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Ridículo mas previsível


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Se não se tratasse de uma questão que envolve o setor energético, talvez não se devesse levar muito a sério a oposição que o presidente venezuelano Hugo Chávez e o ditador Fidel Castro estão fazendo ao desenvolvimento da produção de etanol no Brasil. Os dois publicaram artigos simplesmente ridículos dizendo que o aumento da produção do álcool vai provocar a fome no mundo. Como em matéria de energia nada é gratuito, eles encontraram algum eco na mídia mundial. Entende-se a posição de Chávez porque seu país tem reservas imensas de petróleo e é um dos maiores exportadores, deixando à sua disposição uma riqueza que ele vai dissipando como fosse de sua propriedade pessoal. Em tais condições não interessa o sucesso da produção de uma fonte alternativa de energia, não poluente e economicamente viável. O caso do outro é compreensível porque recebe os benefícios da dissipação da riqueza venezuelana e precisa disso para continuar vivendo.

Em que pese o despropósito daquela colocação, há brasileiros que se deixam enganar, às vezes por falta de esclarecimento sobre o que efetivamente representa a produção do etanol no conjunto da economia agrícola do país. O Brasil é autosuficiente na produção de alimentos e ainda tem disponibilidade de terras para ampliar essa produção numa escala muito importante, de forma que não existe o problema da competição entre a cultura dos canaviais e a produção de alimentos. Há um desenvolvimento muito forte tanto nas tecnologias dos alimentos quanto no setor sucro-alcooleiro, resultando em importantes aumentos de produtividade. Neste, o desenvolvimento se dá com a utilização de melhores variedades de cana, com os avanços tecnológicos na extração da energia contida na planta e também nos processos de comercialização. E ainda estão em marcha vários experimentos e pesquisas que dentro de mais algum tempo, com muita probabilidade, vão nos permitir fabricar álcool a partir da hidrólise da própria massa da cana.

Todos esses avanços na produção do álcool e do açúcar, na produção própria da energia elétrica e nos demais aproveitamentos que o processo permite, representam um acréscimo importante de renda no setor agrícola como um todo, sem prejuízo de outras áreas de produção rural. Não temos, portanto, de nos constranger por quaisquer tipos de oposição externa como a levantada pelos dois excitados timoneiros caribenhos.

Internamente sempre é bom renovar o alerta de que estamos ignorando a urgência da reconstrução de nossa matriz energética, negligenciando o aproveitamento do potencial hidrelétrico e incorrendo nos mesmos erros que resultaram no tremendo apagão energético de 2001, durante o segundo mandato de FHC. De lá para cá não cessou o processo de destruição de nossa matriz energética devido basicamente à desmontagem do setor estratégico de planejamento estatal, ao esgotamento da capacidade do investimento público e à inapetência do governo diante da necessidade de oferecer as devidas garantias ao setor privado e dividir com ele os riscos dos investimentos. Houve avanços recentemente, mas falta acelerar a realização dos leilões para que se dê início à construção das hidrelétricas no rio Madeira, em Rondônia, que são fundamentais para consolidar o processo de expansão da economia no extremo oeste brasileiro e do projeto de Belo Monte de modo a levar o progresso à abandonada região do Xingu ainda no primeiro quarto deste século!

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento - e-mail: contatodelfimnetto@uol.com.br

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