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Menos dinheiro e mais felicidade

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Cansadas da rotina de estresse e falta de tempo para si próprias, algumas pessoas decidiram rever a equação “mais dinheiro é igual a mais felicidade”. Elas chegaram à conclusão de que não adianta acumular tanta riqueza se não sobra tempo para usufruir do que ela pode trazer de bom. Diante disso, resolveram simplificar a rotina, rever o modo de encarar a vida, reorganizar a agenda e adotar hábitos saudáveis. De preferência, ao lado da família.

São os adeptos da simplicidade voluntária, um movimento que busca um novo estilo de vida e o resgate de valores há muito esquecidos. São pessoas que querem um retorno à vida simples, vivendo com menos, mas melhor. Foi o que fez, por exemplo, a terapeuta Ana Cristina Pereira, 48 anos, que mudou seu consultório do Centro da cidade para uma chácara. Com isso, perdeu alguns clientes mas ganhou qualidade de vida.

“Trabalhando aqui, sinto muito menos estresse. Com essa mudança, consegui tranqüilizar minha vida”, afirma ela, que também abriu mão do carro que tinha. Agora, quando precisa ir à cidade, pega carona com a filha ou com amigas. “Mas se for preciso ir de ônibus ou de mototaxi, não tem problema nenhum”, enfatiza. A decisão de não ter mais o carro tem motivação ecológica. “Assim, é possível poluir menos a natureza”, justifica ela.

O professor universitário Lafayette Pozzoli, 51 anos, não abandonou o carro, mas está usando-o bem menos agora. Faz cinco anos que ele mudou-se para Marília, vindo de São Paulo. Na Capital, o carro era usado para tudo. Aqui no Interior, ele não é tão necessário. Pozzoli não precisa mais do veículo para ir ao local de suas caminhadas, por exemplo. “Hoje, meus filhos vão à escola a pé. Em São Paulo, isso era impossível”, lembra ele.

De acordo com o professor, do ponto de vista econômico, a mudança não foi boa para a família, mas houve avanços consideráveis em outros aspectos. Pozzoli dava aulas em duas universidades e tinha um escritório de advocacia na avenida Paulista, no centro comercial de São Paulo. A esposa trabalhava em um cargo de chefia na prefeitura da Capital e ainda dava aulas na Universidade de Campinas (Unicamp).

“São Paulo oferece muitas opções de lazer, mas não dava tempo de usufruir de nada daquilo”, comenta ele. Pozzoli conta que tinha semanas que ele ficava três dias sem ver os filhos. “Eu chegava em casa, eles estavam dormindo.”

A vontade de mudar nasceu quando foram morar em uma cidadezinha na Toscana, região central da Itália. A família passou um ano lá. Foi tempo suficiente para criarem coragem de deixar a Capital e partir para o Interior do Estado. “Percebi que morando numa cidade menor eu tinha mais tempo para ficar com a minha família. Isso me fez repensar a idéia de me preocupar apenas com o futuro”, diz o professor, referindo-se ao propósito de acumular recursos que pudessem garantir a ele e à família um futuro financeiramente mais tranqüilo.

Ao mudar para Marília, a família teve de se contentar com uma renda 30% menor. Mesmo assim, a opção por uma vida mais simples em uma cidade do Interior trouxe ganhos para a saúde física e mental de todos, segundo Pozzoli.

Para a terapeuta Ana Cristina, de nada adianta passar a vida acumulando recursos se depois gasta-se tudo para recuperar a saúde. A opinião é a mesma de Roberto Simões, 61 anos, que também foi morar em uma chácara em busca de uma vida mais simples. Depois de anos e anos trabalhando como vendedor autônomo e morando na cidade, ele decidiu transferir o “escritório” para a chácara.

Os ganhos caíram pela metade, mas ele não se arrepende da decisão. “Minha saúde melhorou 200%. E isso não tem dinheiro que pague”, argumenta ele. “Se eu estivesse na cidade, com certeza, estaria ganhando o dobro. Mas de que adianta fazer fortuna se você não vive a vida”, justifica.

A correria da cidade deixava Simões estressado e isso refletia em casa, nas brigas com a esposa. A falta de tempo para a família o impediu de ver os filhos crescerem. “Por causa disso, agora não abro mão de ver meus netos crescerem.” A empolgação é tanta que Simões fez uma casa na árvore para seus cinco netos. O relacionamento com a esposa também melhorou. “Agora, tem mais diálogo”, diz. Diante de tudo isso, ele insiste na afirmação: “não tem dinheiro que pague isso.”

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