Quando tinha 17 anos de idade, Ivy Wiens tomou uma decisão que marcaria para sempre sua vida: renunciou ao mercado para poder se dedicar exclusivamente a trabalhos comunitários. Ela estava no primeiro ano do curso de relações públicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e tinha uma carreira promissora pela frente. Desde então, ela vem nadando contra a corrente. Numa época extremamente individualista, ela usa todo o tempo de que dispõe para ajudar as outras pessoas.
A decisão custou caro para Ivy. Ela dorme tarde, acorda cedo e quase nunca tem tempo para se divertir. Passa tardes de sábado escrevendo artigos científicos ou preparando palestras sobre meio ambiente, quando poderia muito bem estar no shopping passeando com as amigas. Também pudera: aos 28, ela milita em quase uma dezena de entidades.
É membro do Fórum PróBatalha desde 2000; secretária-executiva do Instituto Ambiental Vidágua desde março deste ano, e é secretária do Conselho Municipal do Meio Ambiente. Participou ativamente da elaboração do Plano Diretor de Bauru e ainda ajudou a organizar a Conferência sobre Políticas Públicas para as Mulheres.
Essa militância intensa não impede que ela desfrute de alguns momentos, por assim dizer, mais lúdicos. Fanática por futebol, Ivy tem o hábito de acompanhar os jogos do Noroeste no estádio Alfredo de Castilho, se bem que o trabalho comunitário aparenta ser a principal fonte de alegria e lazer da jovem. “Isso para mim é uma opção e sou muito feliz vivendo dessa forma”, costuma dizer.
Idealista, Ivy suporta um sem-número de privações materiais no dia-a-dia devido ao modo de vida que escolheu, e mesmo assim não reclama. “O importante é poder seguir meus objetivos”, diz.
Responsável pela coordenação dos trabalhos do Instituto Vidágua, Ivy reclama da falta de consciência dos bauruenses com relação à preservação ambiental. “As pessoas têm o costume de fugir da responsabilidade. Elas reclamam, por exemplo, da falta de arborização da cidade, mas não querem saber de plantar uma árvore na frente de casa, pois acham que isso é muito trabalhoso”, afirma.
Se fosse levar em conta a falta de consciência da população, Ivy certamente já teria desistido de sua militância, mas ela é otimista. “Se não fosse, não estaria no Vidágua”, diz. Solidária, ela se tornou ambientalista meio por acaso.
Numa tarde de quinta-feira, em 2000, Ivy foi até o Fórum Pró-Batalha pedir assessoria para um projeto de revitalização do bosque do Núcleo Edson Francisco da Silva (zona oeste da cidade). Na época, ela trabalhava como voluntária na associação de moradores do bairro. Enquanto conversava com David Geraldo Pompei, engenheiro agrônomo da entidade, percebeu que ele estava extremamente atarefado e não conseguia dar conta de tanto trabalho.
Ela poderia ter feito o que a maioria das pessoas faria, ou seja, ter ido embora ao término da reunião, sem oferecer ajuda. Mas Ivy é uma garota diferente. Naquele momento, ela sentiu o idealismo falar mais alto e não teve dúvidas. “Perguntei se ele estava precisando de uma voluntária e ele respondeu que sim. Na segunda-feira, eu já estava trabalhando no Fórum”, recorda.
Natural de Itu, ela desenvolve, atualmente, projeto de mestrado em engenharia de produção pela Unesp de Bauru. Na última sexta-feira, ela deixou suas obrigações de lado para receber a reportagem do Jornal da Cidade. Ela falou sobre família, educação, meio ambiente e até se arriscou a opinar sobre o futuro do Noroeste. Ela garante estar confiante no trabalho do ex-jogador Pintado à frente da equipe alvirrubra. Acompanhe a entrevista a seguir.
Jornal da Cidade - Seu sobrenome, Wiens, é difícil de ser escrito e mesmo pronunciado. Qual a sua origem?
