Nova York - Desafiando o presidente George W. Bush, o Senado dos EUA aprovou ontem, por 51 votos a 46, a proposta orçamentária vinculada a um calendário para a retirada das tropas americanas do Iraque. A medida destina US$ 124 bilhões para gastos com a guerra e exige, em contrapartida, que a retirada comece no máximo em 1.º de outubro próximo, para terminar até abril de 2008.
Na Câmara, a votação foi ontem. Além do cronograma, a proposta estabelece ainda metas a serem cumpridas pelo governo iraquiano, como criar um programa para desarmar as milícias e diminuir a violência sectária. Se até 1.º de julho não fosse obtido avanço nesses temas, os soldados dos EUA poderiam começar a voltar para o país imediatamente.
Após a retirada, parte dos militares permaneceria no Iraque a fim de proteger diplomatas americanos, buscar terroristas e treinar as forças nacionais de segurança. Desde a Guerra do Vietnã, nas décadas de 60 e 70, não se vê tamanho enfrentamento entre o Legislativo e o Executivo dos EUA.
A aprovação da medida no Congresso é uma vitória histórica para os democratas, que dessa forma pressionam ainda mais um enfraquecido Bush, que já disse que vetará alei. A oposição não tem os dois terços necessários para anular o veto presidencial.
“Com essa proposta, queremos mostrar que não continuaremos dando um cheque em branco para essa guerra”, disse o senador Bob Menendez, democrata de Nova Jersey.
Manifestações no mesmo tom exaltado vieram dos republicanos no plenário, afirmando que o projeto na verdade estabelece uma data para a rendição e que as tropas precisam terminar o que começaram, ajudando a estabilizar o Iraque.
“Trata-se de uma legislação natimorta, e é uma irresponsabilidade propô-la sabendo que será vetada”, declarou o senador Trent Lott, republicano do Mississippi.
Bush não se pronunciou. A batalha política, porém, segue. Os democratas pretendem mandar o projeto para a mesa do presidente na próxima segunda-feira - véspera do aniversário de quatro anos do discurso que Bush fez a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, anunciando que havia se encerrado a parte mais dura dos combates no Iraque.
Tanto governo quanto oposição afirmam que não pretendem ceder, mas, como a medida aprovada no Congresso trata de recursos emergenciais para treinamento de tropas e equipamento, será preciso que eles entrem em acordo para não deixar os militares em campo sem verba.
Os contornos de uma nova proposta começam a ser negociados nos bastidores por democratas e republicados - o texto seria um meio-termo, sem mencionar datas, mas restringindo a forma de Bush conduzir a guerra. Uma idéia aventada é apresentar o projeto sem o calendário, deslocando-o para a proposta de Orçamento do Pentágono, a ser analisada em junho.
“O veto vai nos dar a chance de sentar com nossos colegas e achar um termo comum”, resignou-se o líder da minoria no Senado, o republicano John Boehner, de Ohio.