A maior visibilidade de ação filantrópica e conscientização humana e ambiental no mundo ocorre através de personalidades famosas, que têm um papel crescente nos meios de comunicação divulgando a necessidade de nos preocuparmos com a fome na África, o extermínio da floresta amazônica, o desalojamento de pessoas vitimadas por inundações e a guerra travada em alguns países como Líbano e Iraque. Por um lado, a evidência dos fatos é tamanha que o apelo solidário mundial se torna urgente, e por outro, esse apelo tem sido praticado sob o amparo da notoriedade, quando uma situação vira problema em decorrência de seu anúncio por alguém tido por importante.
Desde jogadores de futebol até empresários da informação e cantores renomados, os exemplos são infindáveis. O cantor Bono Vox, do grupo U2, freqüentemente conscientiza seus fãs e espectadores sobre alguns problemas da humanidade, principalmente na luta contra a pobreza mundial, que o levou a ser indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 2006. Além disso, seu envolvimento em campanhas de auxílio a países pobres se estende à promoção de eventos, concertos e ações de erradicação da pobreza, sobretudo no continente africano. Paul McCartney está nessa também. É claro que toda ajuda é bem-vinda.
Recorda-se uma gravação de Tim Maia falando francamente sobre as desigualdades no Brasil enquanto estava na praia da Barra da Tijuca. Faustão, não tem Domingão em que ele deixe de fazer qualquer apelo humanitário. Michael Jackson compôs a música “We are the world” com outros cantores famosos. Bill Gates doou US$ 100 milhões para ajudar no combate à aids na Índia, entre outras doações, e foi considerado a pessoa mais generosa com instituições de caridade nos Estados Unidos, segundo a revista “Business Week”. Até as personalidades de torneios de pôquer beneficiam instituições de caridade. O eco de algumas dessas pressões alcança as principais organizações e grupos internacionais.
O fato de essas pessoas serem notórias permite que seus apelos e mensagens sensibilizem com maior eficiência. Afinal, quem é mais convincente: uma personalidade famosa falando na televisão ou uma pessoa desconhecida? Ademais, é muito fácil comentar sobre alguma mazela ou deficiência do mundo sem ter muita idéia do que está falando, nem estar lá para ver como é, embora muitos estejam cientes da situação a que se referem. A partir disso, pode-se citar alguns absurdos que se ouvem sobre a guerra no Iraque (entendida como se fosse uma partida de videogame) ou métodos de combate a violência no Brasil (como se só se tratasse de aumentar o número de policiais nas ruas).
A contribuição dos notórios é valiosa e necessária. A confusão que não pode existir é a de acreditarmos que a caridade só pode ser feita se tivermos muito dinheiro ou se formos famosos. Na verdade, não é isto que vale, pois é muito fácil para o rico canalizar parte de seus ganhos para instituições filantrópicas ou para o notório dizer que condena a guerra. O problema é quando a caridade se transforma em artifício para que o artista fique ainda mais famoso e se destaque por suas ações, visto que a fama é inusitada e venerada, portanto o que disser tem impacto. O mundo precisa deles, mas, acima de tudo, de todos os demais para que pratiquem ações notórias por sua própria natureza.
O autor, Bruno Peron Loureiro, é bacharel em relações internacionais