Ivy Wiens - Meu nome é de origem alemã e, realmente, as pessoas costumam errar bastante quando escrevem. Aliás, quase nunca acertam (risos). Meu pai é natural de uma cidade chamada Tiegenhoff, que atualmente pertence à Polônia. Ele veio para o Brasil em 1976 para trabalhar numa fábrica em Salto (região de Sorocaba). Foi lá que ele conheceu a minha mãe. O curioso é que o namoro dos dois durou pouco tempo. Com apenas três meses os dois já estavam casados.
JC - E você nasceu logo em seguida?
Ivy - Na verdade, isso aconteceu dois anos depois, em Itu. Vivi lá até os 3 anos de idade e depois minha família se mudou para Campinas. Saí de lá, então, aos 17 anos de idade, para estudar relações públicas na Unesp de Bauru.
JC - Essa foi sua última mudança?
Ivy - Quando tinha 19 anos, passei quase um ano viajando pela Europa. Conheci 11 países, mas gostei mais da Espanha. Tanto que fiquei morando em Barcelona durante quase sete meses.
JC - Foi nessa viagem que você resolveu mudar radicalmente de vida e se dedicar aos trabalhos comunitários?
Ivy - Não, isso era algo que eu carregava comigo há bastante tempo. Nunca quis trabalhar em empresas - e, de fato, nunca trabalhei. Quando entrei para a faculdade, em 1996, queria ser diplomata. Depois, comecei a me engajar nas associações de moradores como voluntária e não parei mais.
JC - De onde então surgiu esse seu gosto pelo trabalho comunitário?
Ivy - Creio que foi com a minha mãe. Apesar de ser católica praticante, ela colaborava ativamente com os projetos assistenciais do Centro Espírita em Campinas. Eu costumava acompanhá-la nesses trabalhos e acabei tomando gosto pela coisa.
JC - Nos últimos tempos você se destacou atuando como ambientalista em Bauru. Você já havia militado nessa área antes?
Ivy - Não. Para falar a verdade, essa consciência ambiental já era algo que eu trazia de minha formação familiar. Em geral, os alemães costumam ser muito cuidadosos com essa questão. Em minha casa, por exemplo, tínhamos o hábito de separar o lixo orgânico para utilizá-lo como adubo numa horta que meu pai mantinha no quintal.
JC - E quando você passou a militar de fato pela causa ambiental?
Ivy - Foi em 2000, quando eu trabalhava como voluntária no Bauru 16 (Núcleo Habitacional Edson Francisco da Silva). A associação de moradores do bairro tinha uma projeto para revitalização de um bosque que existe lá. Resolvemos pedir assessoria para o Fórum Pró-Batalha. Quando cheguei para conversar com o David Geraldo Pompei (que é o engenheiro agrônomo da entidade), percebi que ele estava extremamente atarefado. Era gente que entrava e saía a todo instante e o telefone que não parava de tocar um minuto sequer. Vi que era muita coisa para uma pessoa só e resolvi perguntar se ele estava precisando de uma voluntária e ele respondeu que sim. Na segunda-feira, então, comecei a trabalhar no Fórum.
JC - E como você entrou para o Vidágua?
Ivy - Foi enquanto trabalhava no Pró-Batalha. Naquela época, as duas entidades funcionavam na mesma sede. Conheci o pessoal do Vidágua e comecei a militar com eles também.
JC - Então você saiu do Pró-Batalha para se dedicar ao Vidágua...
Ivy - Sou membro do Fórum até hoje. Atualmente, me dedico mais ao Vidágua, pois sou secretária-executiva da entidade, mas participo de diversas outras organizações: sou secretária do Conselho Municipal do Meio Ambiente, participei de várias reuniões do Plano Diretor de Bauru e ajudei organizar a Conferência sobre Políticas Públicas para as Mulheres.
