A história que vou contar é verídica, aconteceu na realidade. Era o ano de 1965 e eu trabalhava naquela ocasião na oficina da Bauruauto, que ficava na rua Virgílio Malta em frente do Senai, e todas as segunda-feiras, na hora do almoço, a conversa era sobre pescaria do fim de semana. Cada um contava suas peripécias de pescarias, tinha um que dizia que a linha nº 35 não agüentava devido ao arranque das piaparas, e outro dizia que ferrou uma baita piapara e ela foi para baixo do enrosco e não conseguiu tirar... E eu só escutando, porque nunca tinha ido a uma pescaria. Será que é a verdade que eles estão falando? Eu já estava ficando meio cabreiro com as conversas deles.
Um dia eles combinaram uma pescaria no Ribeirão Grande, e eu fui com eles para ver se era verdade o que diziam, mas o dia não estava para pescaria. Deu tudo errado e eu vou lhes contar: nós fomos em cinco para pescar; fui eu mais o Geraldo, que era na ocasião o gerente da oficina, e um irmão dele, o Osvaldo, e mais dois colegas, o Chicão e o Dóca. O lugar da pescaria era um sítio particular. Nós pedimos licença à mulher do caseiro, porque no momento ele estava ausente, abrimos a porteira e fomos em frente.
Lá em frente encontramos no caminho uma caminhonete com uma turma que estava voltando da pescaria. Chegando ao ribeirão, cada um tomou seu rumo para a dita pescaria. Eu demorei um pouco para ir junto da turma, até arrumar a vara e a linha - eu tinha pouca prática para a pesca. E quando eu estava indo a caminho aconteceu o que eu não esperava: chega o capataz do sítio a cavalo e bêbado que nem um gambá, e gritando que nós tínhamos mexido com a mulher dele. Nessa hora ele partiu para o meu lado e queria me laçar e eu passei o maior sufoco da minha vida.
Eu corria de árvore em árvore para me livrar dele e comecei a grita para os companheiros que estavam rio abaixo. Ainda bem que eles ouviram meus gritos e vieram correndo para enfrentar o valentão, até que ele foi embora. Acabou a pescaria, vamos embora, disse o Geraldo, e eu nem coloquei a vara no rio - que bela estréia a minha, hein!? Mas ao chegar à porteira, lá estava o homem bebum com uma foice na mão e a mulher dele estava agarrada ao braço dele dizendo que não éramos nós que tínhamos mexido com ela, que era a turma da caminhonete. Mas a pinga era tanto que o doidão não ouvia nada, até que o Osvaldo deu um chega pra lá no gaiato, e abrimos a porteira e fomos embora.
No dia seguinte, um domingo, o Geraldo e mais um amigo foram armados ao sítio do valentão tomar satisfação. Aí o valentão, que já estaca curado da bebedeira, chegou a ajoelhar e pedir perdão pela burrada que havia feito. E eu, além de não pescar, ainda fiquei a semana inteira agüentando a gozação dos colegas da oficina, que vexame!
Depois daquele dia, eu fui pescar com os companheiros e aprendi que todos pescadores são artistas na arte de mentir. Mas eu aprendi a pescar, e de vez em quando sai alguma mentira, mas o que eu contei agora é a mais pura história verídica, tanto que eu continuo a pescar nas barrancas do rio.
Florindo Martins é pescador e contador de histórias.