Geral

Entrevista da semana: Julinho faz frear a máquina do tempo

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 11 min

Bauruense, nascido há 48 anos, Júlio Rodrigues Horta Filho é médico com especialização em geriatria e reumatologia. Julinho para os amigos, Horta é estudioso da medicina preventiva há mais de 15 anos e é um dos profissionais da saúde mais requisitados da cidade. Em entrevista ao JC, o médico que ajuda as pessoas a ter qualidade de vida e se “manterem jovens” fala sobre sua vida, visão de mundo e, claro, sobre medicina.

Júlio Horta foi um dos pioneiros da geriatria no Brasil e em Bauru. Desde meados dos anos 80 clinicando na área, Horta é procurado por pessoas de todo o Estado em busca de uma velhice saudável. Além da geriatria, o interesse pela ciência e a paixão pela clínica médica o fizeram estudar a medicina ortomolecular, ou medicina preventiva, como prefere chamar. Com essa terapia menos ortodoxa, ajuda seus pacientes, jovens ou idosos, a conseguirem uma melhor qualidade de vida.

Muitos podem vê-lo como um médico com respostas para todos os males ou uma fórmula mágica para conseguir a juventude eterna, mas Horta garante: é impossível parar o tempo, mas a velocidade com que ele corre interessa e pode ser diminuída.

Jornal da Cidade - Como o senhor se interessou pela medicina?

Júlio Horta - Eu sou o primeiro médico da minha família, meu pai veio de Minas Gerais, na década de 40, para Bauru. Ele veio trabalhar no Banco do Brasil, os meus dois irmãos mais velhos trabalham na área jurídica, um é juiz e outro promotor. A escolha não foi assim: vou ser médico! Fazendo cursinho eu descobri que tinha uma queda para a área de biomédicas. Antes, eu havia feito intercâmbio nos Estados Unidos, foi uma experiência maravilhosa que expandiu a minha visão do mundo. Com 17 anos, fui morar com uma família americana na Califórnia. Voltei ao Brasil e, depois de meio ano, entrei na faculdade de medicina.

JC - Qual faculdade? E como foi a escolha pela geriatria?

Horta - Na PucCamp (Pontifícia Universidade Católica de Campinas). Era uma escola nova e foi uma boa escolha. Depois, quando eu estava no sexto ano, tinha que escolher uma especialidade e, normalmente, você sabe o que não quer. Eu não queria algo cirúrgico, mas gostava muito de clínica médica, então me inclinei a reumatologia, que estudei num segundo momento. A geriatria não existia nos currículos em 1983, quando me formei. Eram apenas dois serviços de geriatria no Brasil e ambos engatinhando, um em Campinas e outro no Sul. Quem acabou por me influenciar foi a Cláudia. Ela é esposa do meu irmão mais velho, o promotor Carlos Horta, que me criou, já que a minha mãe morreu muito cedo, eu tinha 6 anos. A Cláudia me falava sempre das pesquisas sobre geriatria... Na época, ninguém falava nas doenças da terceira idade como Alzheimer e Osteoporose. A geriatria era uma especialidade muito nova no Brasil, o país era extremamente jovem na década de 80, os idosos não chegava a 5% da população. Me recordo, quando voltei a Bauru e passei a ir aos hospitais para entregar meu currículo e me apresentar aos médicos, eu dizia para os colegas mais velhos que era geriatra e eles se assustavam. “Geriatria! O que é isso?”

JC - A procura pelo senhor é muito grande. Como é ter uma clientela tão fiel e agendas tão lotadas?

Horta - Existe muita pressão por consultas, mas a agenda é limitada e é preciso respeitar o tempo para atender as pessoas adequadamente. Eu me sinto enaltecido por ter pacientes tão fiéis e isso, eu acredito, vem quando você trabalha com amor. Também acho que a sinceridade cria essa cumplicidade, já que ser humilde em reconhecer que não pode tudo e passar isso ao paciente é fundamental. Acredito que essa fidelidade médico-paciente também não acontece do dia para noite, estou há 20 anos clinicando, é um processo gradativo. Boa parte dos meus pacientes eu consegui, e digo isso com muito orgulho, porque trabalhei mais de dez anos no ambulatório de especialidades do SUS (Serviço Único de Saúde), no antigo Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social). A gente atendia de 16 a 20 pacientes por dia, fazia geriatria e reumato e eu sinto muita saudade daquele tempo. Atendíamos pessoas muito carentes, foi um grande aprendizado, mas tive que escolher e saí do SUS. Era um bom emprego, mas não conseguia mais conciliar o trabalho no ambulatório e a minha clínica. Penso que se você começa a não se dedicar totalmente ao trabalho, é hora de dar lugar a outro que tenha mais condições de fazer bem aquele serviço.

