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Entrevista da semana: Parisi: ‘Sou um pescador de alunos’

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 11 min

Nascido no distrito de Rio Verde, em Bauru, há 59 anos, o advogado, promotor aposentado e professor Célio Parisi se apaixonou por direito antes mesmo de entrar na faculdade, em 1975. Desde então, tem dedicado sua vida à profissão, seja como advogado, promotor - função que exerceu por quase 20 anos - ou professor.

Dando aulas desde 1989, Parisi afirma que é um “pescador” de alunos e tem como objetivo fazer seus pupilos enxergarem o direito com a mesma paixão que ele. Pescar, aliás, é uma das atividades favoritas de Parisi, que ele pratica desde criança, no sítio onde passava as férias com a família.

Em entrevista concedida ao JC, o advogado fala de tudo, desde a carreira de promotor, até sua passagem como secretário de Negócios Jurídicos da Prefeitura de Bauru, onde esteve por um ano e meio. Ele também conta sobre sua paixão pelo futebol, especificamente pelo Noroeste, time de coração desde que “pulava o muro” para assistir aos jogos da “Maquininha Vermelha”.

Parisi não se furta a comentar as acusações que pairam sobre membros do Judiciário, mas pede cautela à população, para que não condenem antes dos fatos serem apurados. O promotor aposentado comenta ainda as dificuldades que o Poder Judiciário enfrenta no Brasil, por conta da falta de estrutura.

Jornal da Cidade - Qual a sua origem?

Célio Parisi - Nasci em 1948, na zona rural de Bauru, na fazenda Água Parada, distrito do Rio Verde. Nós viemos para a zona urbana em 1953, e em 1956 eu comecei a estudar no primário (atual ensino fundamental). Com 11 anos eu ingressei em um escritório de contabilidade e fui parar com contabilidade só em 1979.

JC - Mesmo depois de começar a advogar, o senhor continuou como contador?

Parisi - Continuei como contador e advogado, porque eu fui estudar advocacia só com 28 anos. Terminei o técnico em contabilidade, continuei trabalhando em contabilidade e em 1975 eu ingressei na faculdade de direito, me formei em 1979. Só parei em 1982, quando fiz um concurso para delegado de polícia do Mato Grosso do Sul. Sou da primeira turma de delegados, mas fiquei pouco tempo, uns seis, oito meses e ingressei no Ministério Público do Estado de São Paulo, onde me aposentei em 2002 e voltei a advogar. Entre 1979 e 1982 eu advoguei, depois voltei em 2003 e continuo até hoje.

JC - E a carreira de professor?

Parisi - Eu comecei em 1989 na ITE, fui convidado para lecionar direito processual civil e fiquei até o final de 2004, depois aceitei o desafio de coordenar o curso de direito da Faculdade Fênix, cujo projeto eu ajudei a montar e até hoje eu sou coordenador do curso, e continuo lecionando direito processual civil e teoria geral do processo.

JC - O senhor tem algumas atividades ‘extra-curriculares’, dizem que é um exímio pescador. É verdade ou história de pescador?

Parisi - Metade das histórias de pescador é mentira, outra metade é verdade. Embora o povo acredite só em 10% das histórias.

JC - Então o senhor é um pescador mediano?

Parisi - Sou um pescador mais ou menos, um curioso. Gosto de pescar.

JC - Desde quando o senhor pesca?

Parisi - Desde criança. Minha mãe gostava muito de pescar, então a gente ia na beira dos rios no sítio. Normalmente a gente passava as férias em um sítio e pescava nos riozinhos. Depois vieram os amigos, aí pesca aqui e ali. Agora a gente pesca duas vezes por ano.

JC - Mas pesca mesmo, ou é desculpa para tomar cerveja?

Parisi - Não, faz tudo, toma cerveja, pesca. Em julho mesmo nós vamos de novo.

JC - Que história curiosa o senhor tem para contar dessas pescarias? Que seja verdade...

