Política

Câmara teve dia de tumulto inútil

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

A Câmara Municipal de Bauru foi palco de um verdadeiro espetáculo durante a sessão ordinária de ontem. Separados por uma divisória, vereadores e artistas pareciam competir para serem protagonistas de um show marcado pela falta de respeito e intolerância. O motivo da discussão: a resposta do diretor de teatro Bruno Wan Dick na tribuna à sessão do dia 12 de março, em que vereadores atacaram o Programa Municipal de Estímulo à Cultura, principalmente a seleção de cinco projetos da mesma entidade, a Sociedade Amigos da Cultura (SAC).

Terminada a fala do diretor (leia matéria abaixo), o vereador João Parreira (PSDB) assumiu a tribuna e disparou críticas. “Estava vendo um cidadão deitado e babando ali na galeria e, para mim, é um verdadeiro desrespeito com essa Casa”, disse Parreira. O cidadão que “babava” era o artista Val Rai, que realizava uma performance de butho, uma modalidade performática de dança difundida no Japão em que se evita o lado racional.

A frase de Parreira foi interrompida por vaias da classe artística que ocupava o plenário. Sob a ameaça de serem expulsos da casa pelo presidente da Câmara, Paulo Madureira (PP), o diretor de teatro Márcio Pimentel reagiu aos gritos: “Liberdade de expressão!”. O presidente revidou: “Está faltando educação à Cultura” e, novamente, Pimentel rebateu: “Está faltando educação para vocês também”, disse acompanhado por murmúrios de vários artistas.

Acalmado pelo vereador Antônio Faria Neto (PDT), Pimentel se retirou da sala junto com outros artistas, antes de escutar mais um ataque do parlamentar verde Primo Mangialardo (PV). “Fico imaginando o que ficam ensinando para as crianças e, pior, com o dinheiro do município”, colocou. Depois, como se nada tivesse acontecido, Parreira retomou a fala: “Mas, senhor presidente, o que eu quero falar é sobre o Plano Diretor...”

Reação

Depois do despropositado festival de ofensas, muitos artistas se dirigiram à frente da Câmara onde moradores do Jardim Ouro Verde, contemplados em 2005 pelo Programa Municipal com o projeto Núcleo de Percussão Ouro Verde 100%, promoviam uma batucada de protesto.

Em posse de um alto-falante, a atriz Susan Lopes questionou a fala de Parreira do último dia 12, quando disse que também gostaria de ser artista para receber R$ 20 mil da Prefeitura. “Quanto ganha um vereador, fora os subsídios?”, perguntou, afinada com o discurso de Pimentel que, ainda nervoso, colocou: “Eu gostaria é de ser vereador! Quem conhece o processo artístico sabe que R$ 20 mil não paga uma produção”.

Depois de repassar o alto-falante a outros artistas, Lopes disse à reportagem: “Antes de discutir sobre cultura, os vereadores deveriam se informar! O que o artista estava fazendo era uma linda e silenciosa performance de butho”, disse Lopes. O estopim da discussão, o performance de Val Rai, foi ainda mais crítico: “Para mim, o Parreira não é um vereador, ele não tem conhecimento nenhum de cultura; é apenas um vendedor de terrenos”, disparou.

Mais calmo, Pimentel retornou à Câmara sem demonstrar arrependimento. “Não volto atrás! Falar que havia um indivíduo babando jogado no chão? Ah, faria tudo de novo!”, disse. Outro que fez coro ao diretor de teatro foi o ator Carlos Eduardo Martins. “A casa tem suas regras e nós estamos aqui para subvertê-las”, afirmou.

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