Turismo

Eu estive lá: ‘Fuera Bush’ em Buenos Aires – Turismo político

Por Henrique Perazzi de Aquino | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 7 min

“Tudo começou com a iniciativa de um grande amigo de Bauru, com 27 anos, professor de inglês e um militante socialista , incomodado com os rumos atuais da integração do Brasil junto às demais nações latino-americanas. Quando ficou sabendo que Hugo Chávez iria fazer uma grande concentração em Buenos Aires, num ato organizado pelos movimentos sociais argentinos, justamente quando Bush estaria ali ao lado, em Montevidéu, começou a movimentar céu e terra para estar lá. De inicio eram cinco os pretendentes à aventura, mas no final fomos dois, ele e eu, Henrique Perazzi de Aquino, 46 anos, professor de história e funcionário público.

Vontade existia em todos de ouvir/ver Chávez e constatar in loco a existência de uma alternativa a este injusto mundo em que vivemos e de praticar uma real integração a um bloco econômico, político e social dos sofridos países latinos. Ele tratou de tudo, finalmente me arrastando com um argumento dos mais convincentes: “Minha geração não está fazendo nada para mudar o estado de coisas que aí está”, disse. Participou de manifestações estudantis, esteve na luta armada, era atuante e se propôs a mudar radicalmente o regime. “O tempo está passando e quero fazer algo. Essa é a oportunidade”, argumentou.

Foi o que bastou para nos fazer arrumar as malas e nos endividarmos mais um pouco. A forma escolhida para se chegar até lá foi através de um pacote turístico, de aproximadamente US$ 300 cada um, com duas estadias. Tudo financiado, com prestações a perder de vista. Saída de ônibus de Bauru para São Paulo (350 km) na quinta à noite, um táxi até Guarulhos com preço exorbitante (ainda queria uma sobre-taxa de 50% por atravessarmos duas cidades) e vôo às 7h30 na manhã do sábado, 9 de março, dia do evento.

Instalados num hotel no Centro de Buenos Aires desde 11h, mal conhecemos a cidade, pois às 15h já estávamos desembarcando defronte o estádio do Club Ferro Carril Oeste, munidos de uma rústica máquina fotográfica.

Os portões abririam somente às 17h, mas algumas pessoas já se aglomeravam no local. Sentada diante do portão destinado ao público, a primeira da fila era uma espigada argentina, Rita Éster Lincopea, que estava ali desde as 14h e, ao saber que éramos brasileiros, abriu um sorriso irônico e destilou sem piedade: “Cadê Lula? É uma grande decepção ele não estar aqui junto de nós”.

A fila foi crescendo rapidamente e ganhou ares de festa com a chegada dos portuários do Porto Capital, empunhando faixas, bandeiras e com uma barulhenta bateria de bumbos e apitos. Alberto Alippi, 52 anos, navegante, com um boné vermelho caindo de lado, descreve em detalhes suas peripécias na praia de Gonzaga, em Santos e diante de brasileiros falava de futebol: “Maradona jogava praticamente sozinho e foi grande. Pelé só foi o que foi por estar ao lado de monstros sagrados”.

Não discutimos futebol, pois também adoramos Maradona, nos atendo à atuação do grupo dos portuários e sua prática política: “Quando os portuários daqui decidem parar, nada funciona. Paramos tudo. Menén privatizou tudo, inclusive os portos, destruiu o país e só volta ao poder morto. Ele foi o maior ladrão desse país”, comentou.

Adentramos o estádio e decidimos não ficar nas arquibancadas, indo direto para o gramado, todo revestido com uma película de feltro em tiras coloridas. Queríamos ver Chávez de perto. Faixas e cartazes já estavam espalhadas por tudo quanto é canto, estávamos nos sentindo em casa e era exatamente aquilo que estávamos procurando. Ficamos bem defronte ao alambrado, tendo à frente somente as cadeiras para os convidados. A distância era de uns 10 metros. Olhando para os lados, nada de encontrarmos brasileiros (uma grande decepção). O alento veio de uma janela de um prédio bem atrás do palco, com uma bandeira brasileira hasteada ao vento (foi até reproduzida no telão do estádio e, afinal, não estivemos sozinhos nessa jornada).

A integração ao ato foi total e a receptividade até nos espantou, pois havíamos ouvido muito da dificuldade que teríamos no relacionamento com os irmãos portenhos. O que encontramos foi exatamente o contrário, pois ninguém se furtou de nos dar informações e trocamos idéias com todos. Um calor humano com forte conotação política, onde predominou a solidariedade entre povos irmãos, que padecem do mesmo mal.

