A economia brasileira tem hoje condições bastante favoráveis para crescer de forma robusta, sem constrangimento externo e com razoável estabilidade interna. Podemos acreditar que está no horizonte próximo uma nova etapa de desenvolvimento num ritmo semelhante aos que tivemos ao longo de nossa história, com raras interrupções, a pior delas nas duas últimas décadas. A economia mundial e o comércio entre os países cresceram bastante nesse período abrindo possibilidades imensas de expansão que infelizmente aproveitamos quase nada. Mesmo com a diminuição do ritmo de crescimento da economia mundial as oportunidades não desaparecem. É aí que o Brasil continua deixando de aproveitá-las porque insiste numa política míope que desestrutura sua base industrial e inibe o crescimento de nossa participação no comércio mundial.
A miopia consiste em manter uma política que estimula a supervalorização do Real que se processa graças ao elevadíssimo nível dos juros brasileiros, ainda os maiores do mundo. Nossa moeda se apreciou muito mais do que a média das divisas dos demais países porque sustentamos a possibilidade de ganhos sem risco em operações de arbitragem que se valem do enorme diferencial entre as taxas de juros internas brasileiras e os juros externos. É esse diferencial verdadeiramente escandaloso entre a nossa taxa de juro real e a do resto do mundo que permite a especulação no mercado futuro sobre o dólar e mantém o real valorizado .
O resultado é uma taxa de câmbio que inibe as exportações e está destruindo uma parte sadia do setor industrial brasileiro que de um lado vê piorar ainda mais as condições de competir no mercado externo e de outro se vê esmagado pela concorrência desleal do produto estrangeiro. O Real supervalorizado favorece ainda mais as importações de países onde o câmbio está em relativo equilíbrio ou se desvaloriza em relação ao dólar , onde o nosso concorrente obtém crédito a juros de 2% real ao ano e paga 20% de impostos . É com esses produtores que o industrial brasileiro tem que competir no mercado externo , pagando juros de 20% ao ano, uma carga de 38% de impostos e ainda com o câmbio desfavorável porque nós preferimos sustentar os lucros sem risco dos especuladores dos mercados financeiros.
Em determinados períodos a economia brasileira tem sido impedida de crescer , vítima dos mesmos erros de política econômica e sempre envolvendo o câmbio. Estamos destruindo novamente as condições de competitividade de importantes setores da indústria brasileira, especialmente a que contrata o maior número de trabalhadores (tecidos, calçados, móveis, por exemplo) , acreditando em falsos argumentos difundidos pelos agentes dos mercados financeiros de que “o câmbio é uma coisa natural, decorrente de causas naturais” e por isso não há nada a fazer a não ser comemorar...
Vende-se aqui escandalosamente a idéia que temos que ser iguais ao mundo “onde reina plena liberdade” e se oferece como exemplos (!) a China , a União Européia e a África do Sul , onde a competição é plena , geral e irrestrita, as normas do comércio mundial são respeitadas, a supervisão do sistema bancário é absolutamente rígida e o câmbio é livre ...
É total ingenuidade nós não querermos aceitar que, por maior que sejam as nossas “virtudes” , há alguma coisa de muito errada no fato de o Real ter se transformado na moeda mais valorizada do mundo e na “commoditie” mais desejada. E é manifestação de miopia não perceber que isso só continua a acontecer devido ao absoluto predomínio que o sistema financeiro passou a exercer sobre o sistema produtivo.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda , da Agricultura e do Planejamento