O mundo chocado assiste ao massacre da Universidade de Virgínia Tech e a retrospectiva histórica do atirador leva à conclusão que é um caso de doença mental. O sul-coreano Cho Seung-hui era um indivíduo fechado sobre si mesmo, era solitário. Taciturno, falava muito pouco e tinha poucos amigos. Era estudante de Letras e os textos escritos por ele eram muito estranhos. Sua professora de Letras deu atenção especial a ele e, observando atitudes e comportamentos diferentes, sugeriu que procurasse ajuda psicológica.
Esses comportamentos e atitudes levam ao diagnóstico de esquizotipia, uma forma frustra de esquizofrenia, um transtorno de personalidade que atinge até 5% da população segundo algumas pesquisas. O atirador surtou e começou a apresentar sintomas de primeira ordem Schneiderianos: roubo de pensamento, inserção e difusão de pensamento, percepção delirante, e delírios persecutórios irracionais e sem fundamento na realidade. A análise do material falado e escrito pelo atirador leva ao diagnóstico de paranóia e portador de Esquizofrenia.
Segundo Mario Maj, da Organização Mundial da Saúde, em seu livro Esquizofrenia da coleção Evidência e Experiência, a maioria dos 5% dos indivíduos com esquizotipia não surtam e permanecem com transtorno de personalidade. Mas a maioria dos 1% da população com Esquizofrenia tem uma personalidade de base esquizotípica antes do primeiro surto psicótico. Este é caracterizado por uma ruptura da maneira de ser, pensar e agir da pessoa quando ela começa a ter delírios e alucinações. Segundo dr. Valentim Gentil, chefe do Instituto de Psiquiatria da USP, a maioria dos casos de Esquizofrenia padece e sofre com a doença e os episódios psicóticos, mas não fazem mal para ninguém.
O caso de Cho é de um indivíduo de personalidade esquizotípica em quem o primeiro surto psicótico ocorreu com 23 anos, exatamente a idade quando começa essa doença, segundo psiquiatra francês Quentin Debray no Jornal F3, TV5. Este colega diz que a causa desse descontrole foge da vontade de Cho e está em más formações do cérebro do paciente. Más formações sutis que com o amadurecimento do mesmo provoca poda neuronal e desconexão massiva de áreas associativas, de memória e emoção levando ao descontrole e desorganização do comportamento. Os delírios persecutórios são claros nos textos de Cho. Repórteres da CNN relatam que ele fora medicado com anti-depressivos, mas ele deveria ser mesmo era medicado com neurolépticos anti-psicóticos.
A medicina preventiva secundária se refere ao diagnóstico precoce de doenças graves para que não se agravem demais os casos e comprometam os pacientes, trazendo prejuízos para famílias, comunidades e a sociedade como um todo. Os Estados Unidos da América têm a melhor psiquiatria do mundo, mas chegou muito tarde. Infelizmente, o diagnóstico correto aconteceu pós-mortem e após uma tragédia.
O autor, Carlos Manuel Cristóvão, é médico psiquiatra - CRM 88.611