Tribuna do Leitor

Muden Tõtus


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Dias atrás ouvi a seguinte frase de um professor doutor de uma grande universidade: - O Professor que ainda permanece lecionando nas escolas estaduais de ensino básico ou é incompetente ou teve preguiça de estudar um pouco e assim poder trabalhar em outro lugar!

A educação provoca estes contrastes nas manifestações: para uns a educação é a única salvação, enquanto que para outros ela ( ou a falta dela) é a causa dos problemas sociais. Infelizmente muito se tem dito contra a educação básica, palavras vindas de pessoas de notada inteligência mas que não usam os olhos para verem, pois a compreensão suscita comprometimento.

A Rede Estadual de Ensino conta então com cerca de 200 mil professores incompetentes e/ou preguiçosos e eu, como professor que sou, desde 1993 na Rede Estadual, rebato veementemente tal afirmativa, carregada que é de sentimento excludente, o qual reforça a separação de classes. É um tiro no próprio pé, pois são esses alunos da escola pública que serão o alvo das escolas particulares e públicas de ensino superior. As escolas particulares (salvo exceções) que atendem o ensino básico não têm oferecido um ensino muito melhor do que o que a escola pública oferece; vide resultado do ENEM do ano passado. E os alunos, se não forem bem preparados, se não manter-se acesa a chama, a vontade pelo “conhecer a si mesmo e aos outros”, acredito que muitos cursos superiores fecharam a suas portas, pois a semente do desejo é plantada nos primeiros anos de estudos.

Os críticos do ensino público tendem a analisar as conseqüências, esquecendo-se que para todo efeito há uma causa: estrutura física inadequada, número de alunos por sala de aula além do recomendado; carga de trabalho excessiva pois muitos professores lecionam em mais de uma escola e exercem mais de uma jornada de trabalho (leiam O Horror Econômico - Forrester. Viviane).

Toda esta fala soa a redundância. Mas, esquecem-se eles de que há outras pressões mais contundentes e eficazes que, de maneira menos perceptível, flagelam esta sociedade que é atendida nas escolas públicas. O condicionamento popular iniciou-se em 68 com acordo Mec–Usaid. Através deste acordo iniciou-se o processo segmentação da educação brasileira na tentativa de minimizar a influência dos mestres sobre seus alunos, pois as universidades eram o foco do movimento estudantil revolucionário; era o centro do pensamento popular contra um regime opressivo. O governo começou a trocar as armas pela manipulação dos desejos.

- Se poder é a habilidade de levar os outros a fazer aquilo que você quer, há três maneiras de conseguir isso. Uma é ameaçar ou coagir as pessoas. Outra é conduzi-las por meio de pagamentos. A terceira é atrair as pessoas, fazendo com que elas queiram aquilo que você quer. Esta última é o poder brando...(ex-presidente do Conselho Nacional de Inteligência dos EUA)

O discurso quando carregado de autoritarismo demonstra apenas a incapacidade de compreender ou mesmo aceitar as diferenças. Não se pode taxar alguém de diferente ou de incompetente sem antes conhecê-lo em suas particularidades: qualidades e dificuldades..O medo tem servido, ao longo da história, como uma estratégia de dominação das elites, que assim conseguem manter a rígida hierarquia social que afasta pobres e ricos, brancos e negros e impede transformações. Vivemos um novo tipo de escravidão. Cidadão é aquele que consome. Quem não tem emprego, não tem capacidade de consumir, é criminalizado. E toda estratégia de sobrevivência da pobreza vira o mal. “Não pergunte o que a escola pública pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pela escola pública!”

Professor José Reginaldo Furtado

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