Pesca & Lazer

História de pescador: O morto que me salvou


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Já li nesta coluna de caçadores e pescadores sobre lobisomem, mula-sem-cabeça e outras assombrações, mas ainda não vi nada sobre um pescador morto salvar um colega que ainda está vivo e isto aconteceu comigo em 2004.

O pescador Eriberto nasceu em Rosana (SP) em outubro de 1982 e morreu em janeiro de 2004, quando praticava pesca irregular entre a Hidrelétrica de Rosana e a ponte que interliga os Estados de São Paulo e Paraná, onde é permanentemente proibido qualquer tipo de atividade pesqueira.

Eriberto pescava de arpão naquele lugar quando recebeu voz de prisão por policiais do Paraná e, apesar de estar no lugar errado na hora errada, ainda usava arma errada em época errada, pois era ocasião de piracema e cometeu ainda o último erro da sua curta vida ao reagir contra os policiais com seu arpão, por isso morreu com apenas 21 anos de idade.

Sua morte causou grande impacto emocional na cidade onde nasceu, cresceu e também era muito querido. O seu velório e enterro foram marcados por diversas cenas de grande e geral consternação.

Eu estava naquela cidade naquele dia, ocupado com a ampliação de um rancho de pesca que eu possuía em sociedade com o dentista Diocélio, quanto tudo aconteceu. Eu havia mandado um portão para o conserto e este não foi devolvido no devido prazo justamente por causa do enterro do pescador.

Por volta da meia-noite daquele mesmo dia, um ladrãozinho entrou pela abertura onde faltava o portão e iniciou um vaivém dentro do meu quintal, transportando para fora tudo o que conseguia carregar.

Eu estava desarmado, não tinha um celular para chamar a polícia e, com o medo com que fiquei, acabei me esquecendo do nome de todos os vizinhos em volta, então não tive outro remédio senão iniciar um difícil diálogo com aquele gatuno.

Eu achei que bastaria falar bem alto e bem grosso para fazê-lo correr, mas a minha voz ficou entalada na garganta e, quando consegui falar, a voz saiu fininha: “Você já levou tudo o que queria ou ainda quer levar um tiro?”, eu perguntei.

O ladrão era um porcaria que também ficou com medo e a sua voz também saiu fininha quando me respondeu: “Põe a cara pra fora que você já vai saber”.

Percebendo que ele estava com tanto medo quanto eu, então decidi aumentar ainda mais o dele, lembrando sobre a tragédia ocorrida naquele mesmo dia, quando assim trepliquei: “Você vai morrer agora e da mesma maneira como morreu o Eriberto”.

Ao lhe dizer isso, eu esfreguei as duas mãos pelas venezianas e imediatamente saltei para o chão com medo de levar um tiro pela janela, mas enquanto eu saltava para o chão, o bandido também saltava para a rua, igualmente com medo de levar um tiro.

Quando eu consegui ver o larápio, ele já se encontrava a uns bons 500 metros de distância e ainda estava correndo. Eu achei que para quem estaria armado e tão valente, até que ele correu bastante.

E então foi assim que eu fui salvo pelo gongo, digo, pelo defunto que já se encontrava sepultado desde a tarde daquele mesmo dia.

Eurico de Oliveira é pescador e contador de histórias.

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