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Vícios dão satisfação ao cérebro

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Quando falamos em vício, logo vem à mente a dependência de drogas, tabaco e álcool. Mas na verdade, essa é apenas a ponta do iceberg. Sem que nos darmos conta, vivemos cercados de “viciados”. São indivíduos que têm compulsão por alguma coisa. Entretanto, muitas vezes, esse descontrole passa despercebido não só para quem convive com a pessoa mas para ela própria.

Em muitos casos, não percebemos que estamos comendo demais, que estamos exagerando no café, não conseguimos ficar um dia sequer sem checar o Orkut ou a caixa de e-mails, que gastamos horas demasiadas com os games ou dentro de uma academia de ginástica. Há também os viciados em trabalho, em compras e até mesmo em sexo.

Se formos analisar bem, todo mundo é viciado em alguma coisa. Atividades tidas como normais e rotineiras acabam por dominar nossa vontade e nos deixam reféns de um desejo insaciável.

Especialistas evitam a palavra “vício” por causa da conotação negativa que ela carrega. Eles preferem o termo “dependência”, quando se trata de drogas, e “compulsão”, para designar ações feitas repetidamente em um curto espaço de tempo, como fazer compras, praticar sexo, malhar em uma academia ou comer.

O problema não está em fazer exercícios, ir ao shopping ou ter relações sexuais, mas em viver quase exclusivamente para isso. “Quando algo começa a dominar o pensamento de uma pessoa mais tempo do que seria normal, é um indicativo de que está na hora de procurar ajuda”, orienta a psiquiatra Elaine Lúcia Dias de Oliveira.

De acordo com definição da psicóloga Marcela Vendramini Morato Velosa, o vício é tudo aquilo que se torna repetitivo a ponto de prejudicar a vida da pessoa. “Em vez de fazer aquilo que gosta apenas de vez em quando e por um período de tempo pequeno, o dependente ou compulsivo quer fazer o dia inteiro. Para isso, deixa de fazer outras coisas importantes. É uma busca que foge ao equilíbrio”, diz a psicóloga.

Os mecanismos cerebrais que determinam a dependência química e as compulsões comportamentais são bastante parecidas. Em ambos os casos, a pessoa não consegue mais viver sem o cigarro, o álcool ou qualquer outra droga nem ficar sem repetir uma ação ou um comportamento que lhe dá prazer.

Embora atuem na mesma região do cérebro, a dependência química e a comportamental se expressam de maneira diferente. Enquanto uma categoria procura satisfazer a necessidade do organismo por uma determinada substância química, a outra é manifestada por meio de impulsos.

No entanto, ambas têm a mesma função. Satisfazer nossa sede de prazer. “O tempo inteiro temos desejos, mas nem todos podem ser satisfeitos. Precisamos de um equilíbrio. Os compulsivos têm dificuldade para encontrar esse equilíbrio”, diz a psiquiatra Elaine.

O número de viciados, seja em drogas ou em comportamentos, vem aumentando desde o fim dos anos 70. Para a psicóloga Marcela, esse crescimento é um reflexo dos valores cultuados pela sociedade dita moderna. “A sociedade tem valorizado muito o ter e isso leva algumas pessoas a consumir demais”, afirma.

O culto ao corpo perfeito também dá uma generosa contribuição para que o comportamento das pessoas, de uma forma geral, fique ainda mais propenso aos vícios. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostra que metade dos freqüentadores de academia pode virar dependente.

Isso porque exercícios de alta intensidade liberam endorfina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer. Mas malhar em excesso pode provocar uma série de problemas para o organismo, como o desgaste das articulações e a fadiga dos músculos. Os que exageram na atividade física costumam ter pressão arterial mais alta, o que representa um sério risco para cardíacos.

De acordo com o professor Cassiano Merussi Neiva, doutor em biologia molecular, a prática de exercícios não deve ultrapassar 1 hora e meia. O ideal é que fique entre 40 e 50 minutos em ritmo acelerado. Pelo menos um dia deve ser reservado para descanso absoluto. Segundo o professor da Faculdade de Ciências, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, o exagero pode debilitar o sistema imunológico e deixar o organismo sujeito a infecções e doenças.

Para a psiquiatra Elaine, pessoas com inclinação ao vício, seja ele qual for, não conseguem lidar muito bem com a frustração. À medida que essa pessoa sente angústia, ela busca um jeito de superar isso rapidamente por meio de alguma coisa que lhe dê prazer. Pode ser o cigarro, a bebida, as drogas ilícitas, um passeio ao shopping, o ataque à geladeira, um remédio ou por meio de diversões proporcionadas pela Internet ou algum jogo eletrônico.

Segundo ela, a partir do momento que esses vícios começam a interferir na vida cotidiana do indivíduo é hora de rever os costumes. “É preciso diversificar o foco das atenções e começar a se interessar por outras coisas”, recomenda a psiquiatra.

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