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Entrevista da semana: Annibal, estrategista da Polícia Civil

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 11 min

Próximo do topo na hierarquia da Polícia Civil de São Paulo, Roberto de Mello Annibal, desde de setembro de 2005 diretor do Departamento de Polícia Judiciária-4 (Deinter-4), se diz realizado na profissão, que já soma três décadas de trabalhos prestados ao Estado na área de segurança.

Delegado de polícia desde 1976, ele passou por todos os degraus da carreira - que admira - atuando em diversas partes de São Paulo até chegar à diretoria atual, cuja sede em Bauru coordena a Polícia Civil em 89 municípios.

Na entrevista a seguir, Annibal, que também é professor de inteligência policial na Academia de Polícia, afirma que a queda nos índices de criminalidade registrada no último ano na região do Deinter-4 não é uma coincidência, mas sim prova de que o preparo dos policiais tem melhorado. Leia os melhores trechos.

Jornal da Cidade - O que o levou a seguir a carreira policial?

Roberto de Mello Annibal - Eu trabalhei muito tempo em cartório como oficial de Justiça e decidi fazer o concurso para delegado por acreditar que sempre tive um senso muito apurado de justiça. Quem faz a verdadeira justiça é o delegado de polícia, na minha opinião. Tendo dez anos de Fórum, fazendo audiências, o que eu vi é que há muita limitação na hora de julgar porque o juiz não pode sair do mundo dos autos. O que está escrito está escrito. O delegado de polícia, através do inquérito policial apura a verdade dos fatos, sirvam eles de base para a defesa ou para a acusação. Então, o delegado apura o fato como ele é enquanto na Justiça o advogado fala uma coisa, o promotor outra e o juiz, decide. Na polícia há mais liberdade de ação para apurar o fato como ele realmente aconteceu com base nas provas apuradas, nas testemunhas, nos exames da perícia... Isso me incentivou a ser delegado de polícia e é uma carreira na qual é possível se realizar profissionalmente porque leva segurança às pessoas. Também é uma carreira ampla, não se faz só polícia em termos de segurança, tem a parte administrativa, a parte pessoal, de compra de material, é tudo. Escolhi ser delegado, nunca fiz concurso para outra coisa, nem me inscrevi na Ordem dos Advogados. O que me interessava era a busca da verdade.

JC - Em que cidades o senhor já atuou como delegado?

Annibal - Passei por muitos locais do Interior e em São Paulo fui plantonista, trabalhei no Deic, no Departamento de Produtos Controlados. Já fiz de tudo, já fui diretor de cadeia, diretor de Ciretran, titular de município. Exerci todos os cargos existentes na carreira de delegado de polícia antes de ser diretor.

JC - O senhor pode ser considerado jovem para o cargo... Sua evolução na carreira foi rápida?

Annibal - A minha carreira pode ser considerada rápida. Entrei na polícia sem ter nem um parente delegado. Tive um atraso na 5ª classe, quando comecei, mas considero que foi rápido até chegar à classe especial onde só estão 118 delegados. Destes, só 20 são diretores. É uma pirâmide. Mas eu mudei 27 vezes de lugar, sempre que havia uma oportunidade eu ia, não pensava duas vezes. Existem delegados que querem fazer da delegacia de polícia o quintal da sua casa, não querem sair da cidade, o que é até desculpável pela família, os filhos, escola, emprego da esposa... Eu não tive essa dificuldade, fui atrás.

JC - A cada promoção a responsabilidade também aumenta. Atualmente o senhor dirige uma região com 89 municípios, como é possível controlar uma área tão grande?

Annibal - São 145 unidades policiais, quase 14% das cidades do Estado de São Paulo. Tem que ficar em cima. A hierarquia da polícia é capaz de gerenciar tudo isso, às vezes não é necessária a presença física. Existem muitos meios de comunicação e um setor de inteligência que facilita muito. Os seccionais são os operacionais, eles têm menos cidades. A gente planeja aqui, eles executam lá e tudo é por escrito. Então é possível conferir o plano e ver o resultado. Depois disso, fazer uma avaliação. Dá para saber o que está acontecendo em toda região.

JC - O senhor se considera linha-dura?

