Bairros

Bairros expõem lado português da cidade

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Corria o ano de 1500 quando um navegador português avistou algumas terras ao longe, do alto do mastro de uma caravela. Ele correu chamar o capitão, e este julgou se tratar de uma pequena montanha ou de uma ilha qualquer. Eles haviam permanecido meses navegando em alto mar e estavam ansiosos para encontrar um local onde pudessem aportar.

Naquele 22 de abril, finalmente eles haviam achado seu “porto seguro”. Dias depois, já estavam desembarcando nas terras que atualmente pertencem ao Estado da Bahia. Vários anos se passaram desde esse dia. Com o tempo, os aventureiros perceberam que a ilha era, na verdade, um continente, e sonho de acumular grandes riquezas passou a atraí-los cada vez mais.

Mesmo depois de encerrada a “Era Colonial”, esse ímpeto aventureiro parece não diminuir entre os lusitanos. Isso pode ser notado claramente em Bauru. Lugar de ocupação relativamente recente, a cidade contou com apoio essencial da comunidade lusitana para se desenvolver.

Os primeiros chegaram logo no começo do século 20. ”Os portugueses fazem parte da história do município desde a sua fundação. Eles colaboraram, inclusive, na construção das estradas de ferro, que tanto progresso trouxeram à cidade”, orgulha-se o aposentado Amado Lima, 73 anos, que atualmente preside a Associação Beneficente Portuguesa.

A entidade, sucessora da antiga Sociedade Beneficente Portuguesa, é a mais antiga instituição lusitana existente na cidade. Fundada em 1914, por um grupo de imigrantes e descentes radicados no município, ela foi responsável pela construção do segundo hospital de Bauru (o primeiro foi a Santa Casa).

Desde então, a Beneficência Portuguesa se firmou como referência na área de saúde para Bauru e região. O interessante nessa história é que o hospital, que hoje recebe pacientes das mais variadas origens étnicas, foi criado para atender exclusivamente os membros da comunidade lusitana. “Com o passar do tempo, a procura pelos serviço cresceu e, como a cidade não dispunha de uma rede de atendimento em saúde, o hospital acabou se encarregando de cumprir esse papel”, explica Lima.

Depois da Beneficência, outras entidades portuguesas começaram a surgir na cidade. Algumas delas se encontram até hoje em pleno funcionamento. É o caso da Associação Luso Brasileira de Bauru, fundada na década de 1960, que hoje desenvolve diversos tipo de atividades, tanto na área esportiva quanto cultural.

Eventos como a Festa Portuguesa e o Dia da Raça mobilizam até mesmo aqueles que não fazem parte da comunidade lusitana. Mas a participação dos “patrícios” não fica restrita às entidades. Muitos pioneiros do comércio de Bauru, como Antônio Garcia, dono da antiga casa Luzitana (no original era escrito com “z”), eram oriundos da comunidade portuguesa.

Devido a essa grande colaboração, pontos bastante conhecidos e freqüentados da cidade acabaram recebendo denominações que fazem referência à Terra de Camões: praça Portugal, santuário de Nossa Senhora de Fátima ou mesmo Jardim Estoril.

E mesmo em atividades mais corriqueiras muitos portugueses também se destacaram. Nesse sentido, poucos em Bauru conseguiram ser tão bem sucedidos em expandir as tradições e costumes lusitanos quanto o delegado Abel Fernando Marques Abreu. Nascido na cidade de Murtide, situada a 32 quilômetros de Coimbra, ele veio para o Brasil quando ainda era jovem.

Em Bauru ele acabou se convertendo numa das principais referências para colônia lusitana. Com o mesmo ímpeto de séculos atrás, ele e seus patrícios continuam levando adiante sua luta obstinada para manter vivos os antigos ideais de seu povo.

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