Saúde

Boca denuncia distúrbios alimentares

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Na esteira da sociedade moderna, que cultua o corpo perfeito, o número de casos de transtornos alimentares vem aumentando nas últimas décadas. Justamente por isto, profissionais da área de saúde, entre eles médicos, psicólogos e nutricionistas, unem esforços para combater o preocupante cenário. A boa notícia é que o time multidisciplinar vem ganhando um reforço especial. São os dentistas, os quais, por meio da avaliação clínica, podem diagnosticar doenças decorrentes de problemas no comportamento alimentar, entre eles bulimia e anorexia nervosa.

A principal característica destas patologias é o ato de vomitar, induzido ou não, o que carrega uma grande quantidade de ácidos nocivos à boca, aos dentes e gengiva. De acordo com o dentista clínico Jonas Rosa Cardoso, estes ácidos são de origem intrínseca e podem provocar, ao longo do tempo, sérias alterações bucais. Entre elas a erosão dentária, ou seja, perda de estrutura dentária superficial devido a um processo químico causado por ácidos, mas sem envolvimento de microrganismos bacterianos. Se houverem bactérias, tudo indica que existe cárie.

Como conseqüência da erosão dentária, podem ocorrer hipersensibilidade dentária, proeminência das restaurações e comprometimento estético, além de outros fatores que interferem na saúde bucal, explica Sílvia Helena de Carvalho Sales Peres, professora do departamento de odontopediatria, ortodontia e saúde coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP). “A regurgitação crônica de origem somática ou psicossomática leva com freqüência a uma distribuição típica de erosão dentária dentro das arcadas dentárias”, reforça.

Além das causas intrínsecas - regurgitação e vômito -, a erosão dentária tem origem externa, fruto, principalmente, dos hábitos alimentares da vida moderna, nem sempre muito saudáveis. Segundo Peres, o estilo de vida atual faz com que a população adulta e infantil consuma mais produtos industrializados, tais como alimentos e bebidas prontas, que apresentam constituintes ácidos em sua composição.

“O aumento na prevalência da erosão dentária se deve especialmente a mudanças de hábitos alimentares da população. Além disso, atualmente há uma preocupação com a aparência física, levando as pessoas a ingerirem com maior freqüência sucos e frutas, que também são ácidos”, pontua a professora.

Cardoso concorda com Peres e acrescenta que, entre os alimentos ácidos, se destacam os refrigerantes, isotônicos e vinhos, além de vinagre, limão, maracujá, acerola, iogurte e vitamina C. “Se a pessoa toma uma bebida ácida e demora para ingeri-la, esta solução permanece na boca e pode amolecer ou desmineralizar o esmalte (parte externa do dente). E se logo após a ingestão da bebida ela escova os dentes, a escova, por abrasão, pode provocar uma lesão não cariosa”, diz.

Esse hábito tende a provocar um desgaste mais acentuado do esmalte e chegar à dentina (parte interna do dente), por onde passam diversos prolongamentos de nervos da polpa (tecido mole situado no centro do dente), originando a hipersensibilidade a alimentos e bebidas muito quentes ou geladas, complementa o dentista. “Quando a erosão dental atinge a área da polpa, os indivíduos geralmente sentem dor e procuram o consultório odontológico”, explica.

Peres enfatiza que o dentista ou cirurgião dentista contribui na identificação de indivíduos que sofrem de transtornos alimentares por meio do diagnóstico clínico do desgaste dentário. O tratamento destes pacientes deve ser realizado por uma equipe multiprofissional, formada por médicos, nutricionistas e psicoterapeutas, que estão aptos a identificar o problema, realizar uma adequada avaliação nutricional, além de identificar e tratar as complicações clínicas mais freqüentes.

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Patologias

Os distúrbios alimentares são conhecidos como transtornos alimentares e definidos como desvios do comportamento alimentar, que podem levar à obesidade, anorexia nervosa e bulimia nervosa, explica Sílvia Helena de Carvalho Sales Peres, professora do departamento de odontopediatria, ortodontia e saúde coletiva da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP).

Além da erosão dental. estes transtornos podem provocar a ocorrência de diferentes manifestações orais, como aftas, úlceras, estomatites, alterações gengivais, aumento nos índices de cáries, alterações da saliva, bruxismo e alterações ortodônticas.

Segundo ela, a anorexia nervosa é um transtorno alimentar caracterizado por uma rígida e insuficiente dieta alimentar, caracterizando baixo peso corporal e estresse físico, A doença tem caráter complexo, envolvendo aspectos psicológicos, fisiológicos e sociedade.

A bulimia nervosa pode estar associada à anorexia, mas a pessoa bulímica tende a ter períodos de intensa alimentação. É um transtorno alimentar caracterizado pela compulsão alimentar, com ingestão de grande quantidade de alimento, seguido de culpa por causa do ganho de peso. Para eliminar esse excesso, ela realiza eventos compensatórios, como vômitos provocados, uso excessivo de laxantes, diuréticos, inibidores de apetite, realização de exercícios excessivos e jejuns.

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Prevenção

Para combater a erosão dental, o ideal é diminuir o consumo de refrigerantes e sucos cítricos, mas se o alimento ácido é indispensável, o ideal é ingeri-lo junto às principais refeições, explica o dentista clínico Jonas Rosa Cardoso. Para diminuir o tempo de duração do líquido na boca, ele recomenda o uso do canudo, objeto que induz a bebida direto para a região da faringe. Terminar a refeição com um alimento neutro - leite e seus derivados – é outra dica. “O queijo, por exemplo, ajuda a neutralizar o pH”, diz.

É fundamental que, antes de escovar os dentes, a pessoa enxágüe a boca, fazendo um bochecho por alguns minutos com uma solução básica. “Basta misturar duas colheres de chá de bicarbonato de sódio em um copo de água”, ensina Cardoso. “Depois, é só escovar os dentes com uma escova ultramacia, usando a técnica vertical de escovação. Preconizamos ainda o flúor, que entra no esmalte e deixa a estrutura dental mais forte e menos suscetível ao desgaste”, observa.

A saliva também desempenha papel importante no combate à erosão dental. Composta por 99% de água e o restante por componentes orgânicos e sais minerais, ela é responsável pela limpeza da boca, formação do bolo alimentar e diluição e neutralização dos ácidos.

Cardoso explica que a saliva tem ação antimicrobiana e dá rigidez ao esmalte dental. “Ela tem imunoglobulinas, que são os antigos anticorpos, que funcionam como um tampão, equilibrando e regulando o pH.” Para aumentar a salivação, ele sugere consumir goma de mascar sem açúcar ou colocar um cristal de gengibre colocado embaixo da língua a cada duas horas.

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