JC - Como o senhor vê o atendimento público para idosos na área da saúde brasileira hoje?

Horta - Muito precário. A saúde pública como um todo é precária, mas o atendimento aos idosos é ainda pior. Essa população acima de 60 anos é a que mais vive a falta de condições em todas as áreas sociais, desde a previdência até o acesso difícil à saúde e outros serviços. Não há respeito, não há facilidades.

JC – O senhor tem medo de ficar velho?

Horta - Existe uma frase que ouço das pessoas: “A melhor idade”. Eu acho isso um pouco forçado, que a terceira idade é a melhor idade. É lógico que existem as compensações, você tem a experiência, mas, certamente, existem perdas insubstituíveis. Eu trocaria essa sentença “melhor idade” para “maturidade”. Eu, como a maior parte das pessoas, não quero envelhecer. E aí está um paradoxo da humanidade, ninguém quer envelhecer, mas ninguém quer morrer novo. Aí, o que tentamos é seguir esse caminho com qualidade.

JC - O que o senhor faz para envelhecer bem?

Horta - Eu procuro fazer tudo o que recomendo aos meus pacientes. Mesmo porque, seria demais se eu propagasse tanto o “envelhecer com qualidade de vida” e não fizesse. Procuro praticar atividade física regularmente, tenho uma alimentação controlada dentro do possível e evito os hábitos ditos suicidas como o tabagismo. Já que estamos falando do envelhecimento, vou contar uma história: eu joguei, bem, ainda jogo e agora tem uma moçada jogando com a gente. Um belo dia, um rapaz, que era mais ou menos novo no grupo, falou alguma coisa e me chamou de senhor. Eu falei: vem cá, nós vamos jogar basquete! Você me chamou de senhor porque eu sou velho ou porque eu sou médico? E ele: Eu não sabia que o senhor era médico (risos).

JC - E o basquete?

Horta - Joguei na Luso (Associação Luso Brasileira de Bauru), comecei com 12 anos na escolinha do saudoso Flávio de Angelis. Com 15, fui para a seleção paulista e chegamos a ser campeões brasileiros. Três anos depois, já na faculdade, joguei, mas nunca mais de maneira séria. Dos anos 90 para cá, um pessoal das várias gerações de atletas da Luso se reuniu para fazer um bate-bola semanal. Eu sou um dos mais velhos e é difícil encontrar gente para jogar. Nesse esporte não tem jeito, se você coloca dez na quadra e um ou dois não sabem jogar complica, não dá jogo. Nesse grupo atual, acima de 40 somos em três ou quatro, eu incluso, o resto é um pessoal mais novo entre 30 e 40 anos e agora uma moçada abaixo de 30.

JC - Além do basquete...

Horta - Eu jogo tênis, comecei a jogar na faculdade e é o esporte que eu acho que todo jovem deveria aprender, porque abre portas incríveis. Em qualquer lugar do mundo você acaba conhecendo pessoas interessantes, além de ser uma forma de inserção social. Eu pretendo jogar tênis por muito tempo, até 70, 80 anos. E essa é uma condição que outros esportes não permitem. Eu por exemplo, já sinto dificuldade de acompanhar o pessoal no basquete.

JC - Como é a sua família?

Horta - É maravilhosa. Tenho uma esposa, a Ana Helena, que é fonoaudióloga. Trabalha numa escola com ‘fono’ infantil e me ajuda na administração da clínica. Eu tenho três filhos lindos, dois meninos e uma menina. Nós demoramos um tempo para ter filhos , oito anos, e acho que isso leva você a tentar se manter em forma, para acompanhar o crescimento deles.

JC - O que o senhor gosta de fazer quando não está trabalhando?

Horta - Adoro ficar com a minha família, ver meus filhos crescendo e eles estão crescendo rapidamente, o que me assusta.

JC - Fale um pouco sobre a medicina ortomolecular.

