Brasília - Em articulação que teve a participação direta do Palácio do Planalto, a base do governo na Câmara traçou um roteiro para abafar logo no início a CPI do Apagão Aéreo, que deverá ser instalada hoje à tarde.
O governo terá pelo menos 15 dos 24 integrantes da comissão, uma margem confortável para controlar ritmo e alcance. PT e PMDB, partidos que devem ficar com a relatoria e a presidência, respectivamente, devem divulgar os deputados que comporão a comissão somente hoje pela manhã, ignorando um apelo do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), de que isso ocorresse até a meia-noite de ontem.
O mapa traçado pelo governo prevê que as primeiras duas sessões sejam uma espécie de “aula magna” sobre como funciona o espaço aéreo brasileiro, segundo a reportagem apurou. Um representante da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e outro da Aeronáutica explicariam aos deputados como funciona o espaço aéreo brasileiro e como são divididas as responsabilidades entre os diversos órgãos envolvidos. A partir daí, a comissão pararia por ao menos uma sessão para detalhar os procedimentos.
O primeiro foco seria o acidente com avião da Gol no ano passado, que matou 154 pessoas. Um dos primeiros convocados deve ser o delegado da Polícia Federal Renato Sayão, de Cuiabá (MT), responsável pela investigação do acidente.
A justificativa dos governistas é que o acidente foi o fato que desencadeou toda a crise. Numa segunda fase, o foco mudaria para os vários atrasos nos aeroportos e para o motim dos controladores de vôo. Isso seria suficiente, segundo esperam governistas, para esfriar as acusações contra a Infraero (estatal que administra os aeroportos).
O governo sabe que é inevitável entrar nesse assunto em algum momento, mas quer adiá-lo o quanto puder. O argumento será que investigar a Infraero fugiria do escopo da investigação, previsto no requerimento da CPI. Cargos na comissão O dia ontem foi de reuniões para definir os membros e a estratégia de atuação dos partidos.
A tendência é Marcelo Castro (PMDB-PI) ficar na presidência e o petista Marco Maia (RS) ocupar a relatoria. No final da tarde, o líder do PT, Luiz Sérgio (RJ), saiu de uma reunião com sua bancada para um encontro com o ministro das Relações Institucionais, Walfrido dos Mares Guia.
“Não podemos deixar que o ‘mico’ da CPI dos Bingos se repita”, declarou Sérgio, sobre a comissão de 2006 que trabalhou em mais de dez frentes de investigação contra o governo. A oposição promete lutar até a última hora para ter ao menos um dos postos-chave da CPI, mas sabe que é uma batalha perdida.
“O correto seria que tivéssemos pelo menos a relatoria. Vamos fazer uma manifestação para dizer que não concordamos. Será um protesto pela maneira como o governo, mais uma vez, quer nos tratar”, disse o líder da oposição, Júlio Redecker (PSDB-RS).
A oposição estuda lançar uma candidatura de protesto para o posto de relator, que seria a de Vanderlei Macris (PSDB-SP). Porém, a prioridade, como diz o presidente do DEM (ex-PFL), Rodrigo Maia (RJ), é pela instalação da CPI.