Com audiência pública marcada para apurar denúncias de irregularidades na Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e a apresentação de um projeto de lei que pretende modificar a estrutura da Lei de Estímulo à Cultura, tem-se a impressão de que finalmente a classe artística pode ganhar voz na Câmara Municipal de Bauru.
Representantes da Sociedade Amigos da Cultura (SAC) e de outras entidades organizadas do setor devem comparecer hoje à sessão extraordinária para acompanhar a fala do diretor teatral Bruno Wan Dick na Tribuna. A intenção da classe artística é mostrar como se dá a atuação da SAC, existente na cidade há cerca de 10 anos, e de outras entidades culturais regulares, como a Associação de Teatro de Bauru e Região (ATB), Cineclube Aldire Pereira Guedes e Associação de Dança de Bauru (Adab).
Para o produtor cultural Zé Ramos, presidente da SAC, a discussão de denúncias na SMC pelos vereadores não pode denegrir o trabalho realizado pelos grupos e artistas da cidade. “Se um vereador fala mal da (secretaria de) Cultura, é uma briga do Legislativo com o Executivo, não com os artistas e com a SAC”, frisa.
Ramos coloca que a SAC vem tentando organizar um histórico de todos os projetos promovidos, apresentados à SMC e realizados pela entidade nos últimos anos, com o intuito de comprovar a atuação da entidade e até mesmo mostrar como a Lei de Estímulo vem funcionando para a classe artística. Segundo o presidente, muitos projetos foram inscritos na lei através da SAC, nos últimos anos, em razão da exigência de uma associação organizada juntamente com o autor ou realizador.
“A SAC é aberta. As pessoas não pagam nada para participar, qualquer um (artista ou produtor) pode se apresentar pela SAC, é preciso apenas cumprir o que pede o estatuto, exige-se pelo regimento que a pessoa participe das reuniões (para obter o aval da associação para a apresentação de projetos)”, explica Ramos.
O diretor teatral Márcio Pimentel, representante paulista na Câmara Setorial Nacional de Teatro, entidade ligada à Fundação Nacional das Artes (Funarte), frisa que a fala na Tribuna, hoje à tarde, pretende esclarecer sobre o desenvolvimento dos projetos e do que a classe artística faz com a comunidade.
“É uma classe muito prejudicada, sem visibilidade. Os poderes (Executivo e Legislativo) têm de estar cientes da situação. Os vereadores precisam comparecer aos encontros (da SAC) para visualizar os trabalhos e nosso processo, precisam se interessar antes de levantar um projeto para mudar a Lei de Estímulo. Isso é incoerente e desmotiva todo o processo de classe”, afirma Pimentel.
____________________
Sem representação
Na opinião de Márcio Pimentel, o problema mais sério para a classe artística de Bauru é não haver um vereador na Câmara que levante a bandeira da cultura. “Por mais esforço que alguém tenha para defender a categoria, não entende muito, pois não está vinculado, não atua no processo cultural. Quando um vereador diz que quer ser artista para simplesmente receber R$ 20 mil da Lei de Estímulo, ele não sabe o que está dizendo, não conhece o processo. Com R$ 20 mil, o artista faz a produção, não tem ganho monetário”, critica o diretor.
“Onde não há arte, não há progresso, onde não há discussão artística, não há progresso intelectual”, completa. O presidente da SAC, Zé Ramos, enfatiza que a discussão sobre a SMC na Câmara já traz boa visibilidade à classe artística. “Eles passaram a discutir cultura. Se hoje a SAC está se organizando, é porque a discussão trouxe essa necessidade. Mas se quero que o vereador discuta cultura, tenho que envolvê-lo no processo”, finaliza Ramos.