Cultura

Sobre mundos: Um reino dos deuses

Por Padre Beto * | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Segundo uma antiga história egípcia, três monges se aproximaram de seu abade e narraram o que haviam feito naquele mês para seu crescimento espiritual. O primeiro disse com muito orgulho: “Neste mês, eu memorizei praticamente todo o Antigo e Novo Testamento!” O abade, então, respondeu: “Você preencheu o ar simplesmente com palavras!” O segundo monge contou que havia copiado por escrito toda a Bíblia. O abade o olhou com certa tristeza e respondeu: “Você encheu o universo com mais papéis!” O terceiro sorrindo disse: “Eu jejuei tanto, que minha horta está coberta pelo mato!” O abade balançou a cabeça e respondeu: “Você negligenciou a hospitalidade!”

Antes de se discutir a questão de Deus, a religião consiste em um caminho de encontro consigo mesmo. Etimologicamente, religião deriva de “re-ligar”, ou seja, deve ser o movimento que nos re-conecta à nossa essência, àquilo que realmente somos. O surgimento da verdadeira religião no ser humano começa no esforço de encontrar sua origem. Reencontrar minha essência significa procurar constatar o que estou sendo, aquilo que desejo ser ou para que fui chamado a viver. Essa tomada de consciência consiste na busca de um conhecimento da totalidade. Portanto, a religião é, antes de qualquer coisa, um caminho de autoconhecimento.

Se sou verdadeiramente religioso devo me conhecer interiormente, saber quem eu sou, minha personalidade, minhas capacidades, aptidões e limitações. Porém, pertence também ao movimento de se autodescobrir o conhecimento de como vivo, a qual sociedade pertenço, como está estruturada esta sociedade e nela qual meu papel como ser humano. Resumindo, ser religioso é, em primeiro lugar, uma busca de contextualização, de conhecimento de si mesmo como indivíduo, como ser social e histórico. Em outras palavras, libertar-se da alienação e abrir os sentidos para a realidade que somos e na qual vivemos.

Não é por menos que Jesus Cristo afirmava que “o Reino de Deus está próximo”. Aqui a proximidade não é temporal, mas geográfica. O Reino de Deus está perto de você, muito próximo, tão próximo que você não consegue enxergá-lo. Você é como o peixe no aquário. O peixe não percebe a água e muito menos o aquário, no qual está preso. O importante é perceber que, para buscar o Reino de Deus, são necessárias duas descobertas, não somente racionais, mas principalmente existenciais. A primeira descoberta é que somos algo muito especial. Uma das mais fortes mensagens das maiores religiões é que somos “filhos de Deus”. Reconhecer esta essência é fundamental, pois somente assim posso perceber que tenho capacidades ilimitadas e, ao mesmo tempo, devo ser tratado com dignidade e, sem dúvida alguma, tratar meus semelhantes com a mesma dignidade.

A segunda descoberta é tão importante quanto a primeira: a descoberta de como vivemos. Olhando a paisagem social podemos descobrir que não vivemos como filhos de Deus. Vivemos, por exemplo, em uma cidade na qual a periferia não possui atendimento médico de urgência e a população mais pobre precisa ser atendida no centro, as escolas para a maioria não estão sendo um caminho efetivo para o conhecimento da realidade e para a realização pessoal das crianças e jovens, não temos espaços públicos de lazer e esporte, não há chances de trabalho para todos, a criminalidade e o desrespeito aumentam a cada dia, não há o retorno visível dos impostos que pagamos e, ao invés de estruturas sólidas que ofereçam aos filhos de Deus uma verdadeira qualidade de vida, os mais carentes economicamente sobrevivem do assistencialismo das religiões, instituições de caridade e até mesmo do Estado.

O Reino de Deus que Jesus pregava é uma realidade de completude que se encontra dentro e fora do ser humano. Ele está dentro de você, mas é também uma circunferência em você. E esta é a grande síntese religiosa. Por isso que o religioso não pode ser um alienado, caso contrário, ele não está sendo religioso. Quem é religioso não se fecha à realidade, mas está aberto para se autoconhecer e para conhecer sua situação política e social. Mas não é somente isso. O verdadeiro religioso não é aquele que faz orações para receber aquilo que nós cidadãos e Estado podemos criar, mas, principalmente, aquele que contribui para que haja uma estrutura social e política na qual os seres humanos vivam como filhos de Deus.

A religião é, na verdade, uma provocação de Deus: desfrute da vida na sua totalidade, abra-se para a vida como ela é, seja grato à vida como ela é, mesmo que ela esteja repleta de problemas. Sinta uma profunda gratidão, mas uma gratidão que não se torne um narcótico. O verdadeiro homem religioso é grato por viver para poder transformar. Juntamente com a gratidão está também o repúdio, a revolta, a rebelião, a discussão social, a exigência de direitos. Quando você aceita o todo, compromete-se com todo, porque descobre que não há separação entre o ser individual e a estrutura social. Todas as divisões desaparecem. Você pode até viver em um lindo condomínio fechado, longe da precária situação da maioria, mas não dormirá tranqüilo enquanto não estiver contribuindo para a construção de um “Reino” que seja dos Deuses, de verdadeiros filhos de Deus.

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