Parisi - Essa é verdade mesmo. Em uma das pescarias que nós fizemos, nós pegamos muitos peixes. No penúltimo dia, meu colega de barco pegou uma caxara, que é um peixe grande, de uns 14 quilos, parecido com o pintado. O peixe puxou muito, o rio estava cheio e com muitos ingás nas margens. E puxa daqui, puxa dali, levamos o barco até próximo dos ingás, achando que o peixe estava no fundo do rio e a linha estava tensa, ele não se mexia e a gente não sabia o que fazer, porque estava escurecendo. No fim o peixe estava pendurado em um galho. A linha foi puxando, ele saiu quase metade para fora d’água e ficou sem força para nadar. Foi um fato curioso, porque nós pegamos um peixe que já tinha saído da água e estava pendurado em um galho.

JC - Quais são seus locais favoritos para pescar?

Parisi - Nós temos um rancho em sociedade, umas 40 pessoas, em Porto Esperança, no Mato Grosso do Sul, próximo a Corumbá. A gente vai lá de dois em dois anos, porque é uma escala. Mas pescaria boa tem em Ayolas, na divisa da Argentina com Paraguai, depois que atravessa a fronteira do Paraguai, uns 700 quilômetros. Mas lugar bom mesmo para pescar é no Pantanal, e no Mar Pequeno, em Cananéia.

JC - E futebol?

Parisi - Eu sou noroestino desde o tempo em que pulava o muro. Só não fui em uma partida que o campo pegou fogo (1958), mas no próximo jogo eu estava no estádio. Depois do incêndio o Noroeste passou a jogar no campo do BAC, foi onde o Noroeste jogou com o Corinthians, que ganhou de 6 a 3. Desde aquele tempo eu freqüento e sou torcedor do Noroeste. E meu escritório advoga para o clube.

JC - O senhor vai em todos os jogos?

Parisi - Assisto todos os jogos. Minha mulher é noroestina e eu costumo dizer que ela me leva para o campo de futebol.

JC - O senhor joga futebol ou só assiste?

Parisi - Até os 22 anos, enquanto a mulher deixava, eu joguei, depois parei.

JC - Quando era garoto, o senhor pensava em ser jogador?

Parisi - Joguei futebol muito tempo, desde criança. Da nossa turminha surgiram bons jogadores. O Toninho Guerreiro, que era um pouco mais velho, jogava com a gente. A molecada jogava com os mais velhos, no campo do Paulistinha, perto da Texaco. Havia bons jogadores, mas a grande maioria dos meninos que jogavam muito bem na época não tinha condições de parar de trabalhar para jogar futebol.

JC - E a vida profissional, como advogado e promotor?

Parisi - Eu comecei me apaixonar pelo direito quando ia vender apostilas na faculdade. Eu trabalhava em um escritório de contabilidade e meu patrão era presidente do Diretório Acadêmico, e por causa de uma doença do secretário do diretório, eu assumi lá e duplicava as apostilas e vendia à noite. E eu via aqueles professores com aquela oratória maravilhosa, os alunos todos de paletó e gravata, e acabei me apaixonando e queria cursar direito. Isso foi 1966 e eu só entrei na faculdade em 1975, nove anos depois eu tive a oportunidade. Quando comecei a estudar direito, tinha professor que era juiz, promotor, e muitos advogados, então eu comecei a ver o que um e outro fazia e decidi que iria ser promotor. Mas não tive sorte de ingressar logo no início, terminei a faculdade em 1979 e só entrei em 1983.

JC - Como é ser promotor? Que dificuldades são enfrentadas?

Parisi - A incompreensão é um grande obstáculo que o promotor tem. Precisa vencer esse obstáculo. Quando você tem a convicção de que deve fazer uma coisa, é preciso fazer. Não pode deixar paixão, sentimento, atrapalhar, e o que muitas pessoas não conseguem é separar a pessoa do promotor, da função que ele exerce. Em cidades pequenas, a gente enfrenta uma solidão muito grande, porque nem sempre você é recebido nos lugares, às vezes nem pode sair muito.

JC - A vida social não existe...

Parisi - Tem que ser muito regrada, porque sua liberdade é mais restrita do que das outras pessoas.

JC - Como o senhor vê essas denúncias contra juízes e desembargadores? O Brasil vive uma crise de autoridade?

