Hoje é o Dia do Café. Segundo conta o vice-presidente da Comissão Nacional do Café (CNC), Maurício Lima Verde, a data foi instituída na década de 50 pelo Ministério da Indústria e Comércio. Entretanto, cinco décadas após sua criação, o também vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp) diz que a maioria dos produtores brasileiros não tem motivos para comemorar.
Segundo ele, em São Paulo as expectativas em relação ao futuro do café não são nada animadoras. Apesar do preço da saca (de 60 quilos) do grão ser o melhor dos últimos dez anos - US$ 120 -, a cafeicultura vem perdendo cada vez mais espaço, tanto em função do avanço de concorrentes como a cana-de-açúcar e a laranja quanto pela descapitalização dos produtores. O passivo da cafeicultura gira em torno de R$ 5 bilhões.
Segundo Lima Verde, com exceção de Estados como Minas Gerais (que detém 65% da produção nacional) e Espírito Santo (segundo colocado), onde as lavouras de café ainda predominam, no restante do País a situação é muito difícil. Atualmente, no Brasil existem 2 bilhões de hectares de café, sendo que no Estado de São Paulo são apenas cerca de 400 mil hectares. Cada hectare corresponde a 10 mil metros quadrados.
“O cenário de hoje é reflexo de uma situação que se arrasta há muito tempo. Quem investe em café demora de três a quatro anos para começar a ter retorno financeiro. O problema é que os produtores estão descapitalizados. Os custos de produção subiram e eles não têm dinheiro para plantar e ficar esperando tanto tempo (para ter retorno do investimento). O governo está renegociando as dívidas, mas elas continuam existindo”, analisa.
De acordo com Lima Verde, no Estado de São Paulo o café está partindo para um processo de extinção devido a diversos fatores.
“O principal (fator) é que o café não é remunerador. A cana está invadindo diversas áreas, mas isso acontece porque o empresário sai da cafeicultura em busca de maior retorno financeiro. Na região de Ribeirão Preto, por exemplo, tem fazendas lindas de 600 mil pés de café que foram tomadas pela cana, porque o produtor tem mais lucro (com essa substituição). Ou seja, o problema não é o avanço de outras culturas. O problema é o próprio café”, destaca.
O Estado de São Paulo já teve colheitas históricas de 7 milhões de sacas do grão. Atualmente, essa quantidade não ultrapassa 4 milhões de sacas. No Brasil, a colheita prevista para setembro deve atingir cerca de 35 milhões de sacas, mas precisaria ser de 42 milhões para atender a demanda.
Queda mundial
Até mesmo o cenário global mostra uma nova realidade para o setor. Segundo Lima Verde, a safra atual marca a primeira vez nos últimos dez anos que a produção mundial de café será menor do que o consumo: cerca de 108 milhões de sacas produzidas contra a estimativa de 116 milhões consumidas.
Nos últimos anos, sempre havia um excesso em torno de 10 milhões de sacas no mercado, o que prejudicava as negociações e derrubava os preços. Mas nem isso tem colaborado para amenizar a atual crise da cafeicultura.
“No Brasil, o café tem uma importância institucional muito grande. Existe uma geração que viveu do café no País. Mas a importância econômica vem diminuindo cada vez mais. Hoje o café significa algo em torno de 2% das exportações brasileiras”, afirma Lima Verde.
Segundo ele, existem cerca de 400 mil cafeicultores no País, mas 90% deles são pequenos produtores cujas plantações não ultrapassam 50 hectares. Por outro lado, são cerca de 15 milhões de brasileiros que dependem da cafeicultura para viver. Ou seja, a importância social do café ainda é grande.
“Na região de Bauru a invasão da cana-de-açúcar ainda vai demorar, porque não se tem para quem vender a produção. Mas a médio prazo, o Estado de São Paulo vai virar um canavial só. Daqui a dez anos, vamos ter apenas alguns nichos de produção de café. É questão de tempo”, sentencia.