Um amigo médico de mente aberta (síndrome de baixa incidência) introduziu-me recentemente à auto-hemoterapia, assunto que vem ganhando corpo graças a um depoimento gravado pelo médico carioca de 81 anos, dr. Luiz Moura, que circula em DVD e pela Internet. Para quem não conhece, a auto-hemoterapia consiste na retirada de sangue da veia do paciente e subseqüente injeção do mesmo sangue no músculo do braço ou nas nádegas. Segundo o médico carioca, o organismo interpreta o sangue intramuscular como corpo estranho e, ao reagir, produz o aumento do volume de células de defesa (macrófagos) de um normal de 5% para 22%. Em decorrência, os benefícios são inúmeros, possibilitando a cura de uma série de moléstias ou atuando como coadjuvante em tratamentos tradicionais. O custo do procedimento, que deve ser repetido semanalmente, é ínfimo, resumindo-se a uma seringa descartável e 5 minutos do tempo de um profissional habilitado.
Não estou aqui recomendando o uso dessa técnica a ninguém. A quem estiver interessado recomendo assistir o DVD do Dr. Moura, que dura duas horas e meia e é muito detalhado, consultar seu médico de confiança, e formar sua própria opinião, já que o assunto é polêmico e é dessa polêmica que quero tratar. A auto-hemoterapia pouco tem sido abordada pela imprensa em geral, mas a Rede Globo veiculou uma matéria no Fantástico de 22/04/07 que ainda pode ser assistida no site da emissora na Internet onde é identificada como “uma técnica popular, mas sem fundamento”. Embora aparentemente isenta no tratamento do assunto, a competente equipe de jornalismo da emissora, infelizmente, não encontrou um único profissional da medicina que falasse positivamente sobre a terapia. Apresentou apenas o depoimento de uns poucos pacientes que declararam terem se curado de doenças com essa técnica. Por outro lado, entrevistou uma série de figurões de entidades profissionais da medicina que se posicionaram veementemente contra o procedimento. Vale destaque a fala do presidente do Conselho Federal de Medicina, sr. Edson Andrade, que em uma total falta de ética e respeito com um profissional médico de 81 anos declarou: “trata-se literalmente de uma picaretagem, não tem nenhum fundamento científico. Estamos no bojo de uma grande articulação para auto-benefício e de esquema pra auferir lucro em detrimento da saúde das pessoas“. Fácil notar que ele sequer assistiu o DVD do Dr. Luiz Moura, pois teria notado que trata-se de uma produção caseira, de um médico que acredita em uma terapia, que aprendeu com seu pai também médico e pretende divulga-la ao final de sua vida, e jamais se locupletar de qualquer forma.
Algumas ponderações. A terapia não é nova, já era usada desde os anos 1.800 na forma de ventosas, que funcionavam sim, ou não seriam usadas. Com o advento dos antibióticos na década de 40 do século passado, foi abandonada. Existem, portanto, sólidas evidências de sua eficácia. O principal argumento contra a técnica é que não existe comprovação cientifica de sua eficácia, ou seja, seria necessário o acompanhamento de centenas de casos de sua aplicação comparados com centenas de casos paralelos com aplicação de placebo, a um custo muito alto, sem que se pudesse auferir lucro, já que, ao final, nenhum medicamento seria patenteado ou vendido. Sintomático que nenhuma das autoridades entrevistadas pela Globo tenha dito que não há comprovação cientifica, mas que, face às evidências, o governo, como maior interessado, deveria bancar a pesquisa. Ao invés disso, a Anvisa, que informou jamais ter recebido uma denúncia de prejuízo à saúde por auto-hemoterapia, e o Conselho Nacional de Medicina proibiram a utilização desse procedimento. Existe um terrível vírus da desconfiança que afeta minha mente e me faz ficar pensando se a poderosa indústria farmacêutica não estaria incomodada com a divulgação de terapia tão barata e eficaz. Fico matutando, ainda, até onde esse lobby pode afetar a opinião de líderes profissionais ou o comportamento da imprensa. Preciso me livrar desse vírus da desconfiança, acho que vou fazer auto-hemoterapia. Urgente!
(O autor, Eric Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião. eric@mstecnologia.com.br)