Um dos veteranos da política bauruense, o ex-deputado Roberto Purini (PMDB) é daquelas pessoas que sempre têm algo interessante a dizer. E não foi diferente desta vez. Em entrevista ao JC, Purini revelou que o aeroporto “Moussa Tobias”, uma de suas principais bandeiras defendidas durante o tempo em que militava como político, nunca foi unanimidade entre os “colegas”. “Se contasse os nomes de gente quem trabalhou contra a construção do novo aeroporto, Bauru não acreditaria”, frisou.
Além do empreendimento, que ele acredita que ainda será a “redenção” de Bauru, Purini fala de sua vida fora da política, atualmente persegue a missão de tornar-se um empresário do ramo da água. O ex-deputado comentou, ainda, a renúncia de Caio Coube à presidência do PSDB, político que entende ser “imbatível” em uma eventual disputa à prefeitura bauruense em 2008. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - O que o cidadão Roberto Purini tem feito fora da política? Virou empresário?
Roberto Purini - Tenho lutado em um processo de industrialização de água desde 2001 e estou agora na etapa final, com a obtenção da lavra para início das atividades. Já consegui a jazida, um reservatório de 65 mil litros com profundidade de 180 metros e vazão de 25 mil litros. Estou empenhado nisso, mas a burocracia é violenta. Tenho dito que em outras empreitadas, que não eram de interesse direto nosso, muitos mais anos se passaram. Portanto, se mais um ano ou ano e meio ainda forem necessários, aguardarei. Também tenho um bosque, praticamente a 12 minutos do centro da cidade, com árvores centenárias onde preparei um ambiente com piscina e quiosques e logo o Jornal da Cidade deverá estar anunciando uma propaganda. Poderemos utilizar aquilo muito bem em termos de fluxo de pessoas.
JC - Quer dizer então que o senhor não pensa mais em política?
Purini - Eu continuo filiado ao PMDB e não faço militância efetiva. Mas vivencio a política bauruense desde os idos de 62. Em 68 me elegi vereador, em 72 me reelegi vereador, em 76 fui o candidato mais votado a prefeito, mas não fui prefeito. Em 78 me elegi deputado e fiquei até 98. Apesar de não ter nascido aqui, hoje sou cidadão bauruense, cidadão centenário e recebi a venera maior da cidade que é o Custos Vigilat. Não posso estar distante das coisas de Bauru, que sempre me entusiasmaram.
JC - O senhor disse que tem se emocionado com as coisas boas que acontecem em Bauru. Ultimamente o senhor tem se emocionado cada vez menos, ou não?
Purini - Nós temos emoções que podem ser de alegria, raiva, surpresa. Mas acho que Bauru está fadada a atingir o seu apogeu nos próximos anos. Apesar dos pesares, Bauru tem crescido, se desenvolvido e hoje Bauru, logisticamente falando, não se compara a nenhuma outra cidade. Temos ferrovia, rodovia, aeroporto de porte internacional, hidrovia e a estação alfandegária que está aí em função do aeroporto. Tudo isso me faz vibrar com Bauru, mas muitas coisas que têm ocorrido ultimamente nos entristecem. Mas acredito piamente - eu sou um homem de fé - que Bauru tem um destino grandioso.
JC - O que o faz acreditar nisso? O aeroporto é um desses motivadores?
Purini - Eu diria que é a mola propulsora. Eu tenho dito, vide Campinas antes de Viracopos, vide Guarulhos antes de Cumbica. Destacaria uma fala do Joelmir Beting, quando ainda estava na TV Globo, participando daquele programa Antena Paulista. Ele disse que o novo aeroporto de Bauru deverá ser, entre 2015 e 2020, o maior aeroporto da América Latina. Acho que o aeroporto será a redenção de Bauru. Tive a felicidade de conhecer alguns aeroportos internacionais do mundo, e quando dizem que 18 quilômetros do centro da cidade é muito distante, eu dou risada e, às vezes, fico bravo. Confins está a mais de 40 quilômetros de Belo Horizonte e hoje é o aeroporto que mais cresce no País. Quando você inaugura uma loja, um estabelecimento, há um tempo de maturação. No dia da primeira descida da Air Minas, um secretário municipal me disse: ‘Purini, até aqui você era um visionário, mas hoje temos de considerá-lo como um homem de visão”. Foram praticamente 20 anos de luta. E que luta, de briga pelo novo aeroporto, se a gente contasse todos os detalhes, Bauru não acreditaria.
