Nem a chuva forte foi capaz de desmobilizar mais um protesto de amigos e parentes do mecânico Jorge Luiz Lourenço, 22 anos, no Núcleo Habitacional Mary Dota, ontem à noite. Antes, eles participaram da missa do sétimo dia celebrada na Igreja Nossa Senhora Aparecida, no Centro.
A igreja era freqüentada por Jorginho. Há uma semana, ele morreu após ser atingido na cabeça por um projétil disparado pela Polícia Militar (PM). A ocorrência revoltou o Mary Dota que, mais uma vez, parou para pedir justiça. Porém, antes das palavras de ordem, gritos, assobios e do ronco dos motores tomarem a avenida Marcos de Paula Raphael, os participantes rezaram em silêncio na igreja.
Quando foram chamados ao altar, impressionaram até o padre pela quantidade. Cerca de 100 deles oraram e protestaram. Ao final da cerimônia religiosa, seguiram numa carreata até o Mary Dota, onde o mecânico morava e onde morreu. Na altura da quadra 14 da principal avenida do bairro, se concentraram.
Com “santinhos” nas mãos, faixas com a inscrição “Jorginho” e cartazes com a palavra paz, caminharam cerca umas 12 quadras, contando os dois sentidos da Marcos de Paula Raphael. À frente da passeata, duas faixas chamavam a atenção. Elas traziam dizeres como “Afinal, até quando ou quantos ainda precisarão se calar e engolir por força da opressão a verdade dos fatos”.
O trecho consta numa carta publicada pelo JC de autoria da historiadora Ana Sônia de Oliveira. Ela acompanhou parte da operação policial no dia em que o mecânico foi morto. Enquanto a passeata seguia sob a chuva, algumas pessoas permaneciam num posto de combustível ouvindo o som do Racionais MC’s, cuja letra também critica a ação da polícia.
Mas apesar dos gritos de assassinos entre os manifestantes direcionados aos policiais militares que permaneciam de guarda no local, a mãe do mecânico, Edite Lourenço, foi até eles segurando uma placa de “Paz”. Como fez em vários momentos, mais uma vez pediu justiça.
“Ela veio muito educadamente ao meu encontro. Também pediu desculpa se alguém se excedeu. Eu falei que as portas do batalhão (Batalhão da Polícia Militar) estão à disposição dela para que o advogado dela possa acompanhar o inquérito da PM”, informa o capitão capitão Valter Luís Sales Gonçalves, comandante da 4.ª Companhia da PM.
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Versões
A versão de parentes e amigos do mecânico não coincide com a da PM. De acordo com eles, Jorge era trabalhador, nunca portou arma, não tinha qualquer envolvimento com entorpecente, nem antecedentes criminais.
Já segundo relato dos policiais, o motociclista foi baleado durante confronto. Com ele, a PM informa que encontrou um revólver calibre 38 com numeração raspada e seis munições, sendo que três teriam sido deflagradas contra a PM. Nenhum policial ou viatura, no entanto, foi atingida. Também teriam sido localizadas cinco pequenas pedras de crack a cerca de 30 metros de onde a moto dele caiu.
Jorge pilotava uma Falcon vermelha que, segundo a PM, estava com a placa virada. Ele fugiu do bloqueio policial em alta velocidade porque estava sem habilitação e com o documento do veículo vencido, segundo a família.
Da Redação