Quando se aproximava o momento de início do ato, estávamos ambos preocupados, pois havia no estádio somente umas 2.000 pessoas. Temíamos pelo fracasso e o que isso geraria de notícias desabonadoras para o movimento social de integração latina. Confabulamos a respeito e notamos que de longe vinha um batuque intermitente, que crescia de volume a cada instante. Não conhecíamos mesmo nada sobre o poder de organização lá deles. Exatamente às 18h começou uma verdadeira invasão, com a chegada da Juventude Peronista e do Movimento Evita, com bandeiras azuis e um grito de guerra em alto e bom som. Lotaram tudo em cinco minutos, algo que nos deixou incrédulos e radiantes. Enfim, o estádio estava lotado, com mais de 30 mil pessoas. Daí em diante mal conseguíamos nos mexer, tal a aglomeração. Sair do lugar era ficar sem ele e não presenciar o evento de forma privilegiada.

O ato começou às 18h20 com o poeta popular Juan Palomino, que, inflamado, seduziu a todos: “A espada de Bolívar cavalga por toda a América Latina”, discursou. Todos se juntaram diante do palco. Crianças perdidas foram anunciadas no microfone e, olhando para os lados, vimos a caricatura de Lula em duas faixas, ao lado dos demais presidentes do bloco que apóia Chávez. Dois cantores populares se revezavam no palco, para delírio geral, Horácio Fontova e o conhecido Víctor Heredia, ambos conclamando o povo a não esmorecer na luta pelo direito dos povos latinos.

Os jovens peronistas não paravam um só instante, batucando e entoando seus chavões, mesmo com os cantores no palco. A exceção ocorreu somente quando as Madres da Praça de Maio adentraram o palco, o delírio foi geral. Iria começar verdadeiramente o ato contra Bush.

O narrador relacionou os nomes dos presidentes latinos que levantam a bandeira do socialismo, do Fora Bush, da solidariedade a Cuba e deixou de fora Lula e Tabaré Vasquez, do Uruguai. Quando começou a escurecer, por volta de 19h, Chávez subiu ao palco, cumprimentou todas as Madres, ouviu Hebe de Bonafini com sua fala emocionada e daí por diante foram mais de duas horas, com a multidão prostrada diante de um envolvente e emocionado discurso, bem contundente e inflexível com a presença de Bush: “Somos irmãos da mesma crise histórica, irmãos de alma, corpo, sangue e do mesmo parto. O cavalheirito do norte é um cadáver político. Nós vamos, sim, terminar o trabalho iniciado por Simon Bolívar. Que sigam soprando bons ares sobre Buenos Aires. Esses são os ventos bons. Unamo-nos e seremos invencíveis”, discursou.

Chávez citou Lula uma única vez, numa ironia sobre futebol, para que nosso presidente tomasse cuidado com os venezuelanos na Copa América (um time venezuelano havia vencido o Ríver Plate dias antes por 1x0, pela Copa Libertadores) e quando citou vários heróis latinos, dentre eles os nossos Tiradentes e Luiz Carlos Prestes. Os pés doíam, mas ninguém arredava de lá. Mães carregavam filhos dormindo no colo, aos mais velhos eram cedidos os lugares junto ao alambrado e até mate era distribuído no meio da multidão e passado de boca em boca. Um inflamado argentino, bem ao nosso lado, não se cansava de gritar: “Estamos vendo nascer um novo mundo. Fuera Bush!”.

Na saída, um contentamento generalizado. Foi o momento dos abraços coletivos, da troca de informações e congratulações. A cada um que sabia da nossa procedência, a pergunta: “Que fazem perdidos por aqui?”. Numa alusão ao nome do famoso filme, a resposta era que éramos “dois achados numa noite limpa”. A decepção mesmo foi não cruzar com nenhum outro brasileiro. Representamos dignamente a causa e o País. De alma lavada, fomos caminhando junto com a massa, ainda sem acreditar no que havíamos presenciado. A ficha demorou a cair. Constatamos que um novo mundo é mais do possível e ele só virá da união do nosso sofrimento coletivo.

Bem, depois fomos conhecer e descobrir um pouco de Buenos Aires, que ninguém é de “fierro”. De “fierro” mesmo, o estádio e a disposição de Chávez, que está bem consciente do papel que lhe cabe nisso tudo. Voltamos os mais de 2.000 quilômetros com a consciência do dever cumprido e de que a luta está apenas começando.”

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