JC - E a discussão que se trava até hoje da vocação do aeroporto? Ele deve ser de cargas, de passageiros, misto? Ou nem temos de discutir isso?
Purini - Não tem de se discutir isso. O importante é que a obra está aí. Quando inauguraram Cumbica, e isso faz pouco mais de 20 anos, apedrejaram Cumbica porque era muito distante. Cumbica já se ampliou mais de uma vez e construíram nova pista e Viracopos da mesma forma já foi ampliado. É para transportar riqueza, não importa que seja riqueza em forma de gente ou de carga.
JC - O senhor concorda que a cidade precisa de lideranças políticas mais fortes e efetivas?
Purini - Precisa e poderia tê-las já, mas a área política ficou muito desgastada. Eu disputei a prefeitura com o Sbeghen em 76 e a coisa era romântica. Você ia aos palanques e o povo ia lhe ouvir, lhe aplaudir. Meu último comício na Nações Unidas eu não conseguia falar, o povo aplaudia, gritava o nome. Acho que muitos talvez até tivessem vontade e temos gente altamente gabaritada para ser administrador dessa cidade, que é uma cidade diferente dos anos 70, dos anos 80. Acho que poderíamos ter muitas lideranças se a política de hoje tivesse os atrativos que teve num passado não muito distante.
JC - Quais atrativos?
Purini - O atrativo de você estar na política para realizar e todos somando no mesmo sentido. Eu costumo dizer - e com muita tristeza - que, em Bauru, quando um quer fazer, tem três para não deixar fazer. Não é assim. Eu acho que política se faz com soma, nunca com divisão e muito menos subtração. Alcides Franciscato é uma prova disso. Quando ele foi prefeito eu talvez fosse, apesar de homem de oposição, o maior dos colaboradores da administração. Hoje, há outros interesses. A questão do aeroporto, se eu citasse nomes aqui de gente que trabalhou contra, Bauru não acreditaria. Mas houve muita gente, gente de peso, que trabalhou contra. O próprio Mário Covas, quando fui lhe pedir R$789 mil, disse: ‘Mas é só isso, Purini?’ E respondi: ‘Só isso, governador’. ‘Não chega a R$ 1 milhão’, perguntou Covas. E falei: ‘Não chega’. E ele determinou: ‘Robson (assessor dele na época), providencie isso!’ Depois, ele completou: ‘Mas tem alguém que é contra esse aeroporto, não é?’, disse o Mário Covas para mim. Eu falei: ‘Tem muita gente governador’. Depois fiquei sabendo de outros nomes também que devem ser esses que foram até o Covas para não deixar construir o aeroporto. Infelizmente.
JC - Seria um exagero afirmar que o senhor está desencantado com a política da forma que ela é feita hoje?
Purini - Já no meu terceiro para o quarto mandato me senti envergonhado em dizer que era deputado. Porque se generaliza. Em toda parte existem os bons e os maus, os péssimos e os excelentes. E fiz do meu mandato um sacerdócio. Palavra de honra. Eu me considero, ou me considerei durante os meus 20 anos de mandato de deputado e oito de vereador, como um servidor público. Fiquei 20 anos fora de casa e digo que o mandato é coisa sagrada. Quando me elegi deputado, comecei a sofrer de insônia porque era o único representante da região. Ganhei um câncer de próstata e fiz uma prostatectomia radical. Taí o Pedro Tobias, que não teve esse AVC à toa, não. A pressão é muito grande. Eu sei porque o Pedro teve esse AVC e temos orado e torcido para que ele se recupere. Ele tem sido um paladino, um defensor das coisas de Bauru e faz isso com muita proficiência e amor. E política tem de se fazer com amor e responsabilidade.
JC - O que o senhor achou da renúncia do Caio Coube da presidência do PSDB?
Purini - O Caio tem razão, sim. Mas acho que ele seria prefeito agora se quisesse. Creio que não teria adversário para ele, muito embora o PSDB tenha outros nomes, como é o caso do Marcelo Borges e do Toninho Garmes. Eu acho que ele seria imbatível. Ele teve uma votação belíssima para prefeito e tem condições financeiras, pois sem dinheiro...