Horta - A ortomolecular, na verdade não é uma medicina, é uma terapia complementar idealizada por Linus Pauling, bioquímico, nos anos 50. É uma teoria ligada aos radicais livres e estresse oxidativo, explicando o envelhecimento. É importante dizer que não é a única teoria que tenta explicar o como e porque envelhecemos, e ainda não existe um consenso. Acredita-se que esse estresse oxidativo, que aumenta com a idade, é prejudicial à célula. Teoricamente, se conseguirmos diminuir o estresse oxidativo, poderíamos retardar o envelhecimento. Eu acredito que seja possível, mas no meio do caminho, as idéias de Pauling foram deturpadas. Eu acho que essa terapia como complemento funciona, mas você nunca pode esquecer dos princípios básicos da medicina clássica: dar o diagnóstico, fazer o tratamento correto e aí sim, suplementar quando houver necessidade. Hoje, a gente vê absurdos em nome da ortomolecular, e por isso eu nem gosto desse nome, o certo seria terapia complementar. Exames que são feitos sem base científica como o HLB, o da gotinha do sangue, em que o médico, que se diz ortomolecular, fura o dedo do paciente e pinga cinco 5 gotinhas de sangue numa lâmina, coloca no microscópio e diz: você está com falta disso, daquilo e daquilo e te dá uma fórmula cheia de componentes. Um absurdo. Hoje, está na moda a dieta ortomolecular, ela não existe, mas sim algumas substâncias que aumentam a possibilidade de defesa contra os radicais livres, que são, potencialmente, anti-oxidantes como os existentes na uva e no chá verde.

JC - Muita gente o procura querendo uma fórmula milagrosa, por causa dessa venda da saúde eterna e do anti-envelhecimento?

Horta - Não existe salvação contra a velhice, insisto. Você pode estar bem, porque está fazendo dieta e exercícios, mas dizer que a pessoa não vai envelhecer é mentira. O que procuro passar ao paciente é: não existe milagre, rejuvenescer quer dizer voltar a ser jovem, isso é impossível. O melhor medicamento para viver bem é o “MEV”, mudança de estilo de vida. O sedentarismo é o pior dos males, você não precisa ser um tri-atleta, basta fazer com regularidade uma atividade física que lhe dê o mínimo de prazer. Eu também procuro aprofundar a investigação sobre o paciente e sobre a genética familiar. O que faço é todo o trabalho clássico da medicina e, só depois, entro com a complementação, se necessário. Eu sou favorável aos nutrientes, vitaminas, reposições hormonais mas dentro de um critério.

JC - Existe uma situação dentro da medicina que foi assustadora, mas que o fez crescer?

Horta - Várias, mas é muito bom ver que um paciente melhorou. Logo que eu cheguei em Bauru, um menino de 7 anos estava internado em estado muito grave e ninguém sabia direito o que ele tinha. Fui chamado para vê-lo e detectei um reumatismo extremamente sério, chamado Doença de Still. Foi um dos casos mais gratificantes, porque a melhora é muito drástica quando o medicamento certo é ministrado. Esse menino está com quase 30 anos e sempre que nos encontramos o pai faz festa. Em outros casos eu não fui tão bem sucedido assim, como acontece com todo médico.

JC - O senhor fala dos EUA com carinho. Como vê essa exaltação do estilo de vida americano e, também, essa imposição do país como o “vilão do mundo”?

Horta - Eu tive a chance de morar com uma família que é um pouco diferente do americano médio, em termos de cultura geral. Essa visão de que o americano só sabe sobre aquilo que acontece em torno de seu umbigo, não é bem assim. Essa família da Califórnia era afável e consciente do poderio americano e do problema que isso gera. Muitos americanos são anti-Bush e contra essa invasão americana. Mas é uma realidade que os EUA têm poder e que, se toda a população do mundo resolvesse consumir o que a classe média americana consome, seria preciso uns quatro planetas Terra. Eles são criados assim, um consumismo maluco, mas no meu caso, que saí em 1975 de Bauru, não tinha como não gostar. Eles são vorazes por riqueza e essa ingerência política é um absurdo, mas não dá para generalizar.

____________________

Perfil

Nome: Júlio Rodrigues Horta Filho

Nascimento: 1958

Livro: “O Poder do Mito” – Joseph Campbell e “Complicações” – Atul Gawande

Filme: “Blade Runner”, de Ridley Scott

Hobby: Jogar tênis quando a agenda permite, e basquete, enquanto o físico permitir

Nota 10: Para esse pessoal anônimo que faz voluntariado assistencialista, todos os dias

Nota zero: Para a banalização da violência

Comentários

Comentários