Saúde

Terapia com oxigênio

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

Não há nada mais angustiante do que estar em um leito de hospital, sobretudo se o tratamento ao qual você está sendo submetido for demorado e dolorido, como em casos de acidentes com lesões graves. Mas em Bauru já existe um tratamento que complementa os demais e pode diminuir a estadia de um paciente no hospital. É a oxigenoterapia hiperbárica (OHB), que consiste no tratamento à base de exposição ao oxigênio puro.

A câmara hiperbárica está instalada no Hospital Beneficência Portuguesa e permite reverter quadros clínicos graves de infecções e ferimentos através da aceleração dos processos de cicatrização e de combate às bactérias. O equipamento foi trazido a Bauru pela Oxibarimed, empresa parceira do hospital, através do médico oftalmologista Sérgio Passerotti. Segundo ele, já foram comprovados os benefícios alcançados no tratamento com oxigênio puro. Os principais são a rápida cicatrização, diminuição do tempo de hospitalização e conseqüente redução de custos. Desde novembro de 2005, já passaram 70 pacientes pelas sessões de OHB.

Ao expor o paciente a uma pressão de dois a três atmosferas com oxigênio a 100% puro, consegue-se aumentar o número de moléculas de oxigênio no plasma, uma vez que com o aumento da pressão o volume do gás diminui. Portanto, não ocorre mudança nas condições do sangue arterial, e sim da quantidade de oxigênio no plasma.

Uma vez retirado o paciente deste ambiente pressurizado, os níveis de oxigenação caem e o gás começa a ser eliminado. Para isso é importante a despressurizarão lenta, lembrando que o volume do gás aumenta na medida em que a pressão vai sendo diminuída. Uma vez feito isso, o oxigênio arterial rapidamente diminuirá, porém níveis ainda elevados de oxigênio permanecerão no plasma, permitindo maior oferta de oxigênio aos tecidos lesados.

Vários são os benefícios causados pela utilização da oxigenoterapia hiperbárica. O tratamento realizado oferece aos pacientes efeitos positivos no organismo, pois mantém elevados os níveis de oxigênio nos tecidos, melhora a circulação, auxilia na eliminação da urina e demais fluídos corporais, estabiliza alguns quadros de pacientes diabéticos, além de acelerar o processo cicatrizante em ferimentos, lesões e necroses.

Segundo Passeroti, a OHB estimula a cicatrização através do crescimento de vasos e estimulação dos fibroblas (células que são encontradas no sangue e ajudam na cicatrização) e tecidos colágenos, além de combater a infecção.

Neste último caso, ele explica que o oxigênio mata a bactéria. Segundo o médico, no organismo, normalmente, há 1% de oxigênio, e quando se entra numa câmara pressurizada esse nível passa para 6%. “Não há bactéria que resista a 6% de oxigênio. As bactérias suportam até 1%”, diz.

Passerotti cita como exemplo a osteomelite, em que a bactéria está dentro do osso do paciente. De acordo com o médico, a OHB reduz o tempo de tratamento com antibióticos, que seria de oito a dez meses, para três meses. “A OHB potencializa o antibiótico e o tratamento fica bem mais barato”, afirma.

Entre outras patologias, a OHB tem se mostrado eficaz em pacientes com diabetes. De acordo com Sérgio Passerotti, um exemplo é o ‘pé diabético’, vulgarmente conhecido como ‘pé podre’, que não tem cicatrização e a úlcera vai aumentando até forçar a amputação. Ele destaca que com as sessões de OHB é possível evitar a amputação e levar o indivíduo de volta à vida normal em bem menos tempo do que a recuperação de uma amputação e colocação de prótese.

O médico destaca ainda que um estudo feito nos Estados Unidos, durante cinco anos, mostrou que o amputado, além do alto custo do tratamento, vai a óbito em cinco ou seis anos por depressão, o que poderia ser evitado com a OHB.

Passeroti ressalta, no entanto, que o tratamento na câmara hiperbárica é um adjuvante ao tratamento convencional. “A câmara hiperbárica não é milagrosa. É um adjuvante. Você tem antibióticos, terapia e acompanhamento por profissionais”, salienta.

____________________

Envenenamento

O envenenamento causado por picadas de aranha, cobra e escorpião é uma das diversas patologias que podem ser tratadas com sessões de oxigenoterapia hiperbárica (OHB), aponta o médico Sérgio Passerotti.

Aliadas ao tratamento convencional, as sessões de OHB ajudam a evitar que o indivíduo sofra amputação de algum membro e, posteriormente, venha a falecer por causa dessa amputação decorrente do envenenamento.

Ele cita como exemplo o caso da aranha marrom, cujo veneno pode chegar rapidamente à corrente sangüínea, além de causar necrose no local que sofreu a picada. Se o paciente for submetido a OHB, além dos demais tratamentos utilizados neste caso, é possível evitar que o quadro se agrave a ponto do paciente morrer, como já aconteceu.

____________________

Regulamentação

Em 1995, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) regulamentou o uso da oxigenação hiperbárica, sendo sua indicação de exclusiva competência médica. As indicações para a câmara hiperbárica são controladas pela Sociedade Brasileira de Medicina Hiperbárica (SBMH).

Na medicina, o tratamento com oxigenoterapia hiperbárica teve sua origem nas atividades de mergulho, ligada à exploração do ambiente subaquático, onde começaram a surgir problemas vindos da exposição excessiva do homem a este meio, como doença descompressiva.

____________________

Indicações

De acordo com a resolução 1.457/95 do Conselho Federal de Medicina (CFM), o tratamento com oxigenoterapia hiperbárica é indicado em casos de embolias gasosas, doenças descompressivas, embolia traumática pelo ar, envenenamentos por CO, inalação de fumaça, cianeto ou derivados cianídricos, gangrena gasosa, síndrome de Fournier, celulites, fasceítes e miosites, isquemias agudas traumáticas (lesão por esmagamento, síndrome compartimental, reimplantação de extremidades amputadas e outras).

O tratamento também é recomendado para casos de vasculites agudas de etiologia alérgica, medicamentosa ou por toxinas biológicas (aracnídeos, ofídios e insetos), queimaduras térmicas e elétricas, lesões refratárias (úlceras de pele, pés diabéticos, escaras de decúbito, úlcera por vasculites auto-imunes, deiscências de suturas), lesões por radiação lesões actínicas de mucosas, retalhos ou enxertos comprometidos ou de risco, osteomielites e anemia aguda, nos casos de impossibilidade de transfusão sangüínea.

Comentários

Comentários