Bairros

Abel, o almirante da nau lusitana em Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 8 min

Há mais de 50 anos, quando deixou uma ocidental praia lusitana e rumou em direção ao Brasil, Abel Fernando Marques Abreu nem imaginava que se tornaria uma das principais referências para a comunidade portuguesa de Bauru.

Ainda jovem, chegou a trabalhar como faxineiro numa loja de materiais elétricos no Centro para ajudar no sustento da família. Hoje, porém, depois de quase 20 anos atuando como delegado de polícia na cidade, ele já pode se dar ao luxo de ostentar o título de “doutor” antes do primeiro nome.

Ex-professor da Faculdade de Direito de São Carlos e atualmente responsável pela Delegacia da Infância e Juventude (Diju) do município, Abreu tornou-se especialista, na verdade, em difundir a cultura lusitana. Ajudou a fundar a Associação Luso Brasileira de Bauru e fez parte de diversas diretorias da Sociedade Beneficente Portuguesa.

Nos anos 60, quando ainda era radialista e nem imaginava ser delegado, manteve no ar um programa português na antiga PRG-8 chamado “Serões da Aldeia”. O sucesso foi tão grande que, algum tempo depois, Abreu foi parar na televisão, na TV Bauru.

O fim do programa, ocorrido alguns anos mais tarde, não diminuiu o ímpeto do apresentador. Perseverante, ele acabou encontrando outros meios para continuar expandindo a alma portuguesa na cidade - como se fosse um almirante de alguma nau assinalada em busca de mares nunca de antes navegados.

Abreu ajudou a idealizar a Festa Portuguesa da Luso e também criou a solenidade do “Dia da Raça”, comemorado em 10 de julho. Décadas atrás, ele chegou a subir em um carro alegórico fantasiado de Luís de Camões para ajudar a Associação Luso Brasileira a conquistar o Carnaval de Bauru. Se bem que, nesse caso, o esforço deve ter sido para lá de prazeroso, já que Abreu é fã incondicional do autor de “Os Lusíadas”.

Estudioso nato, conhece os significados da maioria dos símbolos de Portugal e tem decorados na ponta da língua os principais fatos da história daquele país. Na última quarta-feira, Abreu recebeu a reportagem do Jornal da Cidade e conversou a respeito de sua dedicação à terra natal. Devoto, como não poderia deixar de ser, ele contou como conseguiu a proeza de trazer a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima até Bauru. Acompanhe, a seguir, alguns trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Para preparar esta reportagem fomos atrás de diversos “patrícios” do senhor. Quando pedimos a eles que falassem a respeito da comunidade lusitana em Bauru, todos foram unânimes em dizer: “Acho que seria melhor você falar como doutor Abel. Ele é quem está por dentro desse assunto”. Como o senhor conseguiu se tornar essa referência para os portugueses aqui residentes?

Abel Abreu - É que tenho me empenhado, durante décadas, na divulgação da cultura lusitana em Bauru e região. Não que eu seja o único a fazer isso. Meu primo, Arlindo Marques Figueiredo, ocupa um cargo importante para a comunidade residente no município, que é o de cônsul honorário. Ele seria uma espécie de figura representativa de Portugal em nossa cidade. Em todo caso, reconheço que tenho feito muito pela preservação e pela difusão dos costumes de minha terra natal.

JC - O senhor é natural de Portugal?

Abreu - Sim, nasci em Murtide, uma cidade localizada a 32 quilômetros de Coimbra. Lá meu pai (João Abreu, já falecido) trabalhava como contador. Tenho muitas recordações daquele lugar. Lembro da torre da universidade, que foi apelidada de “Cabra” pelos estudantes - não sei bem por qual motivo. Em todo caso, da última vez em que estive lá, há cerca de quatro anos, tudo se encontrava tal e qual eu havia deixado.

JC - Quando o senhor e sua família se mudaram para o Brasil?

Abreu - Foi em 1951, e viemos direto para Bauru. Creio que fizemos isso por espírito aventureiro. Logo que chegamos, meu pai arrumou trabalho no comércio. Foi nessa época, aliás, que arranjei meu primeiro emprego: faxineiro numa loja de materiais elétricos no Centro que, por sinal, nem existe mais.

JC - E esse carinho por Portugal, quando começou?

Abreu - Faz tempo. Eu ainda era bastante jovem quando ajudei a fundar a Associação Luso Brasileira de Bauru. Isso foi em 10 de julho de 1962. Lembro até hoje da cerimônia, que foi no salão nobre da Sociedade Beneficente Portuguesa - outra entidade, aliás, de que sou membro.

JC - Lá o senhor chegou a ser diretor, correto?

Abreu - Sim, e por diversas ocasiões, mas não foi só isso. Eu sou a pessoa que por mais tempo esteve à frente da diretoria social da Luso. Sou um dos idealizadores da Festa Portuguesa, promovida todos os anos pelo clube, e sou o responsável pela solenidade anual do “Dia da Raça”, que é celebrado em 10 de julho com a presença de autoridades portuguesas e membros da comunidade lusa de Bauru e região.

JC - Além desse trabalho nas entidades, o senhor utilizou outros meios para difundir a cultura portuguesa entre os bauruenses?

