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O outro lado da Segunda Guerra

Por Silvana Arantes | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

“Estou numa etapa da vida em que não faço mais um filme só para ter um trabalho. É preciso haver outra motivação”, diz o diretor Clint Eastwood, 76 anos. A batalha de Iwo Jima, entre norte-americanos e japoneses na Segunda Guerra, deu a Eastwood motivação para fazer não um, mas dois filmes.

“Cartas de Iwo Jima”, que estréia hoje no Cine’N Fun do Alameda Quality Center, é o reverso de “A Conquista da Honra”, que passou pelas telas de Bauru, no qual o combate é abordado pela ótica dos americanos - que o venceram.

Esse segundo filme sobre o tema corresponde à pretensão de Eastwood de entender o que se passava do lado contrário. “Colocar-se na posição do outro é o que um ator faz a vida toda. É um movimento natural”, disse o diretor no Festival de Berlim, onde “Cartas de Iwo Jima” foi exibido hors-concours.

O longa foi aclamado pela crítica mundial. Mas Eastwood ficou preocupado com a reação que poderia vir dos veteranos da guerra nos Estados Unidos. Até que se encontrou, antes de ir a Berlim, com “alguns veteranos que viram o filme e gostaram; disseram que sempre tiveram curiosidade de saber o que se passava do outro lado”.

Para contar a versão japonesa da batalha, Eastwood se baseou na história do general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe), que, do front, escrevia mensagens afetivas para sua família, enquanto exercia uma liderança heterodoxa. Ele exortava as tropas a resistir até o fim, contrariando o hábito japonês de cometer suicídio face à derrota iminente.

EUA no Iraque

A revisão que Eastwood promove da Segunda Guerra vem sendo encarada com uma crítica à investida militar dos Estados Unidos no Iraque. “Isso não teve nenhuma influência sobre mim. Eu faria esses filmes independentemente das circunstâncias vividas pelos EUA nos últimos anos”, afirma o cineasta. Mas ele diz que “paralelos com qualquer guerra havida antes e depois” são pertinentes, já que os filmes “não são pró-guerra; tratam das condições humanas na guerra”.

Eastwood filmou “Cartas” quase em preto-e-branco, porque “seria difícil obter uma atmosfera da guerra em cores”. Embora diálogos e atores sejam japoneses, o filme não é. “Filmei em outra língua e em outra cultura, mas é sempre o meu ponto de vista que está lá.”

Eastwood descobriu a obra do mestre japonês Akira Kurosawa (1910-1988) na juventude, quando freqüentava um cinema de arte em Los Angeles. “Vi “Rashomon” (1950) e muitos outros filmes dele. Como todo mundo, fiquei fã”, disse.

Com “Cartas de Iwo Jima”, Eastwood disputou o Oscar de melhor filme e diretor (ele já venceu em ambas as categorias duas vezes, com “Os Imperdoáveis” e “Menina de Ouro”) e ainda roteiro (de Iris Yamashita e Paul Haggis). Levou a estatueta por melhor edição de som.

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