Saúde

Toques e retoques: O papel dos pais na obesidade infantil

Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

Prezado leitor,

Hoje vou abordar um assunto muito em pauta: a obesidade infantil. Não são raros, nos últimos tempos, os pacientes mirins freqüentarem as várias clínicas médicas com queixas e preocupação dos pais a respeito da obesidade, além da sua possível associação com diabetes, hipercolesterolemia, hipertrigliceridemia e hipertensão. É claro que os pais querem contribuir com a saúde de seus pimpolhos e estão sempre intencionados a acertar, mas às vezes são boicotados pela falta de informação adequada.

Durante a gravidez, não necessariamente as informações contidas nos genes dos pais influenciarão a criança a ser ou não obesa. A alimentação dos pais, bem como seus vícios anti-saúde (alcoolismo e tabagismo), pode influenciar mais que a simples genética.

Segundo a evolução, nas primeiras semanas de gravidez, se a alimentação da mãe for rica em gorduras trans e carboidratos refinados (açúcares, farinhas e alimentos muito industrializados), ou seja, muito pobres em nutrientes, a criança recém-concebida no útero entenderá que quando ela nascer vai encontrar um ambiente com escassez de nutrientes essenciais.

Como decorrência, esse bebê evoluirá para adquirir um metabolismo mais lento, como se fosse uma vantagem adicional para garantir a sua sobrevivência num ambiente precário de alimentos. Pobre dela, e o pior, nem tem culpa. Se tivéssemos o poder de contá-la e ela entender, seria mais fácil. Como isso não é possível, o único modo de passarmos essas informações ao nosso futuro filho é através de uma vida saudável, ainda antes de a gravidez ocorrer.

Atualmente, prescreve-se até medicamentos para diminuir os níveis sangüíneos de colesterol e triglicérides das crianças, esquecendo-se dos diversos efeitos colaterais, como sobrecarga dos rins e do fígado. Nada contra a prescrição, mas primeiramente deve-se lançar mão dos meios saudáveis dessa melhora, como alimentação equilibrada e exercícios para combater o sedentarismo.

Ao nascer, a alimentação no primeiro semestre da criança deve ser exclusivamente de leite materno. Além de alimentar, o leite a supre com carinho e ainda preserva o vínculo afetivo do bebê com a mãe, formando um elo entre o alimento e os sentimentos de forma mais equilibrada.

Após essa fase, sempre que a criança chorar e os pais a atenderem ofertando alimentos para aplacar este desconforto emocional, ela pode construir relações equivocadas entre alimentação e afeto. Quando ela for crescendo, ao se sentir carente ou aborrecida, adivinhe para o que ela vai apelar? Isso mesmo, alimentação nada saudável. E a conseqüência? Ficou fácil: obesidade.

Compreendo que a mídia influencia nossos filhos, com personagens queridos por elas, oferecendo várias porcarias alimentares e rotulando-as como saudáveis. Uma contradição também existe: como é possível ofertar essas tranqueiras e ao mesmo tempo exigir que a sua composição física seja como a dos mesmos artistas, bonitos por sinal, que as oferecem? É claro que eles apenas as consomem no comercial e iludem quem as consome com freqüência. Os órgãos competentes agora querem proibir essas propagandas. Proibindo ou não, a escolha quem faz somos nós, e é nosso dever orientá-los.

Alimentarmos corretamente e ativar os músculos deve fazer parte do nosso dia-a-dia, até mesmo para as crianças. Não se pode usar daqueles argumentos como muleta para justificar nossos fracassos. As crianças, assim como os adultos, também precisam ter limites e discernimento sobre o que é correto e incorreto. Em nenhum momento citei que isso é uma tarefa fácil. Depende exclusivamente de nós. Ninguém poderá fazer isso por você, apenas você mesmo.

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Na prática clínica diária atendo vários casos de obesidade. Quando indago a algum cliente sobre o porquê de não ter conseguido emagrecer, vem a resposta bombástica: “Sabe o que é, doutora, em casa tenho criança e ela precisa ter doce, aí eu também como”. E tem mais: “Não faço atividade física porque não tenho tempo”.

Qual a lei que determina da necessidade em se ter doces em casa em prol das crianças? Isso é um absurdo! Deve-se orientar a criança desde cedo a evitar esses tipos de alimentos. Guloseimas devem ser oferecidas apenas em festas ou finais de semana.

A criança precisa ter disciplina e limites desde pequena. Como também devemos protelar ao máximo o conhecimento do sabor dos doces. Crianças são fáceis de distrair. Podemos dizer que iremos comprar o alimento e não comprá-lo. Até lá, elas esquecem.

Não quero dizer que nunca mais você vai colocar um doce na boca, mas a vida é composta por escolhas: se quiser ter saúde, tenha uma alimentação equilibrada. Se quiser ter doença, tenha uma alimentação desequilibrada.

Em troca de refrigerantes, ofereça sucos. Em troca de doces, ofereça frutas. Em troca de horas de computador e Internet, ofereça horas de lazer, como um passeio no parque, cinema ou qualquer evento cultural, ou até mesmo se ofereça para estudarem juntos.

Seja mais companheiro e amigo de seus filhos para ele ter a sua confiança. O importante é a qualidade do tempo juntos, não a quantidade. Assim, toda a informação que você passar, ele vai acreditar e a palavra final será sua. Essa relação é saudável e de vital importância.

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Médica, CRM-SP 96.027 e-mail:danielahueb@jcnet.combr

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