Pé de coelho para ter sorte, caveira de boi para espantar maus espíritos. Quando era criança e morava em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, Alexandre Manoel da Costa convivia com todo tipo superstição que se possa imaginar. Hoje, aos 40 anos de idade, atuando como pastor da Igreja Luterana em Bauru - religião protestante surgida no século 16, cuja doutrina é baseada nos ensinamentos do alemão Martinho Lutero -, ele luta para combater aquilo que chama de misticismos urbanos.
“O folclore religioso sempre fez parte de minha vida, inclusive pelo fato de minha mãe ser indígena (ela é da tribo Terena). Mas, se fosse fazer uma comparação, diria que o homem da cidade grande está bem mais atrasado que o índio em matéria de superstição”, acredita.
Costa, que hoje comanda as atividades de uma igreja localizada no Parque Vista Alegre, zona oeste de Bauru, tornou-se pastor após entrar em contato com um grupo de missionários gaúchos em sua cidade natal. “Eles ajudaram a racionalizar aquela religiosidade que eu e minha família possuíamos. Eles me mostraram que o deus da floresta, que eu supunha ser um espírito ancestral, era, na verdade, Jesus Cristo e que apenas nele eu deveria depositar a minha fé”, diz.
Aceitar a nova crença não foi fácil para Costa. “No princípio tive dúvidas, pois pensei comigo: ‘Mas, e aquela vida religiosa que eu tinha antes, não valeu de nada?’ Depois compreendi que, apesar de aquilo ser válido, era apenas misticismo”, recorda.
Após aderir à nova fé, Costa resolveu se tornar um missionário. Cursou faculdade teologia em São Paulo e foi ser pastor em Governador Valadares, (MG). “O problema é que lá existe um folclore religioso muito forte. As pessoas têm costume de deixar o Criador de lado para se apegar a amuletos e simpatias”, explica.
Apesar de todos os entraves culturais, Costa conseguiu se sair bem em seu trabalho. “Como eu já havia sido alvo de trabalho missionário, era capaz de compreender perfeitamente a lógica da pessoa a ser evangelizada. A partir daí eu tentava explicar que a sorte não provinha do amuleto, mas sim de Deus, que nos abençoava”, recorda.
Perseverante, Costa costumava dizer que só aceitaria deixar Governador Valadares quando se deparasse com o desafio ainda maior pela frente. A oportunidade veio há cerca de quatro anos, quando ele foi convidado a iniciar uma nova comunidade luterana em Bauru. “Aqui as superstições também são muitas, principalmente entre aqueles que se dizem cristãos. Vamos ter muito trabalho até convencer as pessoas de que é Jesus Cristo quem traz a salvação ao mundo - e não as correntes de oração ou os amuletos”, diz.