Política

Zona sul quer pagar recape de asfalto

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

O projeto de lei que o prefeito Tuga Angerami pretende enviar à Câmara Municipal de Bauru para modificar a atual legislação do asfaltamento comunitário, conforme informou ontem o JC, poderá gerar uma situação curiosa: de um lado, moradores de ruas já dotadas de asfalto dispostos a pagar a prefeitura para terem as vias recapeadas em virtude do estado precário das mesmas; de outro, habitantes de bairros com ruas sem piso asfáltico sem condições financeiras de dispender recursos para ter acesso ao benefício.

Isso porque a proposta do chefe do Executivo bauruense sobre o asfalto comunitário contempla a possibilidade de aderir ao programa apenas para os moradores de locais onde o asfalto é inexistente, nas vias de terra. Assim, em bairros carentes de infra-estrutura, nem sempre a maioria dos habitantes toparia pagar pelo asfalto - o prefeito ainda estuda o índice, mas a idéia é que a adesão não seja menor que 75%. Já nos bairros com ruas asfaltadas, mas demasiadamente esburacadas e com pavimento asfáltico vencido, a população não poderia dispender recursos pelo benefício em razão do recape não estar previsto inicialmente no programa.

A aposentada Margarida Lemes Moreira, residente há 16 anos na rua Hélio Soares de Queiroz, no Jardim Olímpico, é uma das que não toparia pagar para ter o asfalto na via. Não por não ter interesse, mas por não reunir condições financeiras. Ganhando uma aposentadoria de R$ 350,00, única fonte de renda da casa própria onde mora com os dois filhos casados, e desempregados, a aposentada protesta que a prefeitura deveria fornecer gratuitamente o benefício aos moradores.

“Não tenho como assumir esse compromisso. Como vou pagar para ter asfalto se não tenho nem o lixo recolhido normalmente e o bairro tem sujeira espalhada para todo lado?”, questionou Moreira. E, mesmo entre os que aceitariam aderir ao plano de asfaltamento comunitário, a dúvida sobre os valores deixa os moradores ressabiados, como Maria Goretti Maia de Lima, residente na mesma rua da aposentada. “Toparia dependendo do valor das parcelas”, ressaltou.

Disposição inútil

Já moradores e trabalhadores da Zona Sul da cidade, considerada uma das áreas nobres do município, apesar de dispostos a colocarem a “mão no bolso” para terem as ruas recapeadas, não poderão utilizar-se do asfaltamento comunitário porque o serviço não está incluso no programa. A professora Maria Tereza Pereira Fábio reside há cinco anos na rua Aviadora Anésia Pinheiro Machado, no Jardim América, onde é obrigada a conviver, há cerca de dois meses, com os transtornos causados por um enorme buraco que toma quase toda a extensão da frente de sua casa.

“A rua tem tanto buraco que nos obriga a procurar caminhos alternativos para chegar em casa. Além disso, já tive um pneu do carro rasgado enquanto tentava manobrar para estacionar na garagem, outra tarefa dura de executar por causa do tamanho e da profundidade dessa cratera”, reclamou Maria Tereza.

Em razão dos problemas gerados pelo buraco, a docente afirma estar disposta a pagar para ter sua recapeada. “Cheguei até a pensar em orçar quanto custaria o serviço, pois tem hora que não tem jeito mais. Sei que pelos impostos que pagamos esse benefício já deveria estar coberto, mas prefiro solucionar de uma vez, nem que tenha de pagar para isso”, enfatizou a professora.

Outro freqüentador do mesmo bairro também é ávido pela possibilidade de pagar pelo asfalto. Trata-se do comerciante Osires Lourenço, que trabalha desde 1990 na mesma rua da professora Maria Tereza e igualmente sofre com enormes buracos em frente a seu estabelecimento. “Tem cliente que reclama muito. Um deles chegou até a estourar o pneu do seu veículo”, protestou Lourenço.

Para amenizar a situação, o comerciante revelou que constantemente é obrigado a preencher os buracos com restos de construção. “Já falei diversas vezes, desde novembro do ano passado, com pessoas da usina de asfalto e até agora nenhuma providência foi tomada. É uma vergonha. Por isso, acredito que não só eu mas também outras pessoas aqui da região aceitariam pagar pelo asfalto”, sustentou.

A reportagem do JC tentou ouvir o prefeito Tuga Angerami sobre a possibilidade de inclusão do recapeamento das ruas no programa de asfaltamento comunitário, mas ele não foi localizado.

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Emenda

Questionado pelo JC sobre a possibilidade de inclusão do recape no asfaltamento comunitário, o vereador Primo Mangialardo (PV), defensor da idéia de que o Poupatempo tenha um setor específico para agilizar o programa, prometeu que irá apresentar uma emenda com essa intenção quando o projeto do chefe do Executivo chegar ao Legislativo. “É uma idéia que realmente merece ser adicionada à proposta do programa”, frisou o parlamentar.

Mangialardo adiantou também que será incluído no programa de asfaltamento comunitário a construção de guias e sarjetas e melhorias no sistema de iluminação, além de considerar que, mesmo nos bairros mais carentes e com população de mais baixo poder aquisitivo, os moradores demonstram interesse no asfalto. “Sei de pessoas que estão economizando para poder pagar o asfalto”, garantiu o vereador.

O tucano João Parreira (PSDB) também segue igual raciocínio de seu colega de Câmara. “Há vários bairros em Bauru, mesmo os carentes, onde a execução do asfaltamento não é muito cara”, salientou. Para ele, a proposta do Executivo é a única forma de asfaltar a cidade. “É a única forma de termos esse benefício nas ruas desprovidas de pavimento. Precisamos ser realistas”, frisou o vereador.

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