Regional

PF prende policiais em megaoperação

Por Márcio Zeni | Diário de Marília, especial para o JC
| Tempo de leitura: 6 min

A Polícia Federal desmantelou ontem, em Marília, parte de uma organização criminosa com atuação em 15 cidades e quatro estados (onde houve outras prisões), com pelo menos 42 integrantes, acusada de crimes como seqüestro, corrupção, advocacia administrativa, concussão e formação de quadrilha. Segundo a Polícia Federal, a organização atuava em diversas áreas, com diferentes integrantes e líderes e, às vezes, com interação entre alguns dos integrantes. Havia segmento para seqüestros, para golpes e para lavagem do dinheiro, feita pela conta corrente de advogados, segundo os policiais.

A apuração levantou ainda indícios sobre os mandantes da tentativa de assassinato contra o jornalista José Ursílio, em 18 de julho do ano passado. As informações provocaram pedido de prisão do advogado João Simão e do perito Antonio Verceloni. A Justiça Estadual negou as prisões.

Enquanto isso, com ordem federal, foram presas 38 pessoas em 42 mandados judiciais expedidos pela Justiça Federal de Assis. A maior parte dos mandados foi cumprida em Marília e região.

Entre os presos estão o delegado João Vicente Camacho, da Polícia Civil de Marília, o policial rodoviário federal Ademilson Domingos de Lima, quatro agentes da polícia federal, o ex-policial militar Sílvio César Madureira e dois advogados.

Adilson Ravanelli, ex-assessor parlamentar do vereador Herval Rosa Seabra, foi preso fora de Marília e levado a São Paulo. Outro acusado preso depois foi Arineu Zocante, repetidas vezes acusado de golpes e fraudes. Só em Marília foram dez presos, entre eles os advogados Jesus Antônio da Silva e José Mário de Oliveira.

Conforme a PF, a Justiça também decretou a prisão temporária do empresário Arineu Zocante, devido ao envolvimento com a prática de seqüestro. O empresário é procurado em todo o território nacional.

O chefe da quadrilha de seqüestradores é identificado como sendo José Pins, vulgo “Zé Pinho”, preso na semana passada. Seria de Ribeirão Preto.

O filho dele, Herieverson Rogério Pins, teve a prisão temporária decretada e pode ser preso nos próximos dias. Ele é considerado o mais violento integrante do grupo. Arineu Zocante é apontado como coordenador dos golpes cometidos pela organização. Identificava-se geralmente como Antonio.

Os policiais são acusados de facilitar os golpes, dar informações privilegiadas sobre investigações e contatos.

A busca pelos acusados mobilizou pelo menos 50 viaturas da Polícia Federal e buscas em residências e escritórios. Ainda assim houve alguma dificuldade em encontrar alguns dos acusados. Arineu Zocante fugiu e só foi localizado no final da tarde. Adilson Ravanelli também não foi encontrado mas seu advogado, Ovídio Nunes, disse na delegacia que ele se apresentaria. O delegado João Camacho teria sido preso em um hotel onde dormia com uma acompanhante.

Seqüestros

A operação foi iniciada a partir da investigação de seqüestros. O delegado Vinícius Sobrera disse que inicialmente a quadrilha atuava com golpes: promessas de bons negócios que se transformavam em roubos. Quando as vítimas não carregavam dinheiro, eram seqüestradas.

“É uma organização criminosa ampla, são vários tipos de crimes”, afirmou o delegado Rogério Gianpaoli, um dos responsáveis pela operação.

Batizada de “Operação Oeste”, a ação foi desencadeada nos Estados de Goiás, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Foram cumpridos ainda 48 mandados de busca e apreensão.

A investigação dos crimes provocou série de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça e levantamento de provas das relações entre todos os envolvidos e de outras pessoas, como o advogado João Simão Neto, o empresário Fausto Jorge, o perito aposentado Antonio Verceloni, entre outros.

Vários documentos e material de informática foram apreendidos. Pelo menos 180 policiais foram mobilizados. A operação começou de madrugada e teve atividades em Marília até às 17h, quando um avião da Polícia Federal decolou com os presos para a cidade.

