No filme de Peter Greenaway “O Livro de Cabeceira”, um pai japonês abençoa sua filha escrevendo em seu rosto: “Quando Deus fez o primeiro modelo em barro de um ser humano, Ele pintou os olhos, os lábios e o sexo. Depois, Ele pintou o nome de cada pessoa para que o dono jamais o esquecesse. Quando Deus aprovou sua criação, Ele trouxe à vida o modelo de barro assinando nele seu próprio nome”.
É sem valor, e uma tentativa inútil, pedir a Deus aquilo que nós mesmos podemos realizar. Aproveitando da analogia feita no Novo Testamento, um pai deseja que seu filho seja independente e possa caminhar com suas “próprias pernas”. Deus não está em nossa vida para nos proteger, para nos arrumar um emprego, para fazer nossa empresa sair da falência ou encher de reais nossa conta bancária. A relação com Deus pode sim nos ajudar a ter forças para alcançarmos nossos objetivos, mas somos nós que realizamos e construímos nossa vida e nosso universo social. O problema é sabermos pensar sobre estes objetivos.
Em primeiro lugar é necessário saber que existe uma grande diferença entre necessidades e desejos e que esses últimos, muitas vezes, são construídos por uma sociedade de consumo que tenta nos convencer de que desejos são necessidades. Muitos de nossos desejos não são verdadeiramente nossos e muito menos necessidades. Nós vivemos em uma sociedade que possui mecanismos eficazes para vender produtos. Para isso, a indústria do consumo procura criar sonhos, ou os chamados desejos de consumo. A partir daí, nós precisamos ser convencidos de que estes desejos de consumo são verdadeiras necessidades.
Nós percebemos a maquinaria do consumo inserida em nós mesmos quando compramos algo e, depois de alguns dias, nos perguntamos se ele era realmente necessário. Outra forma de percebermos como nossos desejos são manipulados é darmos uma olhadinha em nossos armários ou guarda-roupas. A experiência é fantástica ao percebermos que adquirimos objetos sem a menor necessidade de tê-los. Isso se torna nítido também quando temos que mudar de casa. A mudança de residência nos faz perceber como estamos próximos de muitos animais, ou seja, juntamos muita coisa no ninho. O pior é que essas coisas, na maioria das vezes, são objetos de sedução do simples consumo e não de uma verdadeira necessidade.
Em outras palavras, nos aproximamos dos animais ao juntarmos coisas no ninho, mas somos animais impulsionados não pelo frio ou pelo calor, mas pela indústria do marketing e da propaganda. Sem dúvida alguma, a necessidade é um mal. Se temos necessidade não possuímos liberdade. Necessidade de comida, roupas, moradia, trabalho, educação, livros, etc., nos tira a liberdade. Se não temos acesso a essas coisas básicas para o nosso desenvolvimento, não podemos dizer que somos pessoas livres. Não existe, porém, a necessidade de vivermos com essa necessidade.
Nós podemos construir uma sociedade na qual as necessidades sejam verdadeiramente eliminadas. A questão, porém, é que na sociedade de consumo as necessidades são camufladas e ficamos iludidos com os desejos. Nós deixamos de ver a situação da maioria e vamos atrás de “nossos” sonhos. Juntamente com o marketing e a propaganda aparecem os livros sobre pensamento positivo e, agora, os filminhos com aquele segredinho que todo mundo sabia, menos você. E com “the secret” você irá conseguir realizar todos os seus desejos e ter muito, mas muito dinheiro.
O que infelizmente deixamos de perceber é que a simplicidade é uma grande riqueza e, contrariamente, a riqueza sem limites é uma grande pobreza. A necessidade exigida pela natureza é limitada e facilmente arranjada; aquela que ambicionamos possuir num tolo desejo de consumo, ao contrário, chega ao infinito. Nunca deixamos de ambicionar e, pior, nunca nos deixam parar de ambicionar. É preciso ter cada vez mais e estar cada vez mais dentro da tribo da moda. Não é fácil manter-se lúcido diante da sociedade dos desejos. Muita gente faz prestações quilométricas para realizar, não uma necessidade, mas um desejo e, muitas vezes, um desejo que não é seu. Para se manter realmente lúcido existe somente uma saída.
Nós devemos nos perguntar por ocasião de todos os desejos, ou diante daquilo que aparenta ser uma necessidade: o que há de acontecer quando o meu apetite for satisfeito, e o que acontecerá se ele não o for? A vida do insensato é ingrata, pois sua mente encontra-se em constante agitação e, apesar das prestações ainda a serem pagas, está sempre dirigida para o futuro. O momento presente do insensato nunca corresponde aos seus desejos, por isso seus olhos estão sempre cegos para os prazeres que a vida já lhe oferece. Cuidado!
Enquanto pensamos positivo ou vamos em busca deste “secret” alguém pode estar fazendo mau uso de nossos impostos pagos. Ao invés de sonharmos com os desejos de consumo, que tal sonharmos com o bem comum, fazermos uma visita regular às sessões da Câmara Municipal de nossa cidade, à Prefeitura, aos postos de saúde, como também saborear o que realmente temos. Acredite, não é comodismo afirmar que estamos felizes com o que temos em nossa vida particular e nem fora da lei protestar contra a ineficiência do Estado. Pense nas necessidades, cuidado com os desejos. A vida é mais simples do que aparenta ser.