Annibal - Não me considero, mas não sei o que as pessoas acham porque elas não dizem. Mas não acho que seja linha-dura, só cumpro o meu dever. A profissão de delegado é assim: imagine que você está numa cidade pequena e há um casal de velhinhos no banco da praça e um bêbado dormindo na grama. O delegado passa, cumprimenta os velhinhos e vai embora. O comentário deles vai ser: “esse delegado não prende nem bêbado quem dirá bandido”. Se o delegado prende o bêbado, o comentário muda: “esse delegado prendeu o coitado que estava quieto ali e não prende bandido”. Então não tem jeito, ninguém fica satisfeito. É preciso ter consciência disso e absorver.

JC - A população não reconhece o trabalho do delegado?

Annibal - Não, o trabalho não é reconhecido. Você pode ficar numa cidade, fazer o bem, como aqui, onde os índices de criminalidade caíram e não ser reconhecido. Daí acontece um crime e todo mundo pergunta: “cadê a polícia?”. Tem que absorver, cumprir o seu dever e não “dar bola”. O que rende é o crime, é só ver as emissoras de TV e os jornais, quanto espaço eles dedicam ao crime todos os dias. Com isso a população se sente insegura, por mais segurança que você leve ao cidadão. O problema está mais focado na sensação de segurança do que na própria segurança. Na área do Deinter-4 houve um decréscimo grande de todos os crimes de ponta no último ano e as pessoas ainda estão inseguras. Em 2006 os crimes caíram bastante em relação a 2005, 2004 e os anos anteriores e houve um aumento populacional, então a polícia tem feito um trabalho efetivo.

JC - Até que ponto a polícia paulista tem controle da situação para evitar que crimes em série promovidos por organizações criminosas, como os que aconteceram no ano passado, voltem a ocorrer?

Annibal - Esta situação está controlada, a polícia agiu rapidamente. Na região, por exemplo, todos os principais nomes do PCC estão presos. Prendemos todo mundo, continuamos investigando e estamos prontos para qualquer ação. De 1.894 funcionários que nós temos aqui no Deinter-4, 860 já passaram por cursos de especialização. Quando eu cheguei aqui a polícia não tinha preparo para determinado tipo de ação, tanto que foi pega de surpresa em maio durante aquela ação da facção criminosa. Nós começamos a nos preparar fazendo cursos de sobrevivência policial, tiro, armamento, defesa... Nessa última operação da Polícia Civil nós prendemos 290 pessoas em um dia sem dar um tiro. Fizemos 11,5% das prisões do Estado, uma média muito boa. Então acho que o policial hoje em dia está bem preparado mas estamos fazendo mais cursos. Pretendo que todos os 1.894 façam cursos.

JC - O que mudou na Polícia Civil nos últimos 30 anos?

Annibal - Acho que a polícia perdeu muito poder e a população perdeu muito com isso também. Nós tínhamos, por exemplo, um mandado de busca e apreensão que era nosso. Com o delegado presente era possível entrar em qualquer lugar. Hoje, se eu pegar um assalto, perseguir o elemento e ele for para dentro da casa dele à noite, não posso entrar. Tenho que manter uma equipe lá e esperar no outro dia o Fórum abrir para pedir um mandado. Antes não, o delegado entrava e, se não pudesse, expedia o mandado para os policiais entrarem. Perdemos muito poder.

JC - O fim da ditadura parece ter gerado uma onda de liberação em todos os segmentos da sociedade. Isso pode ter influenciado nessa perda de poder?

Annibal - A Constituição de 1988 foi feita por aqueles que sofreram a repressão então ela criou muitos direitos e poucos deveres, na minha opinião. Foi uma Constituição focada em direitos... acho que isso prejudicou o País.

JC - Há alguns anos se falava bastante sobre a união das polícias Civil e Militar. Como o senhor vê a questão?

Annibal - Sou contra a unificação. Em muitos países do mundo - aqueles chamados de desenvolvidos - existem várias polícias, por que no Brasil não pode haver duas polícias? Acho que o trabalho está funcionando, há uma integração, uma troca de informação... Quem manda nas duas polícias é o secretário de Segurança, então o comando é um só.

JC - O que a polícia de outros países pode nos ensinar?