JC - Focando mais na sua atuação à frente do Vidágua, como você avalia o trabalho desenvolvido até agora pela entidade?
Ivy - Bem, nossa Organização Não-Governamental existe desde 1994 e tem um objetivo meio utópico, que é o de promover o equilíbrio da ‘sociobiodiversidade’. E isso é complicado, pois engloba praticamente todos os aspectos da vida humana.
JC - Na sua opinião, o Vidágua está sendo bem sucedido em promover esse equilíbrio?
Ivy - De certa maneira, sim. Hoje a ONG se tornou uma referência para a população na questão ambiental. Empresas nos procuram para desenvolver projetos, escolas nos procuram para palestras. Acredito que nosso papel é o de promover a multiplicação das ações de preservação.
JC - Como assim?
Ivy - O ideal seria que cada pessoa passasse a agir como responsável pelo meio ambiente. Seria um ponto em que entidades como o Vidágua não tivessem mais motivos para existirem, pois todo mundo estaria engajado, por livre e espontânea vontade, no trabalho de preservação.
JC - E você acha que isso irá acontecer em breve?
Ivy - Sou otimista - se não fosse, não estaria militando no Vidágua. Em todo caso, essa falta de consciência da população é a pior barreira com a qual nos deparamos atualmente. As pessoas pensam que não fazem parte do meio ambiente. Essa é uma forma antropocêntrica de se encarar a realidade. Pensamos que o homem existe de maneira separada dos elementos naturais.
JC - Em que essa mentalidade atrapalha o trabalho de preservação?
Ivy - Por exemplo, há alguns anos, tentamos reflorestar as margens de dois córregos de Bauru, o Barreirinho e o Água da Forquilha. Nos dois casos, os projetos fracassaram devido à ação humana. Cercas foram roubadas, vacas foram soltas no meio da vegetação e até mesmo as mudas foram furtadas.
JC - Você acha que algum dia as pessoas mudarão a forma de lidar com o meio ambiente?
Ivy - Acho que sim. Tudo depende de um trabalho de educação ambiental que ajude a despertar essa consciência nas pessoas.
JC - Você disse que aprendeu com sua mãe a gostar dos trabalhos comunitários. Ela deve ter muito orgulho de você hoje em dia...
Ivy - Na verdade, se dependesse dela, eu estaria no mercado. Ela não gosta muito do modo de vida instável que eu levo. Em todo caso, ela está se acostumando, aos poucos.
JC - E você, já se acostumou?
Ivy - Sim, pois esse é um projeto de vida meu. Hoje, não tenho nada em meu nome, nem carro, nem casa. Sou solteira, moro sozinha, e a única coisa que possuo, de fato, é a minha idoneidade.
JC - Quando você se diverte?
Ivy - Saio, de vez em quando, com meus amigos e também gosto muito de futebol - tanto de assistir quanto jogar. Ano passado, fui muito aos jogos do Noroeste no Alfredo de Castilho.
JC - O que você achou da campanha do time neste Paulistão?
Ivy - No começo estava boa, depois deu uma caída. Acho que havia muita pressão sobre os jogadores. Eles estavam sendo visados por outros clubes e isso confundiu a cabeça deles. Agora, com o Pintado no comando do time, acredito que as coisas possam melhorar. Afinal, ele jogou com Telê Santana - na minha opinião o melhor técnico de futebol de todos os tempos. Como ele, o Norusca vai entrar de novo nos eixos.
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Perfil
Nome completo: Ivy Wiens
Local de nascimento: Itu (SP)
Idade: 28 anos
Filhos: Não tem
Hobby: Assistir e jogar futebol
Filme preferido: “Surplus”, documentário sueco, de temática ambientalista, dirigido por Erik Gandini
Times do coração: São Paulo e Noroeste
Para quem daria nota 10: Para o povo brasileiro, por sua persistência.
Para quem daria nota zero: Para os individualistas