Durante toda a manhã o movimento de chegada e saída e viaturas e policiais foi intenso. Uma ambulância chegou a ser chamada para atendimento a um dos presos, que se sentiu mal.

A avenida Santo Antônio, onde funciona a PF, foi interditada entre as ruas 7 de Setembro e Coronel José Braz. Houve grande mobilização de policiais também no centro da cidade, especialmente ao lado do escritório do advogado Jesus Antonio da Silva. Até em frente à prefeitura foi colocada uma viatura.

Além de Marília, os mandados abrangiam São Paulo, Campinas, Assis, Paraguaçu Paulista, Ribeirão Preto, Álvares Machado, Presidente Prudente, Penápolis, Presidente Bernardes, Goiânia, Londrina (PR) e Uberlândia (MG).

No final da tarde o grupo foi levado para o aeroporto e embarcou numa aeronave da Polícia Federal, escoltado por equipe do COT (Comando de Operações Táticas), unidade de elite da PF. Todos os presos serão encaminhados para a Superintendência Regional da Polícia Federal em São Paulo, onde seriam interrogados.

O cumprimento dos 42 mandados de prisão movimentou um superestrutura e organização exemplar da Polícia Federal. Além do sigilo – até policiais da cidade foram surpreendidos – a operação só provocou reação quando já havia boa parte dos acusados presos.

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Como a quadrilha agia

A apuração sobre a atuação da quadrilha envolve acusações de seqüestro, corrupção, peculato, advocacia administrativa, concussão, grampo de telefones, falsificação de documentos, uso de documentos falsos, estelionato e lavagem de dinheiro.

Não há previsão sobre quantos anos de prisão podem ser provocados por todas as acusações. O delegado Rogério Gianpaoli, um dos coordenadores da operação, disse que não há informações sobre o tempo de atuação da quadrilha ou de quantos crimes cometiam.

“Na questão do seqüestro, eles praticavam de uma forma tão rotineira que tinha semana que praticavam até dois por semana.”

O delegado Vinícius Loque Sobrera, outro coordenador da operação, afirmou que havia um grupo responsável pela captura e pelo cárcere das vítimas, outro grupo responsável pelo contato com a vítima, e um terceiro grupo encarregado pelo fornecimento das contas correntes onde eram depositados os valores oriundos do crime de extorsão mediante seqüestro.

“Os advogados estão intrinsecamente ligados à quadrilha dos seqüestradores, uma vez que os advogados que forneciam, em muitos casos, as contas correntes onde eram depositados os valores do resgate”, afirmou Sobrera.

O dinheiro dos seqüestros era “lavado”, conforme o delegado, através dos depósitos em contas correntes dos envolvidos, especialmente os advogados. Arineu Zocante é um dos casos de elo entre o grupo responsável pela captura e cárcere da vítima e o outro grupo que fornecia as contas bancárias. Algumas das contas correntes usadas estavam nos próprios nomes das pessoas presas.

Sílvio César Madureira, policial militar que trocou a farda por uma empresa de Segurança, a Madureira Vigilância, é acusado de fazer proteção para o golpe e para a movimentação da quadrilha.

“O que há de comum entre eles é o fato do Silvio César Madureira ser proprietário de algumas empresas de segurança privada e ele ser um dos membros dessa organização criminosa”, afirmou Vinícius Loque Sobrera.

As vítimas eram atraídas por anúncios em jornais e pela internet, vindas de diferentes regiões do país para o Interior dos Estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás, onde eram mantidas em cativeiros.

Três dos quatro agentes federais presos na operação trabalhavam na Delegacia de Polícia Federal em Marília: Emerson Luís Lopes, Celso Ferreira e Henrique Nogueira Pinheiro. O quarto agente seria de Presidente Prudente. Os policiais têm ligação com a organização criminosa, mas não com os seqüestros.

“Basicamente a participação dos policiais é em outros golpes que foram praticados pela organização criminosa, mas não de seqüestro, foram outros tipos de golpe”, disse o delegado Vinícius Sobrera.

O delegado cita o golpe do “3 por 1” e o golpe das pedras preciosas. “As vítimas eram atraídas por um negócio vantajoso e na verdade era criado todo um misancene e nisso elas tinham seus valores subtraídos”, explica.

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