Annibal - Pela informação que eu tenho, a polícia de São Paulo é uma das melhores do mundo. Ingleses, franceses, canadenses, americanos e japoneses já vieram para cá fazer cursos, aprender com a gente. Então há uma troca de informações. É claro que existem polícias do mundo que têm “algo a mais” mas isso não significa que sejam melhores. Mas a gente precisa evoluir sempre, o crime evolui e a gente tem que acompanhar. O governo tem investido muito em inteligência policial, por exemplo. Aliás, sou professor na Academia de Polícia dentro da área de inteligência policial.

JC - Até que ponto a experiência de uma polícia estrangeira pode ser posta em prática? Por exemplo, o policial de rua inglês não anda armado, existem polícias que usam armas não-letais com mais freqüência. Isso funcionaria aqui?

Annibal - É uma questão cultural. Quantos anos tem o Brasil? E a Inglaterra? Então são usos e costumes diferentes dos nossos. Cada região tem uma peculiaridade, mesmo dentro do Brasil. Se unificarem as polícias no Brasil, como vamos fazer com o Nordeste, com Rondônia ou o Acre? São outros tipos de costumes e outros tipos de crimes.

JC - As regiões de São Paulo também têm suas particularidades?

Annibal - Têm... O Vale do Paraíba é totalmente diferente do resto do Estado. O litoral norte também, inclusive os costumes da população, é o outro mundo. A região de São José dos Campos, por exemplo, é habitada por muita gente que veio do Sul, Minas, Rio de Janeiro, por conta do pólo industrial e tecnológico. Lá também uma cidade emenda com a outra.

JC - Isso muda o comportamento do delegado?

Annibal - Muda. Os crimes são os mesmos mas as características dos bandidos são diferentes, das vítimas também. Os perfis são diferentes, os homicídios são diferentes. O delegado tem que perceber isso. Eu digo sempre que é o delegado quem tem que se adaptar à cidade e não a cidade a ele. Se em uma cidade pequena há o costume de se sentar no banco do jardim colocando o pé no assento e a população não liga para isso, porque você vai mudar. É preciso se adaptar à cultura local, conhecer as pessoas, entender a política da região e saber como ela funciona, além de saber da população o que ela espera da polícia. É preciso analisar isso e fazer o que julgar necessário.

JC - Perceber o que a cidade quer em relação a segurança...

Annibal - De polícia, médico e louco, todo mundo tem um pouco, assim como todo mundo entende de futebol e pode ser técnico da Seleção Brasileira. Quer dizer, todo mundo dá palpite na polícia. Eu escuto, tenho que escutar, não atrapalha em nada. Às vezes é possível pegar uma idéia aqui, outra ali, avaliar o que dá certo o que não dá... Muitas coisas que se ouve dá certo. O bom delegado deve captar o sentimento da população, perceber o que ela está necessitando e traduzir isso em ação.

JC - Como é possível lidar com tantos crimes e ter uma vida familiar tranqüila ou sem paranóias com segurança?

Annibal - A família se acostuma com isso mas a verdade é que você tem que se garantir. Eu ando atento, a minha preocupação é maior do que a de uma pessoa comum, claro. Agora não existe medo. Se você tiver medo, não vira delegado de polícia. É preciso enfrentar a situação. Nós convivemos com o crime todos os dias, com a violência e acabamos acostumando. Quando se chega em casa é preciso deixar a polícia para fora senão sua família vai viver a polícia com você. Tem que abstrair para não “pirar”. Se começar a pensar na vítima que morreu de tal jeito, na pobreza do mundo... você fica louco.

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Perfil

Nome completo: Roberto de Mello Annibal

Local de nascimento: São Paulo

Idade: 58 anos

Esposa: Tânia Annibal

Filhos: Alexandre Annibal (31 anos) e Iramaia Annibal (30 anos)

Hobby: Automóvel. “O meu carro brilha, é perfeito. Tenho um Mondeo Ghia, 6 cilindros, 1999. Meu hobby é cuidar do carro”

Livro de cabeceira: A Bíblia

Filme preferido: “De Volta para o Futuro”, de Robert Zemeckis

Estilo musical predileto: MPB

Times de coração: Santos

Para quem daria nota 10: Deus

Para quem daria nota 0: Para os corruptos

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