Cultura

Relações humanas ganham palco do Sesc

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

As cortinas se abrem e, a partir de um invisível grande buraco de fechadura, a platéia assiste de um ângulo privilegiado cenas de uma vida, que também poderia ser sua. A ilusão naturalista norteia a dramaturgia da nona edição do espetáculo “Prêt-à-Porter”, do Centro de Pesquisa Teatral (CPT) do Serviço Social do Comércio (Sesc) coordenado por Antunes Filho, apresentado nesta noite em duas sessões no Sesc.

A proposta do “Prêt-à-Porter” é de ruptura à dramaturgia tradicional ao apresentar um texto que aborda as brechas, um pedaço da vida de um ser humano, com personagens sem passado e futuros determinados. “A dramaturgia é porosa para que a platéia complete a cena. Trabalhamos mais com a sugestão do que com a imposição”, diz o ator Emerson Danesi, há 11 anos no CPT.

A solidão, os desencontros, o desejo, as frustrações e os sonhos do homem contemporâneo são escancarados em três cenas. Em “Edifício Copan”, as atrizes Simone Iliescu e Angélica di Paula são moças que moram num minúsculo apartamento de uma grande cidade. Elas tentam driblar o sufocante cotidiano ao acreditar que uma brecha de sol - de duração de 15 minutos - é a própria felicidade.

Em outra cena, “Bibelô de Estrada”, passada em um quartinho de hotel, um fugitivo (Emerson Danesi) faz de uma prostituta (Marília Simões) seu mais precioso bem. Em “Tango”, Marcos de Andrade e Simone Iliescu interpretam dois amantes em um navio a deriva, onde relembram os momentos felizes e as grandes noites que passaram juntos.

Ruptura

Pode-se dizer que uma crise, dessas que costumam abalar até os grandes gênios, mudou o rumo do trabalho do diretor de teatro Antunes Filho. Ele fundou o CPT, em São Paulo, em 1982, após abandonar o teatro comercial; e partiu para novas pesquisas que o levaram ao “Prêt-à-Porter” depois da montagem de “Drácula e Outros Vampiros”, em 1996. “Ele resolveu parar com grandes dramaturgias e partiu para pesquisas de pequenas cenas, do cotidiano”, disse o ator Emerson Danesi.

Dois anos depois, foi apresentada a primeira edição do novo projeto, que trouxe uma introdução a um novo conhecimento de criação dramática, um novo paradigma. “Eu vi que primeiro precisava limpar o ator, através do processo de corpo e através da mente, da sensibilidade. Tirar o ator de uma grosseria, da ansiedade, deixar ser mais simples, de ser estereotipado”, disse Antunes Filho numa entrevista concedida a Nelson Sá e Marcelo Rubens Paiva na Folha de São Paulo, explicando a origem do “Prêt-à-Porter”.

Desde o início, a performance do projeto solicitou dos atores a revisão de conceitos sobre a arte do ator, da dramaturgia e da própria encenação. “O primeiro momento do trabalho é de organização e desconstrução do corpo, do seu ego”, descreveu Danesi. Em cena, a iluminação, o figurino e o cenário simples dos espetáculos procuram deixar em evidência os atores, responsáveis por encontrar os temas, desenvolvê-los por improvisações e criar, interpretar e dirigir o texto.

O relacionamento com o diretor - conhecido pela relação de amor e ódio com seus atores - foi descrito por Danesi como “belo e pavoroso”. “O Antunes é totalmente intenso e um grande conhecedor de teatro. É um privilégio compartilhar do seu conhecimento e ao mesmo tempo pavoroso, porque você não sai ileso. Ele vai mexer profundamente com suas deficiências e todas elas virão à tona”, disse.

• Serviço

“Prêt-à-Porter”, com CPT do Sesc, hoje, às 19h e às 21h30, nas salas de uso múltiplo 01 e 02 do Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Ingressos por R$ 4,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculado e dependentes), R$ 8,00 (usuários inscritos, estudantes com comprovante, professores da rede pública e maiores de 60 anos) e R$ 16,00 (demais interessados). Mais informações: (14) 3235-1751.

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