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Caligrafia sobrevive com tecnologia

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

A arte em letras. Assim poderíamos definir a caligrafia artística, aquela que encontramos nos convites de casamentos, nos títulos de cidadania, nos diplomas, entre outros papéis importantes. É uma palavra que deriva do grego: kalli significa beleza e grafia, a escrita. Então, caligrafia é a arte da bela escrita, da qualidade, do bom gosto.

Para o calígrafo Jorge Iossef Nadim, 73 anos, escrever é um hábito e escrever bonito é uma questão de capricho. “Eu não aceito que uma pessoa diga que não consegue melhorar a letra. Ela pode e deve fazer isso.” Mas se escrever é um hábito, ele foi se perdendo ao longo do tempo. Muita coisa mudou com a máquina de escrever e tornou a mudar ainda mais com a chegada do computador.

“Antes, as pessoas não se interessavam muito pela caligrafia. Agora, com o computador se interessam menos ainda”, afirma Nadim, um dos calígrafos, mais conceituados da região de Bauru. Segundo ele, escrever bonito sempre foi uma característica da família. Hoje, ele usa isso a seu favor para complementar a aposentadoria. “Com o dinheiro que eu ganho a mais por mês (com o trabalho de calígrafo) eu realizo meus desejos de consumo, como ter uma máquina fotográfica digital, uma televisão nova. Algo que não seria possível só com a aposentadoria”, revela Nadim.

Títulos

Em seu currículo, estão títulos de cidadania para políticos famosos como os ex-governadores paulistas Paulo Maluf, Jânio Quadros e Laudo Natel. Este último, como curiosidade, foi feito de forma improvisada. O ex-governador estava visitando Agudos e Nadim foi chamado às pressas para fazer o título de cidadania.

Ele lembra que, na ocasião, não tinha nenhuma caneta tinteiro de ponta grossa à mão para escrever o título. Ele não teve dúvidas. Foi até uma sorveteria, pegou um palito de sorvete, afinou a ponta até a medida que precisava e fez o documento.

O primeiro convite de casamento de Nadim foi feito para um casal de Pirajuí. Eles procuraram uma gráfica de Bauru e os funcionários sugeriram que procurassem Nadim. O calígrafo aceitou o trabalho. Começava aí uma carreira promissora nesse ramo. Hoje, Nadim escreve em média 600 envelopes de casamentos por mês.

Segundo ele, a demanda maior ocorre no fim do ano, quando os casais aproveitam o pagamento do 13.º salário para casar. Nos meses que antecedem maio (o mês das noivas), a procura ainda continua grande, mas perdeu a liderança para o fim do ano.

Nadim conta que chegou a escrever 2 mil envelopes em um mês. Para isso, conta com a ajuda da esposa, Irene, que deixa os envelopes prontos para ele escrever, e de alguns meninos que, aos poucos, vão aprendendo a arte da escrita. Nadim já foi professor de caligrafia.

Hoje, não tem mais tempo para isso. Ele trabalha, em média, oito horas por dia preenchendo envelopes e títulos de cidadania. O tempo que sobra, ele aproveita para sair com a esposa, jogar uma partida de truco, nadar na piscina de casa, fazer ginástica ou assistir futebol pela TV. Alías, Nadim não perde uma partida. Depois da caligrafia, o futebol é sua grande paixão.

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