Pesca & Lazer

História de pescador: O fumante e o pescador


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Foi uma cena chocante, abalou toda a região, pois o crime se deu por motivo fútil e com requinte de crueldade, em que a vitima atacada a traição não teve a menor chance de defesa. Por questões obvias, vou omitir os nomes do assassino e da vitima, um casal que morava na zona rural próximo a Domelia.

Num domingo pela manhã, quando a mulher preparava o almoço socando arroz no pilão, era observada pelo marido e, no momento em que ela parou de socar, deixou o socador ou a mão de pilão encostada na parede do rancho e abaixou para pegar a peneira onde ia abanar e escolher o arroz já socado. Foi quando o marido arma-se com o pesado pau do socador e desfere várias pancadas na nuca da pobre mulher e em seguida foge, passando vários dias no mato até cair em captura.

Eu ainda não conhecia essa história quando resolvi ir pescar por aqueles lados, onde passei uma terrível experiência. Não tive um enfarto porque era moço novo, mas dei-me por satisfeito ao constatar apenas arranhões por todo o corpo e com maior gravidade nas faces ,e mais o prejuízo, pois perdi toda a minha tralha de pesca, e olha que a minha tralha era completa, rica em apetrechos, anzóis dos mais variados tamanhos e todos separados em uma caixa de compartimentos, carretéis de linha indiana de vários números, canivete, uma faca niquelada, chumbadas de diversos pesos, um gasômetro a carbureto. Além disso, continha um feixe de varas que me permitia pescar de lambari a traíra e um farolete a pilhas, que naquele tempo era uma verdadeira raridade para um pescador do meu porte, pois contava apenas com 17 anos de idade.

Isso se deu em 1953. Eu gostava muito de ir pescar no rio Turvinho, um afluente do Turvo, ali nos campos de Agudos, quando os canaviais não iam além dos quintais dos avarentos usineiros.

Foram mais de 3 quilômetros em meio ao mato fechado até chegar numa bela curva do rio coberta pela mata escura que não permitia às águas refletirem o clarão do céu. Era um poço onde as águas faziam um rodamoinho constante e as folhas secas que rodavam pela leve correnteza sumiam naquele bonito funil de água limpa.

Já passava das 16h, mas parecia bem mais tarde, tinha-se a impressão de que já ia escurecendo. Minha intenção era ficar no máximo até lá pelas 20h. Fui ajeitando meu pequeno acampamento, limpei um bom espaço, onde fui destrinchando minha tralha de estimação, coloquei água no gasômetro, abasteci com as pedras de carbureto e deixei pronto para usá-lo quando fosse preciso.

Numa frondosa candeia, dependurei minha matula de lanche, que na verdade eram apenas dois pãezinhos, pois os primeiros lambaris seriam fritos para recheio e outros seriam iscas. Rapidamente pesquei alguns lambaris e uns mandis, com os quais isquei quatro anzóis para tabarana e possíveis bagres de grande porte.

Deixei meus anzóis de espera e fui preparar os outros lambaris para aquilo que seria minha janta de pirangueiro solitário. Limpei meia dúzia de peixinho do rabo vermelho, botei sal e fui preparar meu fogareiro para a fritura em uma sertã que me acompanhava em todas pescarias. Enquanto isso o sol mergulhava no horizonte levando consigo o dia daquele sábado quente e abafado.

A escuridão veio como que de repente e terminei meu “lauto jantar” já sob a luz e cheiro do carbureto, pois já era noite fechada e somente as estrelas se exibiam por entre as folhas das copas da mata ciliar que emolduravam a sinuosidade do rio Turvo.

Como tudo transcorria tranqüilamente, apaguei o lampião e fiquei apenas com um borralho no chão para espantar cobras. Com isso o silêncio tomou conta do lugar. Sapos e grilos eram os donos da noite em uma animada orquestra em que os mais variados tons se revezavam - aquilo para mim era de fato uma sinfonia. De repente comecei a ouvir um pequeno barulho que vinha pela trilha que eu havia usado para chegar ao rio; era um puído carreiro de pacas e capivaras e pensei com meus botões: “ - É paca”.

Resolvi permanecer imóvel e pegá-la de surpresa. Isso me impediu de pegar a garrucha que no momento não estava na cintura. Mal respirava para não espantar a visitante que eu já via como uma presa fácil, e o barulho foi se aproximando quando alguém praticamente sussurrou nas minhas costas. “- O senhor tem fumo?”.

Foi o maior susto de toda a minha vida. Desembestei mato adentro totalmente sem rumo. Depois de uns 15 minutos rasgando no peito a escuridão da noite, consegui organizar as idéias e buscar um rumo para voltar a estrada que me levaria pra casa.

Passado alguns dias fiquei sabendo que não se tratava de assombração e que possivelmente era um morador da região que havia assassinado sua esposa e estava refugiado naquela mata há alguns dias e, ao perceber a presença de um pescador, sentiu a possibilidade de fazer um cigarro de palha.

Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.

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