Maceió - A casa do sub-comandante do 3.º Batalhão da Polícia Militar (PM), em Arapiraca (a 122 km de Maceió, AL), major Reginaldo de Lima Barbosa, foi atingida por tiros de pistola semi-automática na noite de anteontem.
Segundo o comandante da unidade, tenente-coronel Jairo José Sales Eloy, há ligação entre o atentado e o protesto por melhores salários dos PMs de baixa patente do Estado, que se aquartelaram na quinta-feira. “Foi um recado para mim”, disse o comandante, responsável por determinar a prisão de 36 homens que se recusavam a sair do quartel anteontem. A ordem acabou sendo revogada com o recuo dos policiais.
Os tiros que atingiram a casa do sub-comandante foram disparados por pessoas não-identificadas que estavam em um carro preto, “possivelmente um Celta”, afirmou Eloy. Dos três tiros disparados, um atingiu a fachada da casa vizinha. Outros dois tiros acertaram o muro e o portão. Ninguém se feriu. “Atitudes como essa só agravam a situação”, afirmou o comandante. Segundo ele, uma investigação interna já está em curso para identificar os responsáveis. Eloy disse que não será intimidado pelo ato, mas reforçou a segurança pessoal.
O presidente da Associação de Cabos, Soldados e Bombeiros Militares de Alagoas, Wagner Simas, nega o envolvimento dos aquartelados no caso. “É uma tentativa de jogar a sociedade contra o movimento”, declarou. “Não praticamos esse tipo de terrorismo”, disse. Simas não identificou quem seria o autor da suposta “armação”. Ele confirmou que o aquartelamento seria suspenso na noite de anteontem e anunciou que a eventual retomada do protesto por tempo indeterminado não ocorrerá mais na próxima quarta-feira, como estava previsto. “Vamos negociar com o governo do Estado até quinta-feira e, no dia 30, faremos um ato público para decidir o que fazer.”
O protesto dos PMs alagoanos trouxe apreensão à população, mas não afetou o movimento nas ruas. Apesar da ausência do policiamento nos locais mais movimentados de Maceió, constatada pela reportagem, bares e restaurantes da orla funcionaram normalmente anteontem à noite e na madrugada de anteontem.
O Comando de Policiamento Militar (Copom) registrou apenas dez ocorrências atendidas pela corporação no dia 20. Normalmente, informaram policiais do setor, são atendidas em média 50 solicitações diárias. Quatro homicídios foram registrados no período. Cabos, soldados, sargentos, tenentes e capitães da PM alagoana reivindicam aumento salarial de 88,5%, divididos em quatro parcelas.
O governador do Estado, Teotônio Vilela Filho (PSDB), que ainda não fez uma contraproposta, disse estar aberto ao diálogo, mas que não irá negociar sob pressão.
Punição
O Comando da Polícia Militar (PM) de Alagoas irá se reunir amanhã para analisar se irá responsabilizar, nos moldes do Código Penal Militar, os cabos, soldados e oficiais de baixa patente (sargentos, tenentes e capitães) que participam do aquartelamento promovido desde a noite de quinta-feira.
Para o Comando, o aquartelamento terminou anteontem à tarde. Para a Associação de Cabos e Soldados da PM do Estado, porém, embora tenham sido obrigados a retornar às ruas, os PMs permaneceram de braços cruzados ontem. De acordo com o chefe da assessoria de comunicação da PM, coronel Ivon Tibúrcio, o PM que estiver nas ruas e, eventualmente, se omitir de “qualquer obrigação legal”, “corre o risco de cometer crime de omissão”. “Se ficar comprovado que houve um assalto ou um homicídio e um PM não tomou providências, ele deve ser responsabilizado.”
O episódio mais grave de repressão ao protesto dos PMs de Alagoas ocorreu em Arapiraca. Lá, os PMs só saíram às ruas depois que o comando da unidade ameaçou dar voz de prisão a 40 homens. O grupo saiu antes de ser preso. Em nota, o Comando da PM admitiu que houve resistência no 1.º, 4.º e 5.º batalhões.