Tenho lido, ou melhor, saboreado as narrativas do caro amigo Rui Bertoti na coluna Politicando, constatando que ele se revelou um grande antologista da política e dos costumes. Verifico que são recorrentes as histórias de eleitores pedindo “benefícios” pessoais aos candidatos, que o Rui relata com a discrição e isenção que lhe são peculiares. Lembro-me de uma que ele ainda não contou, lá vai: O candidato aborda um caipira no dia da eleição e pergunta se já votou, e ele responde “Num vô vota não. Num tenho corage de entrá na iscola cum essa ropa rasgada e discarço”. O político imediatamente leva o caipira a uma loja, compra roupa e botinas novas e o encaminha ao local de votação com o “santinho” na mão dizendo: “Agora vai lá e vota em mim, certo?” – “Sim sinhô” foi a resposta. Algum tempo depois os dois se reencontram e o político pergunta “E aí? Votou em mim?”, ao que o caipira responde: “Num votei não sinhô. Eles dissero que eu percisava levá um tar de Tito e eu num cunheço esse cara”. Obviamente o “tar de Tito” era o título de eleitor que ele não tinha, mas sua estratégia lhe valeu roupa e botina novas.
Há alguns anos, a Rede Globo exibiu um programa da série “Você Decide” em que uma situação era colocada e dois finais eram oferecidos para votação pelos telespectadores através de um 0800. Nesse programa, a família de um ex-guerrilheiro do Araguaia que havia sido dado como morto recebe a comunicação de que receberia uma indenização muito alta do governo pela morte do pai. Acontece que ele não tinha morrido, havia, sim, trocado de identidade (como fez um certo ex-ministro) e atualmente era motorista de um táxi velho, morando em um apartamento minúsculo. Para a família o dinheiro que poderia receber significaria a continuidade dos estudos dos filhos, a mudança para um apartamento maior e até a troca do táxi. O ex-guerrilheiro entretanto se recusava a deixar a família receber o dinheiro indevido, pois continuava vivo e esse tipo de atitude era tudo que ele havia lutado contra. Feita a votação pelo 0800, cerca de 80% dos espectadores optaram pelo final em que a família receberia, sim, o dinheiro, e ética, a honestidade e a decência que se danassem.
Este episódio me parece emblemático do caráter predominante do povo brasileiro: levar vantagem sempre e pro inferno com a moralidade. Pode-se argumentar que isso decorre da observação dos maus hábitos dos políticos, mas cabe a dúvida do ovo e da galinha: o povo é desonesto por que os políticos o são, ou os políticos são uma amostra representativa de um povo intrinsecamente desonesto? Não é, portanto, surpresa nenhuma que os brasileiro tenham reeleito um grupo político deslavadamente desonesto como nunca se viu antes neste país (me perdoe o plágio, senhor presidente), e que continue fazendo-se de cego, surdo e mudo para a continuidade dos desmandos e incompetências. Afinal, dirão, “o importante é que esteja entrando dinheiro fácil no meu bolso, sem que eu tenha que trabalhar e viva o bolsa família, o bolsa escola, e quantos bolsas mais vierem”. Também não surpreende o fato de ter sido desbaratado um mega-esquema da máfia dos caça-níqueis, afinal eles estavam vendendo aquilo que o povo quer comprar: dinheiro fácil. Na falta disso também compra um lugarzinho no céu que certas igrejas vendem baratinho.
O caro leitor que, tenho certeza, estaria nos 20% que votaram a favor do ex-guerrilheiro, e certamente faz parte dos 20% que pagam impostos e sustentam o governo e suas bondades, por favor, me ajude a pensar em uma saída para esse quadro. Não vale dizer que é o aeroporto, que nessa já pensei, mas desisti porque está um caos.
O autor, Eric Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião - eric@mstecnologia.com.br