprando mais 100, da Boeing. O capital inicial de US$ 20 milhões hoje está em US$ 9 bilhões, 30.000% a mais. Um case inédito no mundo. Os quatro filhos de Nenê Constantino estão na lista dos milionários da revista Forbes, com US$ 1,1 bilhão cada um. As filhas de Nenê ficaram de fora da Gol, mas também herdaram o gosto empreendedor do pai. Uma delas, a Alivânia, investiu R$ 20 milhões em Bauru no Alameda Quality Center. Elegeu Bauru, chegou quietinha, não pediu nada para ninguém e construiu um centro de diversões – cinemas, bares, restaurantes, shows - que é o orgulho dos bauruenses e da região. Torço para que dê certo. Merece tanto quanto os machos da família.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC