Na véspera do Dia do Índio, comemorado hoje, cerca de 20 crianças da aldeia indígena de Araribá conheceram ontem, no Zoológico Municipal de Bauru, animais caçados por suas gerações anteriores. Antas e veados são exemplos. Pela primeira vez, viram ainda uma ema. O animal até batizou um ritual que os guerreiros terenas praticavam antes de ir ao combate, também chamado de bate-pau.
Mas apesar de treinarem cada movimento da dança da ema e de ontem apresentá-la para mais de mil crianças de escolas particulares que vieram conhecê-los, na aldeia os indiozinhos também só convivem com animais domésticos. “Mas eu vi uma cobra”, adverte Ezequiel Dias Maria, 8 anos, ao entrar no zoológico. A realidade dele denota as dificuldades atualmente enfrentadas pelos índios de Araribá.
“Não temos como caçar e pescar e a terra nem sempre é boa para o plantio. Temos de sair para comprar. É difícil”, comenta o assessor indígena Benedito Maria. Ele conta que os projetos do governo federal não conseguem atender as necessidades das 140 famílias da terra indígena. Para reverter a situação, ele aposta no intercâmbio entre índios e brancos.
“Ajuda a mostrar a nossa realidade. Ainda não somos tão respeitados quanto deveríamos”, acrescenta, ao referir-se aos mitos que ainda sobrevivem. “Não andamos mais sem roupas”, ressalta. As alunas Ana Carla Manzano e Bruna de Agostini, que cursam a 6ª série de um colégio particular, também descobriram que os índios não vivem mais em ocas, como contavam os livros.
Para estreitar laços, a coordenadora da escola onde ambas estudam, Sandra Yoshiura, propôs um novo intercâmbio entre as duas culturas, a ser agendado em breve. “Quanto mais informações temos, maior a valorização e a conscientização pela busca de direitos”, explica.
Com trabalhos semelhantes, é possível que um dia desapareçam conceitos como o de que índio não gosta de trabalhar e é beberrão, comenta a índia Claudete de Camilo Lipu. Ontem, ela vendia ornamentos e cerâmicas no evento realizado no zôo. Em qualquer circunstância, a comunidade de Araribá continua preservando suas tradições.
Ontem também apresentaram para mais de mil alunos de 24 escolas particulares a dança da chuva, da qual só as mulheres participam. “Essas apresentações e trocas (de informação) são o nosso objetivo”, conclui Ricardo Barbosa, coordenador do evento do qual participaram cerca de 50 índios.