Abreu - Nos anos 60, eu mantive um espaço dedicado à Portugal na antiga PRG-8, chamado Programa Luso “Serões da Aldeia”. Durante uma hora diária, o público podia apreciar músicas típicas, como fados e guitarradas, além de ter acesso a um noticiário com informações sobre Portugal.

JC - E o público aprovou?

Abreu - Sim, tanto que o auditório vivia lotado nos cinco anos em que o programa esteve no ar. Durante um período, “Serões” chegou a ser exibido também na antiga TV Bauru, devido à sua grande repercussão.

JC - Naquele tempo o senhor já era delegado?

Abreu - Não, eu trabalhava em um banco. Tornei-me delegado apenas em 1990.

JC - À primeira vista, o senhor não lembra em nada um chefe de polícia. Em geral, quando as pessoas pensam em delegado, a primeira imagem que vem à cabeça é o de um homem sisudo e calado. O senhor, ao contrário, é bem humorado e falante - sem contar que adora poesia...

Abreu - Gosto mesmo, sou fã incondicional de Camões. Agora, no dia-a-dia como delegado, tento apenas cumprir a lei, e só, mas faço isso usando de uma boa dose de fraternidade. Acho que isso é uma marca própria dos portugueses: em geral, somos um povo muito caridoso.

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Fogo que arde sem se ver...

O delegado Abel Fernando Marques Abreu já passou por situações no mínimo inusitadas devido à sua dedicação por Portugal. Em 1964, quando ainda era jovem e nem sonhava em se tornar policial civil, ele chegou a subir fantasiado de Luís Vaz de Camões em um carro alegórico chamado “Os Lusíadas”. Tudo para ajudar a Associação Luso Brasileira a vencer o Carnaval de Bauru.

“Naquele tempo não havia escolas de samba e os desfiles estavam começando a ser realizados na avenida Rodrigues Alves”, conta Abreu. Além do poeta, iam a bordo de “Os Lusíadas” mulheres trajadas de camponesas da região do Minho e um grupo folclórico.

Réplica de um navio à vapor, o carro era enfeitado com tecidos azuis que reproduziam as ondas do mar, uma buzina cedida pela antiga Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) e uma grande chaminé.

“A fumaça era produzida a partir de uma estopa embebida em óleo queimado”, relembra Abreu. Os efeitos especiais comoveram o público, tanto que “Os Lusíadas” atravessou a avenida sob aplausos da multidão.

Quase ao final do cortejo, porém, um acidente quase transformou a folia em tragédia. “Uma faísca acabou caindo no carro e tudo ali começou a queimar”, diz ele. A fumaça aumentou, mas o público pensou que tudo era parte do espetáculo. “Ninguém ali conseguia ver o incêndio - só nós, que estávamos lá dentro”, garante.

Para sorte dos tripulantes, “Os Lusíadas” era uma alegoria tão perfeita que continha até extintores de incêndio. Antes do carro chegar à dispersão, na rua Antônio Alves, o fogo que ardia sem ninguém ver foi enfim controlado. E, apesar dos contratempos, os tripulantes puderam comemorar a conquista do Carnaval daquele ano.

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A benção

A vinda da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima a Bauru, ocorrida em maio de 2000, pode ser considerada um dos momentos mais marcantes da história da comunidade portuguesa na cidade. Muitos não fazem idéia, porém, de que a visita ocorreu meio que por acaso.

Em princípio, o bispado de Leiria, responsável pelo santuário de Fátima, em Portugal, havia programado eventos com a imagem em apenas sete capitais brasileiras. Um pequeno “milagre”, porém, acabou alterando a rota dessa viagem.

Como costumava fazer todos os anos, o delegado Abel Abreu entrou em contato com o Departamento de Turismo de Portugal para solicitar o envio de materiais referentes ao país a Bauru.

“Liguei para pedir cartazes e documentários que seriam usados em eventos da Associação Luso Brasileira. De repente, no meio da conversa, o funcionário me perguntou: ‘O senhor doutor Abel está sabendo que a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima irá visitar o Brasil em maio?’ ‘Não’, respondi. Então, ele retrucou: ‘Pois ela vai a sete capitais de teu país’”, recorda Abreu.

Bem-humorado, o delegado não perdeu tempo e disse: “Nesse caso, ela terá de vir a Bauru”. O funcionário questionou: “Ora pois, e por acaso tua cidade é capital?”. E Abreu rebateu: “Claro que sim! É a Capital da Terra Branca”.

O que o delegado não sabia, contudo, é que aquela simples brincadeira acabaria tomando um rumo sério. O funcionário português perguntou se ele gostaria que a imagem peregrina viesse à cidade. “’Lógico que sim’, respondi. Daí ele me disse que ia conversar com o Bispo de Leiria para saber se ele aceitaria mudar o roteiro da viagem”, garante Abreu.

Em 8 de maio daquele ano, a imagem finalmente desembarcou em Bauru. “No momento da chegada, o Aeroclube e as ruas vizinhas ficaram completamente tomados pela multidão”, recorda Abreu. Após marcar presença em diversas missas ao redor da cidade, Nossa Senhora de Fátima pode então seguir sua peregrinação, rumando em direção a São Paulo.

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