São Paulo - A Polícia Civil de São Paulo está autorizada a apreender todas as máquinas caça-níqueis existentes no Estado. A ordem foi dada pelo juiz Edson Brandão, da 5.ª Vara Criminal de São Paulo, que na quinta-feira passada concedeu liminar considerando esses equipamentos como “jogos de azar”. Segundo balanço parcial da Secretaria de Segurança Pública (SSP), a Polícia Civil de São Paulo apreendeu e lacrou 3.844 máquinas até as 8h de anteontem.
Os equipamentos recolhidos depois desse horário ainda não foram contabilizados. Pela liminar, as oito delegacias seccionais da Capital paulista estão autorizadas lacrar as máquinas de caça-níqueis que forem encontradas no Estado sem necessidade de avaliação pericial. Segundo estimativa do diretor do Departamento de Polícia Judiciária da cidade de São Paulo, Aldo Galiano, existem 300 mil máquinas de caça-níqueis no Estado - 180 mil na Capital.
A ofensiva ocorre paralelamente à Operação Hurricane (furacão) da Polícia Federal (PF), que desarticulou no último dia 13 uma organização criminosa especializada na compra de sentenças para beneficiar a máfia de jogos. Logo depois, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 3.ª Região cassou duas liminares que garantiam o funcionamento de 57 bingos - a maioria deles em São Paulo.
Hurricane
Licínio Soares Bastos e Laurentino Freire dos Santos admitiram ontem para a juíza Ana Paula Vieira de Carvalho, da 6.ª Vara Federal Criminal do Rio, que já tiveram algum tipo de relação com casas de bingo. Os dois foram presos com mais 23 na Operação Hurricane, que desarticulou uma quadrilha especializada na compra de sentenças judiciais para beneficiar a máfia do jogo.
O advogado Manuel de Jesus Soares, que defende Nagib Teixeira e João Oliveira, assistiu aos depoimentos e informou que Licínio e Laurentino disseram que hoje não têm mais nenhuma ligação com o setor de bingos - tiveram no passado. Para a juíza, afirmaram atuar hoje no ramo hoteleiro. De acordo com o advogado, Laurentino disse ter sido sócio de Licínio num bingo no passado. Já Licínio teria afirmado que na época representava como procurador os interesses de uma empresa estrangeira nesse bingo.
A juíza também ouviu ontem Belmiro Martins Ferreira, dono da empresa Betec Games, por meio da qual foi impetrado mandado de segurança junto ao Tribunal Regional Federal (TRF) da 2.ª Região para devolver as 900 máquinas de caça-níqueis que haviam sido apreendidas. Segundo a denúncia, a quadrilha pagou R$ 1 milhão para o desembargador José Eduardo Carreira Alvim, do TRF da 2.ª Região, decidir de maneira favorável aos bingueiros.
Segundo a Polícia Federal, os três atuavam como operadores de Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães; Antonio Petrus Kalil, o Turcão; e a Aniz Abraão David, o Anísio. Os presos sem foro privilegiado permanecerão no Batalhão Especial Prisional da Polícia Militar, em Benfica, até o final dos depoimentos. Depois, segundo a Justiça, devem ser transferidos para Campo Grande. Todos eles foram presos no dia 13 numa megaoperação da Polícia Federal, que atingiu magistrados, bicheiros, policiais, empresários, advogados e organizadores do Carnaval do Rio.
Eles são acusados de praticar os crimes de tráfico de influência, corrupção passiva e ativa, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Dos 25 presos inicialmente, quatro (com foro privilegiado) foram soltos no final de semana: ex-vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 2.ª Região, desembargador federal José Eduardo Carreira Alvim; o desembargador federal José Ricardo de Siqueira Regueira, também do TRF da 2.ª Região; o juiz Ernesto da Luz Pinto Dória, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 15.ª Região, e o procurador regional da República do Rio João Sérgio Leal Pereira.
Os 21 restantes tiveram a prisão preventiva decretada. Mais tarde, a Justiça decretou a prisão de mais três, elevando para 24 o número de denunciados no inquérito que tramita na 6.ª Vara Criminal do Rio.
Os quatro acusados com foro privilegiado terão de apresentar defesa ao Supremo Tribunal Federal (STF). Depoimentos Os depoimentos começaram na quinta-feira, quando a juíza ouviu os três primeiros depoimentos dos 17 acusados: Ailton Guimarães Jorge (Capitão Guimarães), Aniz Abraão David, Antonio Petrus Kalil (Turcão). Na sexta-feira, ouviu mais três: José Renato Granado Ferreira, Paulo Roberto Ferreira Lino, que negou qualquer relação com a máfia dos jogos, e Júlio César Guimarães Sobreira, que não respondeu a nenhuma pergunta, exceto seu nome, do advogado e endereço.
Pelo calendário da PF, os outros acusados prestarão depoimento a partir de quarta-feira, devido ao feriado do Dia do Trabalho, comemorado hoje. Na quarta-feira serão interrogados José Luiz da Costa Rebello, Ana Cláudia Rodrigues do Espírito Santo e Jaime Garcia Dias. Na quinta-feira, a Justiça irá ouvir Evandro da Fonseca, Silvério Nery Cabral Jr. e Sérgio Luzio Marques de Araújo.
No dia 4 de maio serão interrogados Virgílio de Oliveira Medina, Luiz Paulo Dias de Mattos e Nagib Teixeira Sauid. Os dois últimos interrogados - João Oliveira de Farias e Marcelo Kalil Petrus - serão ouvidos no dia 7 de maio, com audiência marcada para as 11h.