A doutrina espírita completa 150 anos de história hoje. Apesar de ter se disseminado entre a classe média, a filosofia ainda é compartilhada por poucas pessoas. Com o passar do tempo, começa a se popularizar. No entanto, encontra como barreiras o preconceito e a dificuldade de entendimento das suas ideologias.
Moradora do Parque Jaraguá, Aline Bella dos Santos, 25 anos, é a única espírita da família, que também tem evangélicos, como seu marido e irmãos, e católicos, como sua mãe. Em contato com a doutrina há seis anos, ela hoje se considera espírita, mas acredita que ainda existem resistência e falta de informação por parte de algumas pessoas.
“Aqui na vila onde moro, às vezes comento sobre minha opção e sinto que as pessoas não entendem, fazem idéia errada a respeito da filosofia”, conta a mulher, que freqüenta semanalmente encontros e palestras e é monitora de um projeto social espírita no bairro.
Aline confessa ainda não conhecer a fundo a doutrina, mas acredita que a complexidade não seria barreira para que a filosofia se disseminasse entre camadas mais populares. “O espiritismo requer um nível de estudo elevado por parte do freqüentador para que as idéias sejam compreendidas. Mas se houver interesse, não existirá tanto problema, porque as palestras têm linguagem acessível”, revela.
Richard Simonetti, presidente do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), considerado um dos expoentes sobre estudos espíritas, confirma a disseminação entre camadas culturalmente mais elevadas. “Um levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstra que o espírita geralmente é de classe média. Isso por uma razão: embora seja simples no enunciado, a doutrina exige certa base cultural para que a pessoa possa entender o que ela realmente é e seus objetivos.”
Além de abrigar a maior comunidade de católicos do mundo, o Brasil é também o líder no ranking de espíritas, segundo Simonetti. “Estimativas do IBGE apontam a existência de cerca de 3 milhões de brasileiros que têm o espiritismo como religião. Grosso modo, calculo que existam cerca de 10 mil praticantes em Bauru” afirma.
O estudioso atenta para a existência de espíritas “conceituais”. “Se levarmos em consideração também aqueles que aceitam os princípios da doutrina, como a reencarnação, esse número atingiria metade da população do País”, afirma Simonetti.
“A reencarnação é algo eminentemente existente na doutrina espírita mas que é amplamente aceito pela população. Tanto é que novelas fazem grande sucesso quando tocam nesse tema, de interesse popular”, completa.
Tríplice aspecto
Para Simonetti, o espiritismo tem três lados: filosófico, científico e religioso. “É uma filosofia de vida que esclarece a respeito da problemática da existência mas tem bases na ciência e conseqüências religiosas”, explica.
A parte da ciência comprovaria, através de trabalhos de pesquisa, os princípios espíritas. Por outro lado, como fala em Deus, conseqüências das ações humanas e comunicabilidade entre os espíritos, poderia ser encarado como religião. Como discute a ação do homem como responsável pela maioria dos problemas do mundo, também possui seu lado filosófico.
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Abertura
O espiritismo não possui dogmas e assuntos não passíveis de discussão, segundo Simonetti. “Ele diverge das religiões ortodoxas tradicionais porque não é dogmático e institucional. Pelo contrário, é aberto à discussão das opiniões e não existe imposição”, afirma.
Posições católicas constantemente questionadas são discutidas pelo espiritismo. “Há coisas atuais envolvendo sexo, por exemplo, que não são temas falados por Kardec, mas que hoje são discutidos para formarmos nossa opinião”, diz.