Parisi - Eu acho que o Poder Judiciário é muito sério. Mas onde está o ser humano está o erro, não digo que não existam pessoas desonestas no Judiciário. Quanto a essas denúncias, alguns nomes me causaram surpresa muito grande, porque são nomes respeitados e respeitáveis no cenário jurídico do Brasil. Por isso é preciso que seja investigado com cautela, e se for verdade, punir e não deixar que isso venha a macular o Poder Judiciário, porque o Judiciário é muito mais sério do que as pessoas pensam. Sou avesso aos comentários de que não há Justiça. Primeiro que a Justiça existe, mas pode haver equívocos na aplicação da lei. Mas eu acho que o Judiciário está sendo muito massacrado no Brasil, em termos de estrutura. Bauru, por exemplo, é uma cidade que deveria ter umas 12 varas cíveis e umas oito varas criminais. Têm 3.500, 4 mil processos em cada vara, e o juiz não consegue dar conta daquilo, fazer o processo andar.

JC - Nos 20 anos como promotor, qual o peixe mais graúdo que o senhor pescou?

Parisi - Eu trabalhei seis anos e mais quatro na Procuradoria, só mexendo com ação civil pública, de improbidade, defesa do erário. Esses políticos todos conhecidos já passaram pela minha mão e dos colegas. Eu tenho amigos na política e costumo dizer que aquele que está no Legislativo deve permanecer, porque no Executivo é muito difícil passar sem nenhuma ação.

JC - Aproveitando o gancho, como foi sua passagem pelo Executivo de Bauru, como secretário de Negócios Jurídicos?

Parisi - Foi boa. O trabalho para mim era gratificante, mas quando eu aceitei, deveria ter pensado em termos de tempo, porque eu tinha aceitado o convite da Fênix, e logo em seguida o Tuga (Angerami, prefeito de Bauru) me procurou - eu não era amigo dele, hoje me tornei, mas não era -, então ele me procurou através de amigos em comum, e me convidaram. Eu aceitei, mas comecei em janeiro na prefeitura e na faculdade, e começou a apertar. Procurei o Tuga e disse que era muito mais professor, para ele ir procurando outro. Só que ele me disse, “você vai achar outro para pôr no seu lugar”. Até que nós descobrimos o Émerson, que foi mais o Tuga que indicou. É uma pressão muito grande, os vereadores exercem as funções deles, alguns são mais combativos que outros. Você faz um projeto, depois de tanto discutir, vai para a Câmara e eles acham um monte de defeito, e tinha um outro promotor aposentado lá.

JC - Tinha o Nestor Kobayashi, que o pessoal chama até de goleiro...

Parisi - Ele era o Rogério Ceni melhorado. Tinham aquelas discussões terríveis sobre ilegalidade. Mas eu preservo a amizade de todos, fiz muitos amigos.

JC - E como é ser professor, coordenar um curso? O que o senhor exige e espera dos alunos?

Parisi - A gente procura despertar a vontade de estudar direito. Eu digo que estudar direito é como namorar, você arruma uma namorada bonita, quer abraçar e beijar sempre, estudar direito é a mesma coisa, porque se você estudar direito apenas para ter um título, é melhor não estudar. Então você tem que descobrir se gosta, se não gosta é melhor procurar sua vocação. Eu sou mais pela formação do profissional, porque a informação ele tem, a escola e os professores fornecem. Aí, se ele gosta, vai buscar a complementação dessas informações. O direito não tem que ser decorado, você precisa aprender, assim como em toda profissão, não é decorar, é aprender. E o professor é mais um orientador de como procurar a verdade no direito, agregar e aprender o direito como um sistema.

JC - O senhor se considera mais professor ou mais pescador de alunos?

Parisi - Eu me considero mais um pescador de alunos, embora goste muito de dar aulas, adoro.

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Perfil

Nome completo: Célio Parisi

Local de nascimento: Bauru (SP)

Idade: 59 anos

Filhos: Considera que tem quatro

Hobby: Vários, estar com a família, lecionar, pescar e ver futebol

Livro de cabeceira: “Nosso lar”, de Francisco Xavier, e ”Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Alan Kardec

Filme preferido: “Minha Vida na Outra Vida”, dirigido por Marcus Cole, e “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, dirigido por Jerry Zucker

Times do coração: Noroeste e em segundo Palmeiras, como quase todo bom italiano

Para quem daria nota 10: Jesus Cristo

Para quem daria nota zero: Para qualquer político que venha vilipendiar os direitos do cidadão

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